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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 12.09.12

Capítulo 15

Caroline

 

Caroline sentiu um arrepio e abriu os olhos. Endireitou-se, doíam-lhe as costas. Olhou em volta, ainda ensonada, e só então é que as lembranças do dia anterior lhe vieram à cabeça. Tinha passado a tarde mais maravilhosa de toda a sua vida, ao lado do rapaz mais maravilhoso que alguma vez conhecera, e então de súbito a magia tinha acabado. Não podia dizer que não estava contente por Cindy ter voltado, não queria passar a vida inteira a fingir ser outra pessoa, mas não estava pronta para desistir de tudo tão depressa.

Tinha comprado uma passagem de autocarro para San Diego, para a partir de lá decidir o que fazer a seguir, mas o autocarro apenas viria ao meio dia. Por isso dormira na paragem, em cima daquele pequeno banco de ferro, completamente enrolada no casaco preto que Keith lhe dera e agarrada à mochila cheia de dinheiro. Viu as horas no telemóvel, eram onze e meia. Ainda tinha meia hora, por isso foi a um café buscar um bolo e voltou para a paragem, onde se sentou a comê-lo. Decidiu depois vasculhar bem o que tinha na mala, e encontrou uma fotografia dobrada, Keith deve tê-la escondido sem que Joseph visse. Ao desdobrá-la, viu que era ela no meio de Keith e Nate, há poucas tardes atrás, quando os três tinham combinado ir jogar basquetebol. Reparou no sorriso que os três mostravam, mas depressa ficou triste. Olhou então para si. Vestia umas calças de ganga e uma blusa branca, com o casaco preto por cima. Nos pés tinha os seus ténis velhos e gastos. “Fui tão estupida”, pensou, “não acredito que cheguei a pensar que podia ficar com ele. Raparigas como eu nunca ganham um final feliz”.

 

✽✽✽

 

Nate ainda olhava aparvalhado para Keith.

- O que queres dizer… ela não é a Cindy? – Perguntou, sem perceber onde o amigo queria chegar.

Keith respirou fundo.

- Não é assim. Credo, é uma longa história. Aquela rapariga ali – ele apontou para Cindy – é a Cindy Geller. Mas a rapariga de ontem, e dos outros dias antes, não era.

Nate franziu as sobrancelhas. Aquela história parecia-lhe completamente absurda. E, no entanto, na sua cabeça fazia perfeito sentido.

- Eu sabia – murmurou – Eu conheço a rapariga que amo, e sabia que não era aquela! Mas como é que isso…

Keith levou a mão ao bolso e de lá tirou o telemóvel. Foi até à lista de contactos e pôs a chamada a decorrer, passando o telemóvel depois ao amigo. Nate olhou para ele desconfiado, mas depois levou o telemóvel ao ouvido.

- Vou-te dar alguma privacidade.

Keith começou a desviar-se e, segundos depois, a chamada foi atendida. Caroline estranhara ele telefonar-lhe, mas pensou que talvez tivesse havido alguma emergência.

- “Estou?” – Atendera ela. Ao ouvir aquela voz, e a confirmar que Cindy não tinha nenhum telefone na mão, o coração de Nate disparou a duzentos – “Keith?”

- Não… - murmurou ele, para surpresa da rapariga – É o Nate. Onde estás?

- “Nate? Como é que tu…?”

- Então é verdade, não é? Porque estou a olhar directamente para alguém que se parece imenso contigo, mas essa pessoa não está a falar ao telemóvel – Caroline fechou os olhos, e Nate respirou fundo – Como é que te chamas?

- “Nate… desculpa. Não te queria mentir mas…”

- O teu nome verdadeiro – insistiu ele.

- “Caroline. Chamo-me Caroline. Por favor, se me deixares…”

- E onde estás?

- “Numa paragem de autocarro”.

- Porquê? – Aquela pergunta surpreendeu Caroline. “Porquê?”.

- “Porque a Cindy voltou. Não posso continuar aí. Era esse o acordo”.

Nate voltou-se para a árvore e deu-lhe um pequeno murro de frustração, para depois suspirar.

- Então… nunca mais te vou ver?

- “Não. Desculpa… todo este tempo estive a fingir ser alguém que não sou… e é tão cansativo. Ao princípio achei que não ia ser capaz, mas então conheci-te, e a todas as outras pessoas maravilhosas e… gostava de poder continuar aí”.

- Então porque não continuas?

Com aquela pergunta Caroline ficou confusa. Como podia ele, depois de tudo o que ela lhe fizera, pedir-lhe para ficar?

- “Não estás zangado comigo? Menti-te”.

- Estou confuso. Mas não acredito que tenhas mentido todo o tempo. Acho que os beijos foram reais, e aquela tarde na praia. Estiveste sempre pronta para ajudar quem quer que fosse, e eu não acho que isso fosses tu a fingir ser a Cindy. Essa era a Caroline, a verdadeira Caroline, estou errado? O que é que acontece agora?

- “Agora… desapareço. Acredita, é o que sei fazer de melhor. Talvez não tenha nascido para ter grandes amigos, e um namorado, e uma boa vida… Vivi nas ruas a minha vida inteira Nate, e consigo desenrascar-me bem sozinha”.

- Não estou preocupado contigo. Estou preocupado comigo. O grande jogo é daqui a duas horas… como é que vou conseguir jogar sem a minha grande treinadora a dar-me apoio? – Nate tentou, em vão, melhorar um pouco a conversa melancólica entre os dois.

Caroline exibiu um pequeno sorriso, apesar da tristeza que sentia.

- “Vais arranjar uma maneira”.

- Fica. Apenas por alguns dias. Não vás embora assim, não sem dizeres adeus.

O autocarro parou à frente da rapariga, e ela engoliu em seco. Era agora, a hora da verdade. Tinha que ir. Deixar tudo para trás e começar uma nova vida.

- “Desculpa Nate… não sou boa em despedidas. Tenho que ir, cuida-te”.

Caroline desligou sem dizer mais nenhuma palavra e entrou no autocarro.

Nate olhou para Keith, que o observava a poucos metros, e depois dirigiu o olhar para o chão, desanimado. Poucos segundos depois sentiu a mão do amigo no seu ombro, e passou-lhe o telemóvel ao mesmo tempo que soltava um breve suspiro.

- Agora já sabes – constatou Keith, que também se encostou à árvore.

- Porque é que não me disseste antes? – Questionou Nate, ainda sem saber bem o que pensar.

- Não pude. Ninguém podia saber, o acordo era assim. Ela fingia ser a Cindy até ela voltar, e depois ia embora. O plano nunca foi fazê-la ficar. Lamento, meu.

Nate abanou a cabeça e depois mirou o céu.

- Sim… eu também – depois de alguns minutos de silêncio, a voz dele voltou a fazer-se ouvir – Fala-me dela.

- Da Caroline? É espantosa – Keith riu – O contrário da Cindy em todos os aspectos.

- Como é que veio aqui parar?

- Acho que os pais a abandonaram, apesar de terem ficado com a Cindy…

- Escolheram a filha errada – murmurou Nate, entre dentes, sem que o outro reparasse.

- Até aos treze anos viveu com um traficante chamado Roger, mas depois fugiu. Há umas semanas a Cindy desapareceu, e o meu pai foi buscá-la. E não, não sei como é que ele sabia onde ela estava. Já perguntei e perguntei, mas ele não me diz. De qualquer maneira, ele ofereceu-lhe cinco mil dólares para que ela ficasse e fingisse ser a Cindy. Ela sempre quis fugir para outro país para ficar livre do Roger, por isso aceitou. Só eu e o meu pai é que sabíamos. Era por isso que não queria que te apegasses tanto a ela… nem ela a ti. Desculpa não ter dito nada.

O rapaz dos olhos verdes engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Era o rapaz mais cobiçado entre as raparigas; tinha dinheiro e pertencia a uma das famílias mais poderosas de Beverly Hills, mas de que lhe servia isso quando não podia ter a única coisa que queria?

- Caroline… - sussurrou.

 

✽✽✽

 

Aos poucos a cidade ia-se afastando. Caroline olhava pela janela do autocarro com lágrimas nos olhos. Voltou a tirar a fotografia do bolso e desdobrou-a, desejando poder voltar àquele dia, àquele segundo onde todos estavam contentes. Olhou para Nate, e deixou que uma lágrima lhe escorresse pela bochecha. Após tantos anos a fugir, finalmente tinha encontrado um sítio de onde desejava não ter que ir… mas era mesmo nesse sítio onde não podia ficar.

 

Palpites para o próximo capítulo? :b

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