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Destinos Trocados

por Andrusca ღ, em 13.09.12

Capítulo 16

O Jogo

 

Já se podia assistir à animação presente dentro e fora do ginásio do liceu. Os alunos amontoavam-se à porta, a conversar, com qualquer pessoa que passasse. Também pais e professores iam assistir ao jogo de basquetebol, sendo ele tão importante para classificar a equipa, ou não, como a melhor de todos os liceus. Ganhavam aquele jogo, ganhavam a taça. O campeonato acabava e eles eram campeões.

Cindy estava a falar com Phoebe à entrada do ginásio quando viu duas figuras conhecidas a aproximarem-se. Estranhou vê-los ali, por isso despediu-se da amiga e foi ter com eles.

- Mãe… pai… - murmurou, surpreendida. De manhã, quando acordara, já nenhum deles estava em casa, por isso ainda não os tinha visto – O que estão a fazer aqui?

Terry franziu as sobrancelhas.

- O que queres dizer? – Perguntou – Tu é que nos convenceste a vir a este jogo, lembras-te? Que tínhamos que fazer mais tempo para a família, e menos para o trabalho…

Cindy revirou os olhos. “Aquela rapariga está a estragar tudo”, pensou.

- Claro que me lembro – mentiu – Então vamos lá, já que tenho que vos aturar neste tempo, mais vale irmos procurar um lugar.

Entraram juntos e sentaram-se nas bancadas, onde já havia poucos lugares a sobrar.

Cindy não se conseguia lembrar da última vez em que estivera com os pais na escola, ou qualquer outro sítio público que não fosse um restaurante caro devido aos negócios destes. Caroline estava a tentar mudar isso, estava a tentar fazê-los perceber que a família é a única riqueza que importa.

Entretanto, nos balneários, a equipa ia começando a despachar-se. O jogo começava em menos de meia hora. Todos os jogadores já estavam a mudar de roupa e a guardar os pertences nos respectivos cacifos, menos Nate, que se encontrava sentado no banco a “olhar para o além”. A agitação naquele balneário não o atingia de modo nenhum, pois apenas pensava na conversa que tinha tido com Caroline há pouco mais de uma hora atrás.

- Meu, veste-te! – Keith deu-lhe uma pancadinha no ombro, acordando-o daquela espécie de transe, e Nate suspirou.

Levantou-se e trocou a sua roupa pelo equipamento vermelho, vestindo a sua t-shirt com o número catorze. Que péssima altura para estar de cabeça no ar. Era o melhor marcador da equipa, o capitão, e não se conseguia concentrar em nada. Se perdesse aquele jogo, perdiam o campeonato, e ele ia detestar ser o causador disso.

- Concentra-te – exigiu-se, à medida que fechava o seu cacifo.

Depois de os membros da claque terem entretido o público por alguns minutos, de o treinador ter dado algumas palavras de incentivo, e de os jogadores terem entrado em campo e cumprimentado os da equipa adversária, todos se puseram em posição e o jogo começou. Aos primeiros três minutos Nate fez um mau lançamento, permitindo a que a outra equipa ganhasse a bola e, seguintemente, marcasse. Um pequeno ruido de desagrado foi feito nas bancadas, e Nate abanou a cabeça frustrado.

 

✽✽✽

 

Caroline corria pela rua a uma velocidade consideravelmente rápida. Já nem se lembrava da última vez que tinha empurrado aqueles ténis velhos contra a calçada com tanta força. Já mal sequer se lembrava da última vez que tinha fugido de Roger.

Tinha a noção de que as pessoas estavam a observá-la, a vê-la passar e a perguntarem-se o porquê de “Cindy Geller” exibir uma roupa modesta, um cabelo desgrenhado e um calçado tão pobrezinho. Sabia que muitas iam comentar, telefonar às amigas a conjurar hipóteses para explicar o que tinham visto, mas não se importava. De manhã o céu estava limpo, o sol brilhava, mas as nuvens começaram a chegar de um modo veloz e começou a chuviscar sem qualquer aviso prévio. Caroline, sem perder tempo, colocou o capuz do casaco de Keith na cabeça e não abrandou o passo. Não ia parar, apesar do cansaço que sentia. Não ia parar até chegar a onde queria. Enquanto sem querer chapinhava nas poças já criadas pela pouca chuva que caía, pensava se Joseph já se tinha apercebido do que acontecera. “Desculpa Joe, afinal não sou uma rapariga prática. Não consigo fazer o combinado, por isso não posso aceitar o teu dinheiro”, deixara escrito num post-it, em cima da mochila preta que deixara no topo da mesa da cozinha da casa dos Geller apenas há poucos minutos atrás. Sabia que estava prestes a agitar um furacão, talvez até a declarar uma guerra, mas não se importava. Porque raios se havia de importar com o que Cindy achava? Ela não tinha nenhuma moral para a expulsar. Porque haveria de pensar que não devia aparecer ao pé dos pais? Eles tinham-na abandonado, mas ela era livre para escolher ficar. Livre… seria Caroline realmente livre? Sabia que Roger ainda andava à solta, sabia que mais tarde ou mais cedo a encontraria. Mas também sabia que estava mais do que cansada de se esconder e fugir. Queria parar. Queria começar a viver a vida que idealizara para si.

Abriu a porta dupla do ginásio e entrou. Ninguém olhou para si, tal como ninguém reparou como escorria água por todos os sítios, pois estavam todos “colados” ao jogo.

Caroline encostou-se à bancada e andou até à frente, ficando a espreitar da lateral. Não lhe importou o resultado, até porque de uma cabine no topo das bancadas era reportado todo o jogo. Só o queria ver a ele. E, após poucos segundos à procura, viu-o. Estava a tentar apanhar a bola. Olhou depois para o resto dos jogadores, e viu que Keith estava a correr na direcção dele. Sentiu um arrepio, mas não se mexeu. Pela primeira vez notou quão ensopadas aquelas roupas estavam, e percebeu que tinha frio. Mas queria ver o resto do jogo, faltavam apenas minutos para o fim.

-… e é ponto da equipa visitante… - anunciou-se ao altifalante, ao mesmo tempo que a outra equipa marcou – Deixando assim um resultado de 44 para 42.

O treinador da equipa da casa pediu tempo, e reuniu todos os jogadores. Estavam todos em roda, com ele no meio, e pareciam desanimados.

- Nate! – Ralhou ele – O que é que se passa contigo? És o capitão da equipa, não podes estar assim desconcentrado num jogo desta amplitude!

- Desculpe treinador – lamentou-se ele – Vou estar mais atento.

- Faltam três minutos para o jogo acabar, e estamos a dois pontos da vitória. Força! – Incentivou.

Voltaram ao campo e o jogo continuou. Keith conseguiu roubar a bola à equipa adversária, e passou-a a outro colega que, por sua vez, passou a Nate. O rapaz ia-se a virar para o lado onde teria que marcar cesto quando um jogador da outra equipa lhe deu um empurrão, mandando-o ao chão. O apito fez-se ouvir.

Caroline impulsionou-se para a frente, com o coração aos pulos, mas ao ver Nate a levantar-se deixou-se ficar quieta. Por momentos alguma confusão foi criada no campo, o outro jogador tinha feito claramente falta e o árbitro sabia. A bola sairia de Nate.

- Vá lá Nate – murmurou Caroline, com o coração nas mãos.

O rapaz agarrou na bola e engoliu em seco, enquanto olhava em volta. Olhou para as bancadas, onde via as pessoas a puxarem por ele, e depois para o campo, onde viu os colegas e os adversários já todos em posição. Respirou fundo e, à medida que ia olhar para o cesto, os seus olhos pararam numa figura imóvel perto das bancadas. A partir desse momento deixou de ouvir os aplausos da plateia e o que os outros jogadores e os treinadores diziam. A partir desse momento os seus olhos verdes ficaram vidrados no olhar azul da sua rapariga favorita. Caroline sorriu-lhe e ele fez o mesmo, sentindo subitamente que nem as dores da queda já se faziam sentir. Apenas parou de a olhar quando voltou a ouvir o apito, apenas segundos depois. Mandou a bola a Keith e desatou a correr para o cesto. Os segundos estavam a passar, o tempo estava a ficar curto. A bola foi roubada, mas um dos deles conseguiu reavê-la e passou-a a Nate, que encestou no último segundo. O apito soou, e o jogo acabou em empate. Ganhava a equipa da casa. Eram campeões.

A claque foi para ao meio do campo e os jogadores abraçavam-se uns aos outros, a festejar, enquanto a equipa adversária também os congratulavam pela vitória e depois se retirava para um canto. Nas bancadas todos começaram a gritar o nome da equipa e a festejar loucamente. Até os pais de Cindy e Caroline se levantaram, histéricos com o triunfo. Já Cindy, completamente apática a estes jogos, manteve-se quieta no seu lugar a desejar poder ir embora.

Nate tentou furar a multidão, só queria ir até ela, mas o treinador foi até ele e passou-lhe uma bonita taça para as mãos. Os colegas levantaram-no, mas depressa se conseguiu livrar das mãos que o agarravam. Passou a taça a Keith e correu até à lateral das bancadas, onde o esperava aquela rapariga bonita com o capuz preto a esconder a cara.

- Caroline! – Gritou ele.

Todos estranharam aquela atitude. O capitão da equipa não querer a taça, o capitão da equipa não querer festejar. E, por isso, todas as almas naquele ginásio o seguiram com os olhos.

Nate chegou até Caroline e, sem nenhuma palavra, abraçou-a e andou com ela à volta, pondo-a a rir.

- Caroline… - murmurou, agora num tom de voz normal. Caroline sorriu, era tão bom tê-lo a dizer o seu verdadeiro nome – Ficaste…

- Até agora nunca encontrei um sítio de onde não me quisesse ir embora… mas quando entrei naquele autocarro… não consegui ir. Tive que ficar – afirmou ela.

Ele exibiu o sorriso mais genuíno que alguma vez fizera, e voltou a abraçá-la e a rodar com ela. Foi nessa última roda que o capuz caiu e Caroline ficou exposta a todo o ginásio, mas nenhum deles os dois notou. Nate beijou Caroline perante o olhar de todas as pessoas, e depois sorriu.

Cindy levantou-se nessa altura, a estranhar a falta de barulho e o facto de estarem todos a olhar para o mesmo lado. Ficou pior que estragada por ver a irmã ali, à ponta de campo, com ele. Olhou para o lado e viu a expressão dos pais. Terry tinha lágrimas nos olhos, e Marshall estava a suportar o seu peso, também com o olhar brilhante. Nenhum deles percebia o que estava a acontecer, apenas que, por algum milagre, tinham ali a sua outra “bebé”.

- Vamos… anda! – Exclamou Marshall, para a mulher.

Puxou-a com velocidade e Cindy seguiu-os, furiosa, com medo do que pudesse vir a seguir. Estavam quase a chegar até Caroline e Nate quando a porta do ginásio se abriu de novo e entrou um homem de fato, que fechou o guarda-chuva. Joseph.

 

Então, prontos para desvendar um dos mistérios da história? É já no próximo capítulo :p

Entretanto, comentem este (a)

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