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O Deus Caído

por Andrusca ღ, em 02.10.12

Quarta Parte

 

Quando Kröll despertou, Natalie já não se encontrava ao seu lado. Um cheiro delicioso vinha de fora do quarto, por isso levantou-se e andou até à cozinha, onde a viu sentada à mesa com vários bolos pequenos lá em cima.

- Pequeno-almoço? – Perguntou, aparecendo por trás dela e dando-lhe um beijo na bochecha.

- Sim, fui à pastelaria ali no fim da rua. Dormiste bem?

- Sonhei com algumas coisas estranhas…

- Estiveste inquieto toda a noite, calculei que estivesses com pesadelos.

Kröll assentiu e ocupou uma cadeira ao lado dela. Comeram num clima íntimo e alegre, e depois decidiram ir dar um passeio pois Natalie apenas teria aulas de tarde. Estavam no parque, a olhar o céu, quando os olhos de ambos se arregalaram ao verem o que parecia ser um cometa a aproximar-se da Terra a uma velocidade fora do normal. Segundos depois, esse mesmo corpo vinha na direcção dos dois.

- Foge! – Disse Kröll, apesar de não haver tempo para tal.

Baixaram-se os dois e o Deus abraçou Natalie com força enquanto ela fechou os olhos. Ouviu-se um grande estrondo, a terra tremeu, mas eles continuaram intactos. Ao abrirem os olhos viram-se dentro de uma pequena cratera, e à frente dos dois estava um homem. Homem? Talvez não fosse a melhor palavra para o descrever.

- Quem és tu? – Perguntou Kröll, enquanto se levantava e ajudava Natalie a fazer o mesmo.

Zohrtha soltou uma gargalhada, e Natalie franziu as sobrancelhas ao ver a vestimenta dele. Tinha um fato de guerra, em tons de preto e cinzento, como se de um uniforme se tratasse. Tinha os cabelos negros apanhados num longo rabo-de-cavalo e ao cinto trazia uma espada. Kröll, ao observar também aquilo, sentiu uma dor enorme na cabeça e viu-se a si mesmo com uma vestimenta idêntica, porém com uma capa vermelha a adicionar. Depois desse rápido flash, a dor passou.

- Eu perguntei quem eras! – Gritou, para o outro.

- Olhem para ele – murmurou Zohrtha que, ao tirar a espada da bainha, fez com que um enorme vento se levantasse e todas as pessoas que assistiam àquilo caíssem – Um poderoso Deus… reduzido a nada.

Kröll voltou a elevar-se, deixando desta vez Natalie no chão, que assistia a tudo de um modo incrédulo.

- Do que falas? Não percebo o que dizes.

De novo Kröll sentiu uma picada no cérebro, e desta vez viu um palácio majestoso, o Solar Divino. Viu depois a figura de seu pai, Kamikamikan, aprisionado pelo filho mais velho.

Zohrtha dirigiu a sua atenção a Natalie, enquanto Kröll tinha o olhar vazio e os pensamentos a viajar por si.

- Bonita, a tua humana – murmurou, despertando-o daquela espécie de transe – Inútil e fraca, mas bonita.

Natalie engoliu em seco.

- Deixa-a em paz – exigiu Kröll.

- Vou-a matar primeiro… só para ter um pouco de diversão…

Assim que Zohrtha ergueu a espada na direcção de Natalie, a adrenalina, ou o medo, ou a vontade de a proteger, fizeram com que todas as memórias retornassem ao corpo de Kröll ao mesmo tempo, fazendo-o agir de imediato. Zohrtha ia deixar cair a arma na mulher, mas Kröll pôs-se à frente e parou-o apenas com as duas mãos a agarrar na lâmina.

- Sai daqui Natalie! – Mandou, ao que ela obedeceu ao rastejar para um pouco mais longe.

Kröll deitou um pequeno grito e empurrou a espada do outro, fazendo-o recuar alguns passos, surpreendendo-o.

- Zohrtha – cuspiu o nome.

Zohrtha engoliu em seco.

- Então lembras-te – deduziu, antes de começar de novo a batalha.

Assim que Kröll fez o primeiro ataque as suas vestes mudaram. Passou a exibir um fato similar ao de Zohrtha, porém com uns botões a dourado e a capa vermelha, e umas botas nos pés. O coração de Natalie falhou uma batida, e ficou de queixo caído.

A luta prosseguiu, até que o Deus conseguiu retirar a espada ao guerreiro e o trespassou sem mais nenhum pensamento. Antes de Zohrtha se transformar em pó, Kröll meteu-lhe a mão nas vestes e tirou a única coisa que precisava para regressar para casa. A Pedra Lunar. Uma pedra redonda e amarela que permitia a viagem entre planetas. Retirou-a de dentro do uniforme do oponente mesmo antes de este se desvanecer. Ficou depois poucos segundos parado, ainda a assimilar tudo o que tinha acabado de acontecer, e depois apertou a pedra com a mão e voltou-se para ver uma Natalie sentada no chão, boquiaberta, sem reacção.

Caminhou até ela e ajudou-a a levantar-se, pondo-os frente-a-frente.

- Isso… e depois… e ele… Como…? - Natalie estava completamente desnorteada.

- Agora lembro-me – proferiu Kröll, agarrando nas mãos dela e apertando-as com força – Chamo-me Kröll, e venho de um planeta chamado Suptka. Sou um Deus. O meu planeta está em guerra, e fui mandado para aqui pelo meu irmão, para não poder combater contra ele.

Natalie olhava incrédula para ele. Aquilo parecia tão absurdo, tão ridículo, e no entanto tinha acabado de assistir àquela luta inexplicável. Não havia outra explicação possível além da que o Deus lhe oferecia. Nem toda a ciência no mundo poderia explicar o que ali se passara.

- És um Deus – constatou ela – Não posso acreditar.

Kröll ficou com uma expressão penosa na face.

- Tenho que regressar – afirmou, com mágoa, mostrando a pedra a Natalie – Isto pode-me levar a casa. Basta pensar para onde quero ir e poucos segundos depois estou lá.

Ela engoliu em seco. Nenhum conto de fadas dura para sempre, especialmente quando a protagonista é ela.

- Vou voltar a ver-te? – Limitou-se a perguntar, com um nó na garganta.

- Eu volto por ti. Depois da guerra, volto por ti. Prometo – prontificou-se logo ele – Até lá, sempre que sentires que estás só, olha para as estrelas e eu vou brilhar mais que nunca. O meu pensamento estará sempre contigo.

Natalie assentiu e Kröll, seguindo um impulso, beijou-a de modo apaixonado já a pensar nas saudades que sentiria dela.

- Obrigado – agradeceu – Por tudo o que fizeste, e por me teres ensinado que há coisas mais importantes que guerras. Tenho que voltar para o meu povo, tenho que os libertar para que possam ser reinados com justiça. Obrigado, Natalie. Eu amo-te.

Ela nada disse, apenas sorriu. Kröll apertou bem a pedra e desejou com todas as suas forças estar em Suptka. Aos poucos começou a ficar sem cor, e foi nessa altura que a abraçou pela última vez para, no segundo seguinte, desaparecer e seguir para o seu planeta natal. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Natalie, ainda sem ela tomar conhecimento de que o Deus tinha deixado algo para trás além de saudade: a Pedra Lunar, deixada no seu bolso do casaco, naquele último abraço.

- Também te amo – jurou ela, baixinho, enquanto olhava o céu.

 

Então... que acharam?

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