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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 08.10.12

Capítulo 1

A Doente que não está Doente

 

Evelyn entrou naquele restaurante com o clima familiar a que já estava habituada e sentou-se na sua mesa habitual. Passados poucos minutos, Grayson apareceu. Vinha, como sempre, impecavelmente arranjado dentro do seu fato azul-escuro e com os sapatos bem envernizados. O cabelo castanho claro estava todo no sítio, e nos lábios trazia um sorriso capaz de derreter o coração de qualquer rapariga.

Cumprimentou a namorada com um beijo e sentou-se à sua frente.

- Desculpa-me o atraso – pediu – As coisas prolongaram-se no tribunal.

- Não faz mal. Também cheguei um pouco tarde, tive um paciente de última hora.

Grayson era um advogado numa firma importante em Nova Iorque, e Evelyn era uma médica que dirigia a Clínica Privada que a sua mãe, a grande Christina Tucker, tinha deixado quando decidira ir praticar medicina para um dos grandes hospitais da Alemanha.

Quem os via, ao lado um do outro, descrevia-os como o casal perfeito. Gostavam das mesmas coisas, detestavam os mesmos assuntos, podiam falar por horas ou apreciar longos momentos de silêncio. Eram sempre o casal mais bonito de todas as festas às quais iam, e brilhavam sempre juntos em qualquer lado onde estivessem.

Quando o jantar terminou, Grayson acompanhou a namorada até à clínica e depois seguiu para casa. Ela entrou lá e suspirou, a clínica mantinha-se aberta até às onze da noite e hoje era o seu dia de lá ficar.

Sentou-se na sua secretária e mirou a fotografia que lá tinha, em conjunto com o namorado, e sorriu. Estavam juntos desde o secundário e, se dependesse dela, continuariam assim por muitos mais anos.

Eram dez para as onze quando se levantou e se olhou ao espelho do gabinete. Tinha um ar cansado, não estava a dormir bem e ultimamente chegava a casa a horas lastimáveis. Tinha o seu longo cabelo liso, castanho-escuro, apanhado num rabo-de-cavalo e envergava umas calças simples e uma blusa. Começou depois a desligar as luzes para fechar mas, nesse preciso momento, o sino pendurado por cima da porta cintilou. Alguém tinha entrado. Evelyn foi até à porta do gabinete e espreitou. “Era só o que me faltava”, pensou para si.

- Dona Patty! – Exclamou, ao ver a idosa perto da porta – Estava mesmo agora a fechar, não pode voltar amanhã?

Patty respirou fundo.

- Oh filha, sabes bem que não escolhemos quando adoecer.

Evelyn suspirou.

- Entre lá então.

A velhota entrou para o gabinete e sentou-se na maca. Evelyn aproximou-se dela e mostrou-lhe um sorriso bondoso.

- Então diga-me lá – pediu – Os sintomas voltaram?

- Sim, sim, voltou tudo – lamentou-se a Dona Patty.

- Sente… - Evelyn agarrou na ficha da senhora e começou a lê-la – náuseas, dor de cabeça e muscular, vómitos…? Ainda tem isto tudo?

- Tenho sim. E olhe doutora, acho que tenho uma picadela de mosquito aqui no braço, veja lá.

Evelyn respirou fundo e olhou para o braço dela, constatando que aquele pequeno ponto não era nada mais do que um sinal. Agarrou num termómetro e mediu-lhe a febre que, como já esperava, não havia.

- Já acabaram os remédios, Dona Patty?

- Já. Acha que piorei, doutora?

- Não, você está normalíssima para alguém com a sua condição – a médica desviou-se da maca e dentro da gaveta da secretária procurou por uma pequena caixa de rebuçados pequenos que tinha comprado de manhã. Assim que a encontrou, levou-a até à senhora – Aqui tem. Basta continuar a tomar isto e fica cinco estrelas. Só dois por dia, Dona Patty, um de manhã e um à noite.

A senhora agradeceu e foi embora contrariada, pois o que queria mesmo era conversar. Há anos que vinha à clínica, até mesmo quando esta pertencia à mãe de Evelyn, queixar-se os mesmos sintomas que nunca tinha. Das primeiras vezes, Evelyn ainda lhe fez todos os testes à procura de qualquer coisa errada, mas então percebeu que era escusado. A doença dela era outra.

Só então Evelyn pôde fechar a clínica. Caminhou até casa, um prédio a alguns quarteirões da clínica, e subiu até ao seu andar. O elevador estava avariado há meses, e não havia quaisquer sinais de que alguém o mandasse arranjar. Procurou pelas chaves na mala e abriu a porta. Assim que entrou, mandou a mala para cima do sofá vermelho e seguiu para a casa de banho, onde se despiu e tomou um banho relaxante.

Depois de beber um copo de leite, e de vestir o pijama, enfiou-se na cama de casal que tinha a meio da parede do quarto, tapando-se com o lençol e a colcha azul-clarinha. Já eram quase quatro da manhã quando conseguiu adormecer, começando finalmente a descansar.

Acordou com uma barulheira infernal. Tinha a cabeça a latejar, e os olhos pesadíssimos. Viu as horas no despertador, em cima da mesa-de-cabeceira, e verificou que eram apenas sete horas. A barulheira continuava. Aquela guitarra enervante que tocava sempre de madrugada, à tarde, à noite. Como ela detestava aquele barulho.

Não era tarde, nem era cedo, era já. Levantou-se da cama como um furacão e caminhou descalça pelo hall, saiu para as escadas e começou a bater à porta da frente e a tocar freneticamente à campainha. A música parou, e ouviram-se passos. A porta foi aberta por um homem de cabelos negros um pouco despenteados, e olhos verdes. Tinha um pequeno brinco na orelha, e vestia apenas as calças de um fato-de-treino. Agarrava no objecto que causava o transtorno da Evelyn com o maior carinho.

- Sim? – Perguntou, ao ver a vizinha.

- São sete da manhã, Doug – disse ela, visivelmente enervada – Algumas pessoas estão a tentar dormir!

- Acordei-te? Desculpa boneca… estava a treinar para a minha banda.

Aquela foi a gota de água. Se Evelyn não estivesse com o cabelo todo despenteado, e de pijama aos ursinhos, certamente conseguiria meter medo.

- Moras cá há três anos, e cada vez que cá venho estás a tocar sozinho! Não tens nenhuma banda, Doug! – Gritou-lhe ela. Estava cansada de ter as pessoas a fingirem ter coisas que não tinham. A Dona Patty com as doenças, Doug com a banda…

- Tenho sim – discutiu ele, fazendo-a revirar os olhos.

- Qual é o nome?

- Ainda não temos um nome…

- Tudo bem. Canta-me uma música.

- Também ainda não temos nenhuma…

- Isso é porque não tens uma banda! – Berrou, no meio das escadas – E agora, por favor, faz pouco barulho porque alguns de nós têm trabalhos importantes e reais e precisam de descansar!

- Está bem! Credo, que stressada – resmungava Doug enquanto voltava para dentro de casa e a via a fazer o mesmo.

Eles eram o oposto um do outro. Evelyn era responsável e preocupava-se com as coisas enquanto, nas suas palavras, Doug não passava de “uma criança que nunca cresceu”.

Entrou para casa e voltou a meter-se na cama mas, como era de adivinhar, já não conseguiu descansar.

Às nove horas entrou pela porta da clínica e dirigiu-se ao balcão de atendimento, onde se encontrava Phil, um homem loiro de olhos azuis, que lhe sorriu.

- Então doutora, noite atribulada? – Perguntou-lhe. Phil estava sempre bem-disposto.

- Nem me digas nada – queixou-se ela – Primeiro, quando estava a fechar, apareceu a Dona Patty.

- Ui… Estava doente?

- Claro que não, Phil. Como é hipocondríaca dei-lhe uns rebuçados para servirem de placebo. Enquanto os toma pensa que fazem efeito. Ai, mas eu juro, cada vez que cá vem a dizer que tem febre-amarela… bem, tenho algum paciente para agora?

Phil riu-se.

- Tem um daqui a meia hora, o Sr. Gold.

- Está bem, quando chegar manda-o entrar.

 

Então digam-me lá o que acharam...

Só posto o próximo quando tiver, pelo menos, cinco comentários

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