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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 10.10.12

Capítulo 2

O Fim

 

Evelyn saiu da clínica às cinco da tarde. Hoje era um dia especial, por isso tinha pedido a um dos outros médicos que a substituíssem. Hoje era o seu aniversário de namoro e, como tal, Grayson tinha-a convidado para jantar fora num dos restaurantes mais finos da cidade.

Assim que entrou no prédio, aquele ruído que tanto a enervava fez-se ouvir. Aquele tocar de guitarra enervante que, aos poucos, a estava a pôr completamente maluca. Como viu que uma das suas vizinhas vinha também a chegar, esperou um pouco e agarrou na porta para que a Sra. Wittaker passasse.

- Deixe-me ajudá-la – ofereceu-se, tirando-lhe alguns dos sacos das compras da mão. A Sra. Wittaker vivia no andar por baixo do seu, por isso começaram a subir as escadas juntas. Era das poucas vizinhas que eram simpáticas e prestáveis. Maldita a hora em que aquele elevador tinha avariado.

- Então, minha querida, como estão as coisas na clínica? – Apesar de já ter quase setenta anos, a senhora tinha um ar jovial e estava sempre com um sorriso nos lábios. Tinha sempre o cabelo curtinho pintado de castanho clarinho, e perfeitamente arranjado, e usava uns óculos fininhos que escondiam por trás os seus olhos azuis. Apesar da idade, nunca lhe escapava absolutamente nada.

- O quê? – Perguntou Evelyn – Não a ouvi.

- Perguntei sobre a clínica! – Gritou a velhota.

- Ah, está boa – “malvada música, malvada guitarra, malvado Doug”, pensou para si, sentindo uns nervos enormes – Sra. Wittaker, este barulho todo não a incomoda?

Pararam as duas em frente à porta da velhota e esta começou à procura das chaves para a abrir.

- Um bocadinho, sim, mas já me habituei – disse ela, soltando um pequeno sorriso – Agora até serve para fazer de meu despertador de manhã, vê lá tu.

- Não percebo porque é que mais ninguém se queixa. Só eu é que me lá vou queixar, é claro que o Doug assim não pára.

- Deixa lá, menina, ele tem que praticar por causa da banda dele – Evelyn rangeu os dentes.

- Ele não tem nenhuma banda, Sra. Whittaker!

Ao chegar a casa comeu um iogurte e pôs-se em frente ao roupeiro a tentar escolher que roupa usar. A sua campainha soou pouco depois e, ao abrir a porta, deu com a sua melhor amiga.

Lizzie McAdams era o sonho de mulher para qualquer homem. Tinha uns cabelos compridíssimos, loiros, e uns belos olhos castanhos. Era alta e magra e andava sempre muito bem arranjada, ou não fosse ela uma das modelos mais requisitadas da actualidade. Parte física à parte, era uma mulher muito simpática e compreensiva, tal como boa dona de casa.

- Lizzie! – Exclamou Evelyn, ao vê-la. Desviou-se para a deixar passar.

- Estava nas redondezas e decidi vir ver-te – disse a modelo – Bolas Evie, não acredito que hoje vais ficar noiva!

Evelyn sentiu as bochechas a corar. Sim, há meses que esperava que Grayson lhe pedisse para ser sua esposa neste dia, e estava mais entusiasmada que nunca.

- Ainda não tenho o anel, Lizzie.

Foram ambas para o quarto, para que ela acabasse de escolher a roupa, e a conversa continuou.

- Oh, formalidades. Hoje é o quê… o nono aniversário? É óbvio que ele te vai pedir em casamento.

- Décimo. Já é o décimo.

- Meu deus… já estão juntos há uma década… Tu vê lá, que eu quero que o meu vestido de dama d’honor seja bonito.

Evelyn riu-se.

- Vai ser, prometo.

 

 

Grayson tinha ido buscar Evelyn a casa, e já se encontravam no restaurante. Comeram tranquilamente e falaram de diversos assuntos, mas nem uma palavra foi proferida sobre o aniversário dos dois nem sobre casamento. Ela estava convencida de que ele tinha uma enorme surpresa planeada.

- Está linda – elogiou ele. E, de facto, estava mesmo.

Evelyn envergava um vestido preto, muito justo ao corpo e curtinho, com um decote bastante generoso. Tinha encaracolado o cabelo e aplicado uma maquilhagem bonita e suave.

- Obrigado. Tu também estás bem aperaltado.

Grayson envergava um dos seus muitos fatos.

- Evie… nós já estamos juntos há quê, nove anos?

Evelyn sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. “É agora”, pensou, felicíssima.

- Dez.

- Dez? Uau – Grayson sorriu e respirou fundo – Tu és uma mulher maravilhosa. És bonita e inteligente. Engraçada. Desde que estamos juntos que crescemos tanto, e sinto que nos tornámos mesmo em pessoas melhores, sabes?

- Continua…

- Eu só… estes dez anos ao teu lado foram simplesmente maravilhosos. Acho que, hoje em dia, já nem sei como viver sem ti. Acordei e pensei: hoje vou jantar com a Evie. Tal como ontem pensei: tenho que ver se a Evie pode sair mais cedo da clínica. E dependemos tanto um do outro que…

- Grayson – interrompeu Evelyn, impaciente – O que quer que seja que queres dizer, simplesmente diz. Vá lá.

- Está bem… - ele respirou fundo e Evelyn sorriu – Evelyn… eu quero acabar o namoro.

A expressão feliz e ansiosa abandonou o rosto da médica para dar lugar a uma de confusão.

- Espera… o quê?! – Perguntou, sem estar a compreender nada – Tu queres o quê? Mas porquê?

- Não me interpretes mal, Evie – pediu ele, muito calmamente – Tu és o amor da minha vida, e tenho a certeza que vou voltar para ti e que vamos voltar a ser muito felizes juntos mas… Olha, neste momento somos tudo o que alguma vez quisemos ser, certo? Tu és uma médica, eu sou advogado… somos felizes, certo?

- Certo. Então porque é que estás a destruir a felicidade? Não gostas de ser feliz?

Grayson suspirou.

- Não quero ficar afastado de ti para sempre. Apenas o tempo suficiente para perceber quem sou, sem ti. Por dez anos fui o teu namorado, e neste momento acho que preciso de ser apenas eu.

Evelyn engoliu em seco e uma lágrima rebelde fugiu ao seu controlo, deslizando pela sua bochecha. A médica apressou-se a limpá-la.

- Está bem – disse – Precisas de tempo? Está bem. Semanas… meses… mas se levares anos, não podes esperar que eu ainda esteja à tua espera.

- Eu amo-te – afirmou Grayson, ao vê-la a levantar-se – Estou a dizer a verdade, Evie.

- Sim… também te amo.

Evelyn saiu daquele restaurante e começou a andar pelas ruas de Nova Iorque, cheias de gente, enquanto as lágrimas lhe escorriam dos olhos, esborratando a maquilhagem que tão cuidadosamente tinha aplicado. Isto não era, definitivamente, o que tinha imaginado daquela noite.

Quando se conseguiu desviar da multidão e entrou na sua rua, começou a chover, mas ela não apressou o passo. Sentia-se completamente vazia, como o mundo inteiro lhe tivesse sido retirado. O seu grande plano estava estragado. Primeiro, tirar o curso de medicina e ter um bom trabalho; depois, casar com o Grayson; e, por fim, ter um filho aos vinte e oito anos, após o primeiro aniversário de casamento. E agora como seria? Já tinha vinte e seis anos e a única coisa que lhe restava era o trabalho.

 

Então... seis comentários, está bem? (a)

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