Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 12.10.12

Capítulo 3

Gelados & Filmes Tristes

 

Evelyn encontrava-se sentada no sofá, enrolada numa manta quentinha, com um caixa de gelado em cima. Estava a ver um filme daqueles que deixam uma lágrima ao canto do olho a qualquer pessoa. Lá fora as folhas laranjas já caíam das árvores, despindo-as lentamente. O Outono tinha chegado, e a temperatura baixado.

A médica não ia trabalhar há dois dias, desde que Grayson terminara o namoro. Há dez anos que não estava sozinha. Há dez anos que não dependia dele, que não era sua namorada. Não podia voltar a ser a rapariguita que era aos dezasseis anos, não fazia qualquer sentido. Tinha que arranjar maneira de ultrapassar o fim daquele namoro e continuar a ser a adulta que já era mas, até essa altura chegar, limitava-se a comer gelado directamente da caixa e a ver filmes tristes. Não se lembrava da última vez que tinha terminado uma relação, mas sabia que ao estar naquele sofá, enrolada naquela manta que a aquecia, se sentia um pouco melhor, ainda que por breves momentos.

O telemóvel começou a tocar e, assim que viu quem era, colocou o filme em pausa. Suspirou e atendeu.

- “Evie!” – Exclamaram logo, do outro lado – “Como estás, amor?”

Evelyn engoliu em seco.

- Estou melhor, Lizzie – mentiu ela.

- “Hum… não acredito. Desculpa não estar aí contigo… sinto-me péssima”.

- Não te sintas péssima – Lizzie estava em Milão, numa sessão fotográfica. Andava sempre entre países com sessões, e desfiles, e entrevistas. Raramente parava em Nova Iorque por mais de uma semana – Como estão a correr as coisas aí?

- “Estão a correr bem. Estou a fazer uma sessão com fatos de noite… e acho que já escolhi o próximo que vou usar para quando for a alguma cerimónia de prémios. Se cá estivesses ias delirar, os vestidos são tão lindos!”

Evelyn sorriu ligeiramente.

- Tenho a certeza que sim.

- “O que estavas a fazer?”

- Estava só a ver um filme.

- “Oh deus… enrolada numa manta e a comer gelado?”

A médica franziu as sobrancelhas.

- Como é que sabes?

- “É oficial, estás numa depressão por causa do fim do namoro. Mas não vamos entrar em pânico, depois de amanhã vou voltar e vou-te levar a sair”.

- Lizzie…

- “Não, nada de “Lizzie”. Está decidido. Vais ultrapassar isso”.

- Não tenho nada para ultrapassar. Não é definitivo, lembras-te? Eventualmente vamos retomar o namoro, é tudo uma questão de tempo. Até lá…

- “Vais engordando?”

- Lizzie!

- “Evie, se ele quis esta pausa para descobrir quem é sem ti, tu podias bem aproveitar para fazer o mesmo. Vocês estavam juntos há dez anos, imagina as coisas que perdeste. Talvez sair e chegar de madrugada com um desconhecido não seja tão mau como pensas”.

- Lizzie! Não vou usar esta pausa para isso.

- “Bem, devias usá-la para alguma coisa” – ouviu-se chamarem-na – “Ouve querida, tenho que ir, estão-me a chamar. Adoro-te, anima-te. Falamos quando eu voltar”.

- Trabalha muito, depois quero ver a fotografias.

Evelyn desligou a chamada e suspirou. Voltou a ver o filme e, a quarenta minutos do fim, já estava com a cara lavada de lágrimas. Quando esse acabou, optou por um mais suave, e por isso agarrou no DVD do Dirty Dancing e começou a vê-lo. Era um dos seus filmes favoritos de todos os tempos, e nunca se cansava de o ver. A Baby tinha acabado de fazer a sua primeira actuação com o Johnny no Hotel Sheldrake, tinham regressado ao resort e tinha acabado de ir ao quarto dele, quando a campainha de Evelyn tocou, forçando-a a colocar o filme em pausa. E logo agora, que a história ia começar a aquecer.

Tirou a manta de cima de si, pondo-a ao uso no sofá, e pousou a caixa do gelado em cima dela. Enfiou as pantufas nos pés e arrastou-se até à porta. Ao abri-la, viu uns belos olhos verdes a mirá-la.

- Posso-te ajudar? – Perguntou, sem tentar sequer ser simpática.

A relação de ambos nem sempre tinha sido assim. Há três anos, quando Doug se mudara para o prédio, Evelyn até se mostrou bastante prestável, porém tudo mudou quando ele a tentou seduzir. Doug era um garanhão de primeiro grau, entrava no apartamento sempre com uma mulher nova e, por alguma razão, tinha pensado em incluir a jovem médica nessa lista. Ela não gostou, não por não o achar atraente, mas sim porque na altura namorava com Grayson e, além disso, nunca se considerou “esse tipo de rapariga”.

Doug olhou para ela um pouco embaraçado, e levou a mão aos cabelos negros, dando-lhes uma sacudidela.

- Tens algum pacote de leite? O meu acabou e esqueci-me de comprar mais…

Evelyn sorriu ligeiramente e abanou a cabeça. Só mesmo uma parvoíce deste tamanho para lhe conseguir pôr um sorriso, ainda que pequeno, nos lábios.

- Espera aqui, vou buscar.

Deixou a porta aberta e foi até à cozinha, onde se encontrava a despensa. Lá dentro procurou por um pacote de leite e, assim que o encontrou, dirigiu-se de novo à porta e passou-o para as mãos do vizinho.

- Obrigado – agradeceu logo ele, agora com um sorriso nos lábios – Que sorte estares em casa a esta hora! É que já na semana passada tinha ido pedir batatas à Sra. Wittaker.

Evelyn revirou os olhos.

- Tu precisas de arranjar um trabalho, Doug – aconselhou.

- Eu tenho um trabalho.

- Um part-time num café não é um trabalho. E a tua inexistente banda também não. Precisas de crescer, entrar na vida real.

Ele encolheu os ombros e virou costas para ir para o seu apartamento mas, ao lembrar-se de outra coisa, voltou a virar-se para a médica.

- Ouve… lamento pelo teu namorado – disse, apanhando-a a de surpresa.

- Como é que tu…?

- Vá lá… vocês os dois são como realeza, e eu trabalho num café, por isso ouço todos os rumores. É pena… vocês pareciam mesmo perfeitos um para o outro. O príncipe e a princesa da terra das maravilhas.

Evelyn engoliu em seco.

- Vai embora, Doug – pediu.

Com o tom de voz que ela usou, ele percebeu que a tinha atingido num ponto fraco. Engoliu em seco e, de novo, ia-se embora. Porém, tal como anteriormente, deteve-se e falou de modo a impedir-lhe de fechar a porta.

- Ouve… ele foi um idiota – afirmou, surpreendendo-a – Se eu encontrasse o amor da vida… nunca mais a largaria. És uma chata, mas mereces melhor.

Evelyn sorriu, e o aspirante a músico piscou-lhe o olho.

- Obrigado – agradeceu, antes de fechar a porta.

Sim, Doug podia ser mulherengo, e barulhento, e convencido e um pouco acriançado, mas quando queria até conseguia ser boa pessoa.

Evelyn voltou a enrolar-se na sua manta no sofá e voltou a carregar no play. “Johnny, eu vim aqui porque o meu pai…”, disse Baby, sendo logo interrompida por Johnny: “Não, a maneira como ele a salvou… quer dizer, eu nunca poderia ter feito nada assim. As pessoas tratam-me como nada, porque eu não sou nada”.

- Isso não é verdade… - disse Evelyn, ao mesmo tempo que Baby – Tu… tu és tudo!

E assim continuou, a ver o filme, a dizer algumas falas, e a comer o que restava daquela caixa de gelado de cheesecake

 

Este capítulo foi fraquito, mas o próximo vai ser melhor (:

Comentem, sim?

Seis comentários para o próximo.

8 comentários

Comentar post