Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 20.10.12

Capítulo 5

O Menino Jeitoso

 

A luz do candeeiro ao final da rua acendia e apagava. Fundir-se-ia muito em breve. A luz da lua era o que mais iluminava a cidade. Era um quarto minguante que parecia ter sido desenhado ao pormenor que estava lá no cimo do céu. Transmitia uma magia fabulosa, especialmente pelo facto de não ter quaisquer nuvens à volta, e de se encontrar rodeado daqueles pontinhos brilhantes chamados estrelas.

A noite já ia prolongada, àquela hora só se viam dois tipos de pessoas pela rua: os assaltantes, e os possíveis assaltados. Nada de bom se passava depois das quatro da manhã nas ruas de Nova Iorque. A segurança não era das melhores, especialmente se alguém andasse sozinho. Mas nada disso preocupava Evelyn, que tinha acabado de sair do bar onde a amiga a tinha levado. Lizzie tinha encontrado um grupo de homens bastante atraentes, com quem tinham ambas dançado por horas. Por muito que a médica o desejasse desmentir, a partir do quinto shot já se estava a divertir. A modelo tinha então ido para casa de um desses homens, e Evelyn optara por se vir embora antes que fizesse algo que se arrependesse. Porém já não via bem a rua. Parecia que estava tudo à roda, que o chão lhe estava a fugir de debaixo dos pés, que as árvores dançavam ao sabor do vento e as casas se inclinavam à medida que ela passava. Era o álcool a fazer efeito. Decidiu descalçar-se, por já não conseguir aguentar-se naqueles saltos, mas andar descalça em cima da calçada magoava-lhe os pés. Mesmo assim, continuou.

“Mas onde raios é o meu prédio?”, perguntou-se, ao chegar à sua rua. Andou mais um pouco e chegou à sua porta. Abriu a mala mas, sem querer, ao tentar alcançar as chaves deixou-a cair e tudo o que lá estava dentro se espalhou pelo passeio.

- Raios… - Murmurou.

Baixou-se e levou a mão ao cabelo, puxando-o para trás das costas, para que não lhe tapasse a visão que já estava um pouco turva. Voltou a colocar todos os seus itens dentro da mala e, quando se levantou, voltou a lembrar-se de que precisava das chaves. Tirou-as de novo da mala e tentou acertar com a fechadura. Há anos que não apanhava uma bebedeira assim, se é que alguma vez já tinha acontecido.

Começou a subir as escadas, bem agarrada ao corrimão, com a mala ao ombro e a agarrar nos sapatos. Quando chegou à sua porta colocou a chave na fechadura, porém não coube. Chave errada. Esteve por tentativas até acertar e conseguir abrir a porta. Assim que o fez, acendeu a luz do hall, forçando-se a cerrar os olhos devido à claridade. Quando ia a fechar a porta os seus olhos pousaram na porta do vizinho.

- Não… - murmurou – Não é boa ideia.

Não era definitivamente boa ideia. Ela sabia como ele tratava as mulheres, eram como se fossem descartáveis, cada semana uma nova. Porém, estava quase a fechar a porta, quando se forçou a parar e deixou os sapatos e a mala caírem no chão. “Oh, que se lixe”, pensou. Noutras circunstâncias aquela ideia nunca teria ido avante, mas graças aos shots e outros bebidas que lhe corriam no sistema, Evelyn estava fora de si. Levou apenas as chaves consigo e, após fechar a porta, começou a bater repetidamente à do vizinho.

Quando a porta foi aberta apareceu por trás dela um Doug ensonado, que usava apenas uns boxers pretos.

- Evelyn? – Perguntou, enquanto a mirava de alto a baixo.

Ela riu-se.

- Doug… Doug… Doug… tu és um menino bonito – começou ela a divagar, ao mesmo tempo que o contornava para entrar na casa.

Era a primeira vez que entrava lá, e estava demasiado bêbeda para reparar no divã branco a um canto do hall, juntamente com a estante de livros; na guitarra e no pequeno teclado na sala, perto de um pequeno sofá castanho; nos quadros e pósteres afixados na parede…

Doug franziu as sobrancelhas e depois esfregou os olhos. Estaria ele a sonhar?

- O que estás aqui a fazer? – Perguntou, enquanto se voltava para ela. “Ela deve ter enlouquecido”.

- Achas-me bonita? – Fora apanhado desprevenido com aquela pergunta. Se a achava bonita? Que tipo de homem não acharia?

- Estás bêbeda? – Evelyn respondeu ao soltar uma gargalha, tirando-lhe as dúvidas que pudessem restar – Estás bêbeda. Tens que ir para casa, boneca.

Ela voltou atrás e empurrou a porta, fechando-a para surpresa do vizinho. Aproximou-se depois dele, forçando-o a ficar completamente colado a ela, e sorriu-lhe.

- O que estás a fazer? – Perguntou ele, ao engolir em seco. Ela estava tão perto, e tão bem arranjada, e completamente à sua mercê… - Evie…

- Vamos fazer alguma coisa de que nos arrependeremos de manhã, pode ser? – Ele permaneceu quieto, o que fez com que ela ainda se aproximasse mais, dando-lhe um beijo no pescoço. Ficou depois com a boca a milímetros de distância da dele – Vá lá Doug… não é com isto que sonhas desde que te mudaste para o prédio? Sabes que me queres…

- Quão bêbeda estás? – Perguntou ele, já com dificuldades em resistir a toda aquela pressão.

- Bêbeda o suficiente para querer fazer isto… mas não o suficiente para te culpar amanhã.

Era tudo o que ele precisava de ouvir. Sem mais demoras juntou os seus lábios aos dela e começou a puxar o fecho do vestido, despindo-a em menos de dois segundos. As suas mãos enrolaram a sua cintura e ela pulou, encaixando as pernas na cintura dele. Doug caminhou com Evelyn até ao quarto, onde ambos se deixaram cair na cama. Se era um sonho, ou não, ele não sabia. Apenas sabia que ia aproveitar e passar um bom momento na noite que julgava já perdida.

 

 

Evelyn abriu os olhos e imediatamente sentiu uma dor de cabeça terrível. “Vou matar a Lizzie”, amaldiçoou. Porém algo parecia estranho. Aqueles lençóis azuis-escuros não eram os seus, aquela cama de madeira clara não era a sua, tal como a televisão encostada à parede ou as estantes de livros e filmes. Aquele quarto não era o seu.

- Onde…? – E então as memórias começaram a chegar até si. Eram apenas pequenos fragmentos da noite. Lembrava-se de ter chegado ao bar, de ter conhecido um grupo de homens e de terem dançado. Estaria na casa de algum deles? Oh não, isto era muito pior. Lembrou-se de ter chegado a casa e de se ter oferecido sem vergonha nenhuma ao vizinho – Oh não… Oh não… Oh meu Deus…

Doug apareceu nesse momento, trazia duas chávenas de café e vestia na mesma apenas os boxers pretos.

- Já acordaste – constatou, ao entrar no quarto. Evelyn sentiu as bochechas a ferver – A sério? Estás a corar agora? Devias era ter tido vergonha enquanto fazíamos as coisas que fizemos ontem à noite…

- Pára… pára… pára… - pediu ela, puxando a almofada do lado e tapando a cara por alguns segundos. Depois respirou fundo e sentou-se, tendo o cuidado de permanecer tapada com o lençol – Isto… ontem à noite… nunca aconteceu.

Doug riu-se.

- Aconteceu, boneca. Mas como até não foi das melhores noites da minha vida, posso fingir.

- Oh Deus… é mesmo verdade que só se faz porcarias quando estamos bêbedos… Que horas são?

- Onze.

- Onze?! Tenho que ir para a clínica! – Com os olhos Evelyn procurou as suas roupas e depois levantou-se enrolada no lençol, para as ir pegar. Passou pelo vizinho e começou a dirigir-se à porta – Depois devolvo-te o lençol.

- Evie! – Ela parou e voltou-se para trás, à espera do que ele ia dizer – Podes vir bater-me à porta sempre que estiveres descontraída e bêbeda.

- Oh, vai dar uma volta – mandou ela, antes de sair.

Doug riu-se e sentou-se à borda da cama, com as duas chávenas de café na mão. Respirou fundo e depois deu um trago numa delas. 

 

Que tal?

8 comentários

Comentar post