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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 28.10.12

Este é maiorzinho.

Não por vocês estarem a merecer... porque não estão, mas porque não o consegui encurtar.

 

Capítulo 8

Billingsley, Alabama

 

Evelyn, Doug e Wren já tinham descolado. Encontravam-se dentro do avião, e a rapariga ficou sentada entre os dois amigos. Ia um pouco nervosa, já se estava a arrepender de ter aceitado fazer aquilo pelo vizinho. “Pensa no silêncio todas as manhãs…”, disse por pensamento, para ver se ganhava algum ânimo. Olhou para Wren, ia de olhos fechados e com uma respiração muito calma. Parecia profundamente adormecido. Já Doug ia bem acordado, a folhear uma revista de carros. Ela suspirou e, da pequena mala que levava consigo, tirou um livro que começou a ler.

- Que raios é isso? – Perguntou Doug, ao reparar na grossura daquele livro de anatomia.

Ela olhou para ele e encolheu os ombros.

- É apenas uma leitura leve.

- Leve? Credo, nem quer saber o que consideras uma leitura “pesada”.

Evelyn decidiu ignorar aquele comentário e voltou a dirigir a sua atenção à leitura. Wren fingiu não os estar a ouvir, e permaneceu quieto e de olhos cerrados.

- Olha lá – voltou Doug a falar – Devíamos arranjar uma história…

“Não vou conseguir ler o livro”, lamentou a médica, fechando-o com força e soltando um suspiro.

- Estás a falar do quê?

- De nós. De como… ficámos juntos, começámos uma relação, sei lá…

Ela revirou os olhos.

- Não compliques as coisas. Tu e eu somos vizinhos, começámo-nos a aproximar e aconteceu, pronto.

- Os meus pais nunca vão acreditar numa coisa assim tão simples…

O amigo dele respirou fundo e abriu os olhos, estava a ficar farto de os ouvir.

- Os teus pais nunca vão acreditar que vocês estão juntos, de qualquer maneira – apressou-se a dizer – Vocês nunca concordam em nada, e além disso são completos opostos.

Essa foi a primeira coisa em que ambos concordaram, desde sempre.

- É por isso que temos que descobrir as coisas que temos em comum – defendeu Doug – Vá Evie, de que música gostas?

- Não sei… jazz, pop, algumas de rock

- Gostas de rock, logo gostas das músicas da nossa banda.

Evelyn cerrou os olhos e mordeu os lábios.

- Doug… por amor de Deus, não tens nenhuma banda – falou – Se falas disso à frente deles, está tudo estragado.

Wren riu-se e pensou para com os seus botões que aquela tinha sido, provavelmente, a pior ideia que o amigo alguma vez tivera.

 

 

O avião tinha finalmente aterrado em Mobile. Os dois rapazes já tinham agarrado nas malas que tinham levado – apenas uma cada –, mas Evelyn ainda esperava pelo resto da sua bagagem. Quando se despachou, tinha ao todo uma mala grande, uma mochila e uma de pôr ao ombro, tirando a que tinha levado consigo dentro do avião. Wren ofereceu-se para levar uma, e Doug sentiu-se na obrigação de a ajudar também – carregou a maior e mais pesada.

À saída do aeroporto esperavam-nos o pai de Doug, encostado à sua carrinha azul de caixa aberta. Ao ver o filho e Wren chegarem, abriu um enorme sorriso, que se tornou mais numa careta ao observar a mulher que vinha com eles. Evelyn não era o que ele esperava, envergava umas calças justas e uma blusa bonita, conjugadas com uns sapatos de salto bem alto e um cabelo entrançado, que lhe dava um ar bastante sofisticado.

- Filho! – Exclamou, dando um abraço ao filho. Depois deu outro a Wren e, quando chegou a vez da médica, voltou a olhar para Doug – É a tua famosa namorada?

- Sim pai, é a Evie – apresentou ele.

Steve assentiu e voltou-se então para ela.

- Sou o Steve, prazer em conhecer-te – na verdade não era um prazer assim tão grande, ao ver a quantidade da bagagem que ela levava não pôde deixar de pensar que se tratava de uma pessoa materialista e fútil.

- O prazer é todo meu, chamo-me Evelyn, mas pode-me tratar por Evie.

Cumprimentaram-se com um beijo na bochecha e depois entraram todos para a carrinha. Começaram o caminho para Billingsley. Assim que entraram na cidade o brilho no olhar de Evelyn desapareceu. Já sabia que não ia ser nada de esplêndido ou moderno, mas mesmo assim as suas expectativas ficaram muito aquém do que encontrou. Era uma daquelas cidades mesmo pequenas e centradas, onde as casas eram térreas e havia um largo com alguns cafés. Viu também que muitas das herdades por onde passou estavam cobertas de gado. Steve deixou Wren na sua casa e seguiu então caminho até uma pequena herdade algo afastada do centro da cidade.

Ao saírem da carrinha, Evelyn viu que dentro de uma cerca se encontravam alguns cavalos, e que a casa não aparentava ser muito rica.

- Evie, vai entrando – mandou Doug, enquanto ajudava o pai a tirar todas as malas da carrinha.

- Olha lá, já a avisaste da tua sobrinha? Sabes que a tua mãe não gosta que encarem… - advertiu Steve.

- Não! Esqueci-me completamente… - quando Doug ia para chamar a falsa namorada, já ela tinha batido à porta e entrado. Ele correu até casa e, quando entrou, viu que já estavam todos de frente a Evelyn.

Theresa, a sua mãe, olhava-a de sobrancelha erguida e Maura, a sua irmã, não conseguia deixar de examinar as suas roupas. Uma menina de sete anos apareceu, vinda de uma das divisões lá de dentro, e Doug cruxificou-se por não ter dito nada a Evelyn. Ela possuía uns belos cachos castanhos-escuros, porém tinha um problema na vista: era estrábica. Tinha uma esotropia, ou seja, um desvio convergente, os olhos estavam desviados para dentro. Assim que apareceu, curiosa e ansiosa por ver o tio, Theresa observou Evelyn para ver a sua reacção. Doug engoliu em seco, mas a médica permaneceu calma e natural.

- Olá a todos – disse, para a mãe, a irmã e a sobrinha, que estava completamente vidrada em Evelyn.

- Olá – cumprimentou Evelyn a criança. Lola riu-lhe – Como é que te chamas?

- Lola – disse a pequena, aproximando-se de um modo tímido – Quem és tu?

Evelyn riu-se.

- Sou a namorada do Doug – apresentou-se – Chamo-me Evelyn.

Lola olhou para o tio, posicionado um pouco atrás da médica, e abriu a boca numa exclamação.

- És tão bonita! – Elogiou, com o maior sorriso do mundo. A médica riu-se.

- Eu? Bonita? Estás a brincar? Dava tudo para ter esses teus caracóis!

Theresa sorriu ligeiramente e olhou aliviada para a filha, que assentiu com a cabeça.

- Então Lola, não dás um beijinho à namorada do tio? – Perguntou-lhe.

- Claro!

Evelyn baixou-se e a pequena Lola deu-lhe um beijo na bochecha, correndo logo depois para Doug, que a agarrou ao colo.

- Então princesa, já tinhas saudades minhas? – Perguntou, enquanto a enchia de beijos.

Evelyn sorriu perante aquela imagem, e depois viu Steve a chegar com algumas das malas. Ia ajudá-lo, mas Theresa e Maura vieram ao seu encontro.

- Eu sou a Maura, irmã do Doug – apresentou-se a mulher de cabelos negros, cortados acima do ombro, que envergava umas roupas simples e uns sapatos rasos.

- E eu sou a Theresa – disse a outra, que tinha talvez cinquenta e muitos anos, com uns cabelos dourados apanhados num rabo-de-cavalo – É um prazer conhecer-te.

- Sou a Evelyn. A pequena, é sua filha? – Perguntou, para Maura.

Ela abanou a cabeça.

- Não… o Doug não te contou?

- Não.

- Bem, vamos trazer as tuas coisas para a casa, vamos ter muito tempo para conversar depois – meteu-se Theresa.

Assim fizeram. Doug e Evelyn levaram as malas para um quarto, que era dele e, assim que abriram a porta, um pato branco “correu” na direcção deles, fazendo com que Evelyn soltasse um grito.

- O que é que é aquilo?! – Perguntou, enquanto toda a família a observava em estado de choque.

- É um pato, querida… - disse Doug, de sobrancelhas franzidas.

- Não… eu sei que é um pato, mas o que é que está a fazer aqui?

- Mora aqui – disse Steve – É o Donald, o nosso pato.

- Ah…

Ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Decidiram dar-lhes privacidade, por isso ficaram os dois sozinhos naquele quarto meramente mobilado com uma cama de casal, um roupeiro e um espelho.

- Desculpa não te ter prevenido da minha sobrinha – desculpou-se ele, para surpresa dela.

- Porquê? – Doug parou de colocar as malas em cima da cama, para guardar alguma da roupa nos roupeiros, e olhou fixamente para ela – O quê, por causa do estrabismo?

- Sim. Deves ter sido apanhada de surpresa, não é normal…

- Doug, eu sou uma médica. Todas as semanas vou ao hospital e vejo crianças com problemas cardíacos, cancro… o estrabismo tem várias curas, pode ser tratado. Ela não deixa de ser uma criança normal por causa disso.

- Não, eu sei… mas algumas pessoas ficam a encarar, a minha mãe detesta isso.

- Isso é péssimo para a autoestima da Lola, não se devia ter que sentir diferente.

- Os médicos dizem que apenas se pode resolver com uma operação de correcção, mas a minha mãe está com medo, ela ainda é tão nova.

- Acho que o mais importante agora é fazê-la saber que não é diferente por causa disso. Mas é apenas a minha opinião.

Acabaram de se despachar e foram-se juntar ao resto da família para o jantar.

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