Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 31.10.12

Capítulo 9

Lola

 

Durante o jantar Theresa fez várias perguntas ao filho e a Evelyn. Pessoalmente, achava a médica muito arranjada e chique, e não a conseguia ver numa cidade como aquela durante muito tempo sem enlouquecer. Não a conseguia imaginar como uma pessoa simples.

Maura também tinha essa opinião dela. Gabava-lhe a blusa bonita e as calças justas, a maneira como tão bem se equilibrava nos saltos e o cabelo bem tratado, mas não a conseguia ver como um tipo de pessoa capaz de assentar e viver num clima calmo e sereno.

- O que é que fazes, Evelyn? – Perguntou-lhe.

- Por favor, chama-me Evie. Sou médica, tenho uma clínica em Nova Iorque.

- Médica, hum? – Murmurou Steve, rindo-se – Como é que o meu rapaz conseguiu engatar uma médica?

Evelyn riu-se.

- É difícil de explicar – disse-lhe – Até hoje, ainda nem eu sei.

Todos se riram, e a pequena Lola pediu mais um pouco de comida à avó. Evelyn estava a ficar intrigada com ela, onde estariam os seus pais? Porque é que ninguém lhe tinha falado nada deles?

Quando acabaram de comer e Doug e Steve se recolheram na sala, que continha um sofá grande e outro pequeno, uma lareira e uma televisão, uma estante de livros e a árvore de Natal com alguns presentes em volta, e Lola foi brincar para o quarto, as mulheres ficaram sozinhas na cozinha.

Theresa dispensou a ajuda da falsa namorada do filho, mas Evelyn insistiu e por isso ajudou-a, tal como a Maura, a levantar a mesa e a lavar a loiça.

- Evie, não queres ir mudar de roupa? – Perguntou Maura. Evelyn observou-se e encolheu os ombros.

- Não… devia? – Questionou.

Theresa e Maura entreolharam-se e ambas encolheram os ombros. Na verdade não viam necessidade em Evelyn estar tão bem vestida, se não ia sair a lado nenhum. Naquelas bandas as pessoas só se empinocavam para ir à igreja ou a alguma festa, mas isso já era raro.

Evelyn reparou que na porta do frigorífico estavam várias fotografias, presas com imãs, de crianças, depois de Doug e Maura, de Lola, de Theresa com Steve, e de um homem que ainda não tinha visto.

- Este é o Doug, quando tinha cinco anos – disse Maura, apontando para uma fotografia em que um rapazito magro e apenas de cuecas brincava na relva à frente da casa. Hoje em dia, já não havia relva, era só areia.

- Era tão engraçado – riu-se Evelyn, dando atenção depois ao homem desconhecido – E este, quem é?

Theresa engoliu em seco e desligou a torneira. Limpou as mãos a um pano e sentou-se à mesa. Maura permaneceu em silêncio, ia deixar que a mãe falasse.

- Era o Ashton, o meu outro filho – disse, com mágoa. Evelyn franziu as sobrancelhas.

- “Era”…? Ele…?

- Sim – a mãe de Doug não a deixou terminar a frase – Não me surpreende que o Doug não te tenha dito nada, ele não gosta de falar disto. O Ashton era o meu filho mais velho, e o Doug nunca se deu bem com ele. Dizia que era irresponsável e andavam sempre à luta. Até podia ter razão, mas eram ambos meus filhos…

- O Ashton era o pai da Lola – interveio Maura – Morreu quando ela tinha ainda dois anos, envolveu-se numa luta num bar e o outro homem espetou-lhe com uma garrafa. A mãe da Lola sempre foi uma desvairada, e assim que soube disso abandonou-a. A minha mãe tem tomado conta dela desde então.

Evelyn engoliu em seco. Agora percebia o porquê de ninguém lhe querer explicar nada em frente à pequena.

- Lamento… - murmurou apenas.

As outras assentiram.

- É a vida – murmurou Theresa – Perdi um filho, mas ganhei uma netinha maravilhosa. Ela é muito inteligente e atenciosa.

- Parece ser – concordou a médica – Parece ser uma criança estupenda.

Depois de se despacharem da cozinha, iam-se juntar aos homens na sala. Ao passarem para lá, Evelyn viu o pato Donald a andar de um lado para o outro e estremeceu. “Um pato dentro de casa? Isto não é normal!”, pensou, algo repugnada pelo animal.

Lola saiu do quarto e foi também para a sala, tomando lugar ao colo do tio. Evelyn podia ver nos olhos de Doug que a pequena era o seu orgulho.

- Evelyn…

- Chama-me Evie, Lola.

- Evie… gostas do meu tio? – Perguntou, curiosa.

A médica trocou um breve olhar com ele e depois riu-se.

- Depende dos dias, Lola.

- Ele às vezes é chatinho… - concordou a pequena.

- Sim, pois é. E barulhento também.

Riram-se as duas, enquanto Doug se fez de ofendido. Quando era quase meia-noite foram-se deitar nos respectivos quartos. Doug e Evelyn foram para o quarto dele; Lola foi para o seu; Steve e Theresa foram para o deles; e Maura foi para a sua casa, no centro da cidade.

Evelyn tomou um duche rápido e vestiu um pijama quentinho, com elefantes. Enfiou-se debaixo dos lençóis e cobertores enquanto Doug tomava também duche. Quando ele chegou ao quarto, ao abrir a porta, Donald entrou também, e Evelyn estremeceu.

- Doug, podes tirar essa coisa daqui? – Implorou.

- Mas o Donald fica sempre onde quer… - ela franziu o nariz e ele suspirou, agarrou no pato e pô-lo fora do quarto, fechando a porta – Feliz?

- Dificilmente.

- Não te preocupes, boneca, eu não ressono.

Ela revirou os olhos e ele deitou-se. Vestia umas calças do pijama e uma t-shirt cinzenta.

Por momentos andaram os dois à volta na cama, sem dizerem nada, mas na verdade nenhum deles conseguia adormecer.

- A tua mãe contou-me do teu irmão… - murmurou Evelyn, num tom sussurrado.

- Evie, sem ofensa, mas vieste para cá para fingires ser a minha namorada. Por isso não ajas como se te preocupasses, ou como se fosses mesmo minha namorada – Evelyn engoliu em seco, não esperava ouvir uma coisa daquelas – Fingimos por três semanas, enquanto tivermos gente ao pé de nós, e depois paro de ensaiar no prédio. Foi o combinado, certo?

- Sim… desculpa.

- Dorme bem.

Ela suspirou e voltou-se de costas para ele. Doug engoliu em seco e fechou os olhos. Não queria ter sido tão duro e antipático, mas quando o assunte era Ashton não conseguia agir de outra maneira.

Tinham ambos acabado de adormecer quando Lola entrou no quarto e foi até ao tio, começando a abaná-lo. Doug acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira e Evelyn, que acordou com o movimento na cama e a luz, voltou-se para ele para ver o que se passava.

- O que aconteceu, Lola? – Perguntou Doug, com uma voz ensonada.

- Tive um pesadelo. Posso dormir com vocês? – Pediu a pequena.

- A tua avó dá cabo de nós – Theresa queria que Lola se habituasse a dormir sozinha – Já sabes como ela é, quer que durmas sozinha no quarto. Queres que fique lá até adormeceres?

- Mas eu tenho medo, tio Doug!

Evelyn olhou para Doug, e depois para a pequena, e respirou fundo.

- Anda comigo – pediu, a Lola.

Levantou-se da cama e foram até ao quarto da pequena, com Doug a arrastar-se atrás.

Evelyn acendeu a luz e observou o quarto pela primeira vez: estava decorado em tons de rosa, e tinha duas prateleiras cheias de peluches. Colocou-se de joelhos e espreitou debaixo da cama, depois abriu as portas do roupeiro e de seguida verificou se as portadas da janela estavam bem fechadas.

- Vês Lola, não está aqui nada – concluiu. Doug, encostado à ombreira da porta, ficou surpreendido pela maneira calma como Evelyn falava e verificava as coisas, especialmente por a noite já ir avançada e estarem todos com sono.

- Mas…

A médica não a deixou falar e abriu a boca numa exclamação. Agarrou num Urso Teddy, que estava junto aos outros peluches nas prateleiras, e aproximou-se da menina.

- Agora é que não tens mesmo nada com que te preocupar! – Exclamou, confundindo tio e sobrinha – Estás a ver isto? Eu vou-te contar um pequeno segredo: isto não é um simples ursinho de peluche, Lola. Ele é um guerreiro feroz e muito forte. Desde sempre que os ursinhos existem para proteger os meninos e as meninas dos monstros maus que podem aparecer à noite. Olha que, até agora, sempre conseguiram proteger todos. Tens sorte, tens um deles.

Ela olhou para a médica e riu-se.

- Mas os monstros não existem – disse.

- Então tens medo do quê? – Perguntou Doug.

- De ficar sozinha. Não gosto de ficar sozinha.

Evelyn respirou fundo e saiu do quarto por breves momentos, regressando depois com uma moldura que estava na cómoda do quarto de Doug, dele. Pousou-a em cima da mesa-de-cabeceira de Lola e depois conduziu a menina até à cama.

- Reparei que não tinhas nenhuma fotografia aqui – disse-lhe – Vês? Agora já não ficas sozinha, tens o teu tio mesmo ao teu lado. Nunca estás sozinha, querida.

Lola assentiu e deitou-se na cama, agarrando-se à moldura e ao urso de peluche. Evelyn puxou-lhe as mantas para cima e aconchegou-a bem, dando-lhe depois um beijo na testa.

- Se precisares de alguma coisa, estamos no quarto ao lado. Não vamos a lado nenhum, prometo.

Voltaram os dois para o quarto de Doug e deixaram-se cair na cama, ensonados.

- Não sabia que tinhas tanto jeito para crianças – notou ele.

Evelyn ajeitou-se e tapou-se de modo a ficar confortável.

- Há muitas coisas que não sabes sobre mim – disse, com uma voz pouco simpática – Dorme, amanhã é outro dia.

17 comentários

Comentar post