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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 09.11.12

Capítulo 13

Um Natal Familiar

 

Mais uma vez Evelyn encontrava-se afastada da festa, a tentar contactar a mãe. Era a noite do dia vinte e quatro de Dezembro, e havia uma pequena festa para a população da cidade no único café/bar. Havia música, aperitivos, uma árvore de Natal no centro do espaço, e toda a gente conversava e ria. As crianças brincavam lá fora, apesar do frio que se fazia sentir, e os adultos divertiam-se lá dentro. A médica estava encostada à porta a ouvir aquele bip irritante proveniente do telemóvel. Deu as badaladas da meia-noite, era dia de Natal. Ela suspirou e voltou a marcar o mesmo número, não obtendo de novo resposta. Pela quinta vez, deixou a chamada cair no voice-mail.

- “Tentou contactar a Dra. Christina Tucker. Lamento não poder atender. Por favor, deixe mensagem”.

Evelyn suspirou.

- Olá mãe, sou eu… a Evelyn. Nem sei porque é que disse o meu nome, sou a única filha que tens. De qualquer maneira, sei que já não falamos há algum tempo, mas queria-te desejar um bom Natal. E queria saber como estás. Como está a Alemanha… o teu trabalho no hospital. Sei que estás sempre ocupada por isso… só, liga-me quando tiveres oportunidade, está bem? Beijos.

Desligou e respirou fundo. Ao voltar-se de novo para o interior do café, deu com Theresa a observá-la.

- Está tudo bem? – A mãe de Doug tinha reparado no ar abatido da rapariga, mas ela tentou disfarçar.

- Estava a tentar falar com a minha mãe…

- E não conseguiste?

- Não, ela… ela trabalha num hospital, na Alemanha… quase nunca falamos – Theresa franziu as sobrancelhas, e Evelyn notou que tinha ficado um pouco presa ao assunto – Não faz mal, Theresa, a sério. Nunca fomos muito próximas.

A mulher engoliu em seco e assentiu com a cabeça.

- Então e o teu pai? – Arriscou a perguntar – Mora em Nova Iorque contigo, ou na Alemanha com a tua mãe?

- Ele está… em Nova Iorque, sim. Mas está… morreu quando eu ainda era muito nova.

- Oh querida! Lamento…

- Não faz mal… acho que também nunca fomos muito próximos – Evelyn disse aquilo com um pouco de sarcasmo, arrependendo-se no segundo a seguir. Sorriu à senhora e depois tocou-lhe no ombro para que se virasse para entrarem de novo – Vamos para dentro? Está frio cá fora.

Já lá dentro, juntaram-se a Steve e a Maura, pois Wren e Doug tinham desaparecido da vista de todos. Voltaram poucos minutos depois, tinham apenas ido espairecer um pouco. Aproximaram-se do resto da família e infiltraram-se na conversa de um modo descontraído.

- Evie, não queres ir dançar? – Convidou Wren, para surpresa de todos.

Ela encolheu os ombros.

- Se o meu adorável namorado me permitir – afirmou, com uma voz um pouco de gozo, fazendo com que Doug cerrasse os olhos.

- Querida… ambos sabemos que nunca te impedi de fazer nada. Além disso, ele nunca te conseguirá seduzir como eu.

Os três soltaram uma gargalhada, e Wren e Evie foram dançar. A música era um pouco mexida, e entre a dança e a conversa os dois iam rindo um bocado. Doug ia observando de longe, sempre sem tirar os olhos de cima dos dois. Levou o resto do whisky que tinha no copo à boca e engoliu-o, seguindo depois para ao pé dos dois.

- Talvez tenhas razão – admitiu a Wren, continuando a conversa que ambos tinham começado lá fora – Podemos trocar?

O outro assentiu com a cabeça e afastou-se, deixando o amigo tomar o seu lugar, com um ar convencido e triunfante. Tinha-o chamado à parte, há minutos atrás, com o intuito de lhe dizer que achava que, nos últimos dias, ele andava demasiado “agarrado” à médica. Primeiro o modo surpreendido com que ficou devido ao trabalho dela na escola, depois a dança no casamento, as brincadeiras entre os dois, e ultimamente os sorrisos já nem eram tão forçados. Disse-lhe que achava que ele estava a começar a gostar dela, e o facto de Doug ter sentido ciúmes ao vê-los dançar provava isso mesmo.

- Que conversa foi aquela? – Questionou Evie – Que ele tinha razão?

- Eu disse “talvez” – Doug era casmurro – Não era nada de especial. Tenho pensado em perguntar-te isto, mas depois esqueço-me sempre… o que estás a achar destes dias cá?

Ela sorriu e desviou o olhar, corando ligeiramente.

- Estranhamente, estou a gostar. As pessoas são simpáticas, e há sossego e…

- Não há barulho de guitarras? – Ambos se riram e foi naquele momento que Doug notou, pela primeira vez, o quão bonito o seu sorriso era – Isso é só porque levei a minha para Nova Iorque. Costumava acordar a vizinhança toda.

- Acredito em ti. Pobres dos teus vizinhos… e olha que sei do que falo, agora sou um deles.

Ao rodar Evelyn, ambos viram um senhor de meia-idade quase a cair para o chão, se Wren não o tivesse amparado. Evelyn olhou alarmada para Doug e seguiram os dois para ao pé dele, que estava agora sentado numa das cadeiras. Em poucos segundos todas as atenções se viraram para ele.

- O que aconteceu? – Perguntou Evie, impondo-se perante os outros, que teimavam em fazer bastante barulho com perguntas e suposições – Ei! Toda a gente tem que dar um passo atrás, temos que dar ar a este homem!

Todos assentiram e obedeceram, menos Doug e Wren. Evelyn examinou o homem e franziu as sobrancelhas.

- Senhor, como é que se chama?

- Ulrick, menina.

- Ulrick, o que é que sente?

- Não é nada, não é nada… é apenas azia.

Ela engoliu em seco. Ele quase tinha desmaiado, e agora dizia que sentia azia.

- Doug, telefona para as urgências – mandou, pondo de novo todos alarmados. Doug assentiu e afastou-se para fazer o telefonema – Ulrick, dói-lhe algum braço? O pescoço, as costas, o estômago… a mandíbula?

Ele olhou para ela e franziu as sobrancelhas.

- Agora que pergunta… o meu braço direito está-me a incomodar um pouco.

Por vezes a dor de um ataque cardíaco pode-se confundir com uma indigestão ou azia, dependendo se é muito forte ou mais leve.

Evelyn engoliu em seco.

- Ulrick, ouça-me bem: não está com uma azia, e preciso que se mantenha calmo, está bem? Tem que fazer o que eu disser, está bem? Não se preocupe, sou uma médica.

- O que… o que é que tenho?

- Está a ter um ataque cardíaco – uma exclamação geral fez-se ouvir – Ouça, não se preocupe com eles, está bem? Preocupe-se só consigo. Vou precisar que tussa. Tussa com força e o mais prolongado que conseguir. Imagine que tem uma impressão na garganta. E respire de um modo profundo antes de cada tossidela. A respiração vai continuar a levar o oxigénio aos pulmões e a tosse vai comprimir o coração e manter o sangue a correr. Está bem? Faça isso.

Ulrick engoliu em seco e assentiu com a cabeça, começando com as tossidelas. Doug regressou e disse que a ambulância chegava dentro de cinco a sete minutos. Quando tal aconteceu, o velhote foi levado para o hospital em conjunto com a esposa.

A festa acabou por aí, e todos foram para as respectivas casas.

Doug e Evelyn já estavam no quarto, ambos prontos para dormir, quando ele se sentou na cama e a observou de um modo cuidadoso.

- O que foi? – Questionou ela, deitando-se no seu lado.

- Estava só a pensar… foste incrível hoje. A maneira como lidaste com aquele drama… nem toda a gente era capaz.

Evelyn riu baixinho para não incomodar o resto da casa.

- Fui treinada para aquilo.

- Os paramédicos disseram que lhe salvaste a vida.

- Sim, graças a Deus.

 

 

Evelyn acordou numa cama vazia. Conseguia ouvir as gargalhadas de Lola vindas da sala. Levantou-se e calçou as pantufas, caminhou apenas com o pijama quentinho e com desenhos de gatos, e com o cabelo desgadelhado. Ao espreitar para a sala viu a pequena de volta da árvore, sentada no chão, com vários embrulhos no colo. Steve estava num sofá pequeno, e Theresa e Doug estavam no grande.

- Evie! – Exclamou a pequena, alertando todos para a presença da médica – Estou a abrir as minhas prendas. Vem ver!

Doug chegou-se mais para ao pé da mãe e Evie sentou-se na ponta do sofá e admirou o ambiente naquela sala. Era familiar, suave, bom, feliz. Evelyn adorou-o, nunca tinha tido um Natal assim antes.

- Então Lola, ainda te falta abrir aquela – disse à pequena, quando Lola disse ter terminado de abrir os presentes.

- Não, aquela é para ti… - murmurou Doug, apanhando-a desprevenida. Levantou-se e alcançou o embrulho, passando-o para as mãos da médica – Não é nada de especial.

Ela abriu-o e viu uma pequena pulseira, com a figura de uma guitarra. Não conseguiu evitar uma gargalhada.

- Adorei.

- É só para o caso de sentires saudades – brincou ele.

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