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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 10.11.12

Capítulo 14

A Menina dos Olhos de Doug

 

- Vá lá, levanta-te – Doug abanou Evelyn e esta acordou e bocejou.

- Que horas são?

- Oito.

- Meu Deus… até sem a guitarra me privas do sono – Doug riu-se, e a médica viu logo que ele tinha levado aquele comentário para outros lados, e por isso mandou-lhe com a almofada – Nem penses em mais nada. Mas o que é que queres ir fazer, afinal?

- Dar uma volta.

Evelyn franziu as sobrancelhas.

- Então vai.

- Vá lá Evie, amanhã vamos embora. Por favor…

Era o dia 31 de Dezembro, e no primeiro dia do ano eles deixariam Alabama para retornar a Nova Iorque.

Ela revirou os olhos e resmungou baixinho enquanto se arrastava para a casa de banho. Saiu de lá já de cara lavada e cabelo arranjado e vestiu a blusa que Doug lhe tinha dado, dele, e umas calças de ganga. Calçou os ténis que tinha comprado lá e, ao chegar à cozinha, todos olharam para si desconfiados.

- Evie! – Exclamou a pequena Lola, com um ar de espanto – Estás tão diferente!

Evelyn riu-se e viu o seu reflexo nos espelhos dos armários. Não era mentira. Estava quase sem maquilhagem, e com o cabelo preso num simples rabo-de-cavalo. Sem os saltos altos e as roupas da cidade era como se não fosse ela. Doug sorriu ao vê-la naquela figura, estava mais bonita que nunca.

- Mas estou mal, Lola?

- Não! Ficas sempre bonita! – Exclamou a pequenina – Não é, tio?

Doug riu-se.

- Sim princesa, é verdade.

Comeram qualquer coisa e depois saíram juntos. Caminharam pela cidade, a meio da manhã Doug comprou uma maçã a cada um e depois aventuraram-se no meio do bosque, ideia da qual Evelyn gostou pouco. Ela não gostava de bicharada nem conseguia andar mais de dez metros em solo irregular sem tropeçar.

- Tem cuidado – advertiu Doug, quando ela tropeçou e se agarrou a ele para não cair. Evelyn riu-se.

- Estás-me a punir. Sabes perfeitamente que não me encaixo aqui e trouxeste-me para um sítio onde posso cair de mil e uma maneiras – brincou ela.

- Parvoíces.

Continuaram a andar e passado um bocado acabaram sentados numa planície, a admirar a paisagem calma e serena, repleta de verdura, que se estendia à frente. Evelyn levou a maçã à boca e deu-lhe uma trinca, olhando para Doug. Ele parecia-lhe diferente. Aquele cabelo rebelde parecia-lhe agora bonito, o sorriso tinha ganhado um diferente tipo de charme e até o brinco na orelha o fazia dele quem era. Ela deu por si a pensar que não mudaria nada nele, o que a fez corar ligeiramente. Estava a endoidecer, só podia, mas vê-lo ali, ver como agia com os pais, como era carinhoso com a sobrinha e todas as outras pessoas da pequena amostra de cidade, fez com que o olhasse com olhos diferentes. Talvez o tivesse julgado mal, talvez houvesse mais nele além de um homem mulherengo e barulhento.

- Fala-me da tua banda – pediu, fazendo com que ele a olhasse e soltasse uma gargalhada.

- Estás a falar a sério? – Perguntou-lhe, sem acreditar. Ela encolheu os ombros – Bem… quando morava cá juntei-me com o Wren e o… Ashton.

Evelyn franziu as sobrancelhas. Ela reconhecia aquele nome.

- O teu irmão? – Será que ele ia fugir ao assunto como sempre fazia, ou será que falaria do pai de Lola?

- Sim. Nós nunca nos demos bem, ele era o mais velho mas sempre foi muito irresponsável…

- Parece-se com alguém que eu conheço…

- Não, ele era muito pior. Comparado com ele, sou um santo. Mas divertimo-nos… De qualquer maneira, quando ele chegou a casa e disse que a namorada estava grávida, os meus pais quase tiveram um ataque. Obrigaram-no a sair da escola e a trabalhar. Desistiu também da banda e o nosso sonho ficou adiado. Então a Lola nasceu e ele adorava-a, mas também adorava a bebida e as mulheres. Nem sei as vezes que me meti em confusões para evitar que namorados lhe partissem a cara por estar metido com as raparigas… ou as vezes que paguei por coisas que roubou… ele não tinha remédio. Meteu a namorada com a Lola na nossa casa, mas acabava por não lhes dar a mínima atenção. Nós já não nos dávamos muito bem, mas ao vê-lo desprezar a filha… a pôr o todo trabalho em cima dos meus pais… discutíamos imenso. Numa noite a briga foi tão grande que desejei que ele desaparecesse de vez… e ele desapareceu. Os polícias bateram-nos à porta às cinco da manhã… e a mãe da Lola fugiu e deixou-a para trás.

Evelyn engoliu em seco e colocou-lhe a mão no ombro, fazendo-lhe depois festas ao longo do braço.

- Doug… a Lola pode não ter os pais, mas tem uns avós que a adoram, tem uma tia que a mima o mais que pode e um tio que é louco por ela. E ela sabe a sorte que tem. Quando chegámos cá, no primeiro dia, e ela te viu a entrar pela porta, os olhos dela até brilharam. Ela pode ser a menina dos teus olhos, mas tu és o homem da vida dela.

Doug olhou para Evelyn e sorriu-lhe. Ela imitou-o e chegou-se mais a ele, pousando a cabeça no seu ombro.

- É estranho – murmurou.

- O quê?

- Não queria vir… mas agora não quero ir embora amanhã.

Doug riu-se.

- Evelyn Tucker, será que Billingsley te conquistou?

- Talvez. É só que… as pessoas são fantásticas… e podemos ver as estrelas à noite… não me interpretes mal, amo Nova Iorque, mas aqui é diferente.

- Sim… eu sei o que queres dizer. Vamos lá, temos que nos ir despachar para a festa de ano novo.

 

 

A festa do ano novo foi feita no largo da cidade. Em cima do coreto estava uma aparelhagem de onde saía a música, e na relva os casais podiam dançar. O café tinha feito a comida e providenciava os refrigerantes e outras bebidas, que estavam em cima de uma mesa comprida ao longo do passeio. A estrada estava cortada. Os enfeites eram à base de luzes pequenas colocadas em todo o lado.

Evelyn estava com um vestido bege, de atar ao pescoço, justo até à cintura e com uma pequena roda até acima do joelho. Tinha o cabelo num apanhado cuidadoso e um batom vermelho forte nos lábios. Apoiada nos seus saltos altos vermelhos, e com o casaquinho a condizer para não ter frio, agarrava num copo de champagne do qual bebia de tempos a tempos.

- Pois mas é verdade. E olha que a guerra não é para qualquer um – Steve ia-lhe contando histórias da sua juventude no exército, e Evelyn ia assentindo com a cabeça. Doug aproximou-se nesse mesmo momento, colocando-se ao lado dela e pousando-lhe a mão na cintura.

- Desculpa pai, mas vou-ta roubar por um bocadinho – anunciou, antes de retirar o copo da mão da médica e de o passar para as mãos do pai. Puxou-a até ao sítio destinado à dança e juntou os corpos dos dois, deixando-a desconfiada.

- Pareces extremamente feliz – reparou ela.

Doug rodou-a e encolheu os ombros.

- Estás linda – Evelyn sentiu as bochechas a corar – Estás sempre, mas hoje… uau.

- Vejam só quem decidiu ser encantador – brincou ela, sorrindo – Obrigado.

Ele assentiu com a cabeça e continuaram com a dança.

- Sabes… tenho que admitir que me surpreendeste.

- Como assim?

- Se nunca te tivesse trazido comigo… bem, acho que nunca teria começado a gostar de ti.

Evelyn reparou que aqueles olhos verdes estavam colados aos seus, e sentiu borboletas no estômago. Que sensação era aquela? Há anos que não se sentia assim, como se estivesse a flutuar nas nuvens.

- Também tenho que admitir que… estou contente por ter vindo. Se não tivesse vindo, também não teria começado a gostar de ti desta maneira. Seja lá como for.

Doug riu-se e o som da música foi baixado. O prefeito subiu ao palco e iniciou a contagem decrescente para o novo ano.

- Sabes… nesta cidadezinha temos o hábito de beijar alguém à meia-noite… - sussurrou Doug, pondo um sorriso nos lábios da médica – Era estranho beijar alguém, que não a minha “namorada”, não achas?

- Cinco… quatro… três… dois… um… - ouvia-se em uníssono – Feliz ano novo!

Evelyn colocou os braços à volta do pescoço dele e juntou os lábios dos dois. Ele desceu as mãos à cintura dela e puxou-a mais para si. Depois levou uma das mãos à sua bochecha e começou a acariciá-la enquanto o beijo tão esperado ainda durava.

- Que nojo! – Exclamou a pequena Lola, acordando-os aos dois para o mundo real, dando depois um pequeno puxão na avó – Avó, viste o que eles estavam a fazer?!

Theresa riu-se, tal como Evelyn e Doug.

- Anda lá Lola, vamos procurar a tua tia – puxou a menina e piscou o olho ao filho, que continuou a rir e voltou a olhar para a mulher à sua frente.

 - Onde é que estávamos? – Ela nada disse, e ele voltou a juntar os lábios dos dois.

 

Então, era este o tão esperado capítulo? ahah

Beijinho (:

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