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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 13.11.12

Capítulo 15

Lar de Rosas

 

Evelyn abriu os olhos e deu por si completamente encostada a Doug. Esboçou um pequeno sorriso ao lembrar-se da festa da noite anterior. Tinha entrado no novo ano da melhor maneira, e as cicatrizes deixadas no seu coração no ano passado tinham curado por completo. Parecia magia, algo em que ela nunca acreditara por ter a ciência como resposta a quase tudo. Viu que ele ainda dormia profundamente. Levantou-se sem fazer barulho e caminhou até à cozinha, onde encontrou Theresa e Donald.

- Bom dia – disse, sonolenta.

- Já de pé? Ainda é cedo Evie – comentou a mãe do seu vizinho.

- Não consegui dormir mais.

Sentou-se à mesa, tal como a senhora, e apoiou a cabeça nas mãos.

- Que carinha, rapariga.

- Estas férias passaram demasiado depressa, não achas Theresa?

- O tempo passa sempre demasiado depressa quando o Doug cá está. Parece que voa!

- Dizem que o tempo passa mais rápido quando nos estamos a divertir.

- Então é bom sinal que tenha passado depressa – ambas sorriram.

Depois de Doug acordar, Evelyn foi para o quarto para arrumar as coisas nas malas. Arrumou a roupa, os sapatos, e tudo o que tinha espalhado por aquele pequeno espaço. Aos “quác-quác”, o pato Donald entrou pelo quarto a abanar o rabiosque e, como se soubesse exactamente o que passava, parou a mirá-la. Ela olhou para ele e riu-se.

- Tu és um pato esquisito, sabias? – Perguntou, sentindo-se idiota por estar a falar para um pato – Mas acho que também vou ter saudades tuas, deixa lá.

Almoçaram todos juntos e Wren chegou por volta das duas horas. Steve ia levá-los a Mobile, ao aeroporto, tal como os tinha ido buscar. Foram buscar a bagagem ao quarto e ajudaram-no a colocá-la na carrinha. Maura apareceu também por volta dessa altura, para se despedir deles. Doug deu abraços e beijinhos e pegou na sobrinha ao colo e encheu-a de mimos. Evelyn foi mais tímida na despedida, deu um beijo a Maura e outro a Theresa, e depois colocou-se de cócoras para falar com a pequena.

- Vou ter saudades tuas – garantiu Lola – Estava a gostar de seres minha tia.

Evelyn sorriu.

- Também vou ter saudades tuas, Lola.

Steve levou-os aos três ao aeroporto e lá despediram-se dele e esperaram pelo avião. A viagem foi feita calmamente, Doug adormeceu a ler uma revista e Evelyn passou o tempo a ler o seu livro de anatomia. Wren ia a ouvir música, mas a certa altura desligou o MP3 e olhou para ela.

- Então agora que ele está a dormir, diz-me lá como correram as coisas – pediu-lhe, a rir-se. A médica riu também.

- Correram bem.

- Não foi um sacrifício muito grande, apenas para teres silêncio de manhã? – Evelyn arregalou os olhos. Já nem se lembrava que tinha sido esse acordo a levá-la até lá.

- Por acaso, depois da primeira semana, até foi bastante fácil.

Deu por si a pensar que gostaria de lá voltar, e de visitar a família do vizinho. Depois da primeira impressão, revelaram-se mesmo pessoas espectaculares. Olhou para Doug e começou a pensar. Depois dos acontecimentos da noite anterior, talvez voltasse mesmo. Talvez eles se conseguissem entender, quem sabe. Pelo menos ela tinha esperança que sim.

O avião aterrou e os três dividiram um táxi. Wren foi deixado primeiro, e Doug e Evelyn ficaram à porta do prédio e suspiraram.

- Estamos de volta – constatou ele, com um certo tom de alívio.

- Pois estamos.

- Afinal conseguimos sobreviver – Evelyn riu – Anda lá, eu ajudo-te com as malas.

Como o maldito elevador continuava avariado, ele ajudou-a a carregar a bagagem até ao andar de ambos. Ela procurou pelas chaves dentro da pequena mala que levava ao ombro e, quando abriu a porta e acendeu a luz, ficou boquiaberta. Doug até deixou cair as malas que tinha nas mãos, felizmente nada do que lá estava era frágil.

Evelyn avançou para dentro da casa, ainda sem reacção, e olhou desconfiada para Doug.

- Tu…

- Não.

Ela voltou a percorrer os olhos pelos ramos de rosas vermelhas que lhe enchiam o hall. Estavam em todo o lado. À solta por cima dos móveis, em jarras pequenas e grandes, no chão, nas paredes, até penduradas no candeeiro. Doug entrou também e reparou num cartão pousado em cima do móvel e pegou-o.

- “Espero que não te chateies, mas pedi ao teu porteiro para me deixar surpreender-te. Nenhuma destas rosas faz jus à tua beleza. Por favor, perdoa-me. Grayson” – leu, em voz alta.

Evelyn olhou para ele em estado de choque. Depois de todas aquelas semanas sem um único telefonema, uma única palavra trocada, Grayson tinha feito aquilo? Noutras circunstâncias ela estaria reluzente, felicíssima por ele a querer de volta, mas ao olhar para o vizinho com aquele ar desleixado mas bonito, com o cabelo despenteado e o brinco na orelha, toda essa suposta felicidade se escondia num sítio muito confuso.

- Meu Deus… - limitou-se a murmurar.

- Parece que ele se esmerou – comentou Doug, para espanto dela.

- Ele é sempre assim.

Grayson gostava de fazer tudo em grande. No seu aniversário tinha-lhe oferecido uns brincos de diamantes escondidos numa rosa artificial entre muitas do ramo que lhe tinha comprado; no ano anterior, levara-a até ao teatro e no regresso para casa parara na ourivesaria, àquela hora aberta apenas para eles, com o chão coberto de pétalas de rosas e disse-lhe que escolhesse o que quisesse.

- Não duvido… - Doug apenas conseguia pensar na pequena fortuna gasta naquelas rosas todas.

Evelyn abanou a cabeça e suspirou. Grayson tinha-a deixado, agora não podia esperar que ela o aceitasse de novo. Além disso, agora podia estar a caminho de se entender com outra pessoa.

- Mas ouve, devíamos falar de nós – afirmou.

Doug olhou para ela e franziu as sobrancelhas.

- De nós? Que “nós”?

- De nós! Dos últimos dias… de tudo o que se passou. Da noite passada. Não sei o que se passou comigo, mas eu apenas…

- Evie, pára – pediu-lhe, soltando um risinho – Os últimos dias foram divertidos. Divertimo-nos, apenas isso. Mas vamos encarar os factos: eu sou um guitarrista sem banda, e o Grayson é um advogado rico e conceituado. Raparigas como tu nunca acabam com rapazes como eu.

Evelyn não estava a perceber o rumo daquela conversa. Ele não se sentia assim, não podia ter sido apenas divertimento. Ela sabia que ele tinha sentido algo mais.

- Por… porque não?

- Simplesmente não acabam. Devias ligar-lhe, já tiveste as tuas férias, está na altura de voltares à vida real. Mas não te preocupes boneca, vamos ter sempre aquela noite.

- Mas fazes alguma ideia do que estás para aí a falar? Eu…

- Olha, foste comigo para me fazeres um favor. Está feito. Agora eu cumpro a minha parte e não faço barulho com a guitarra. E todos sabemos o que vai acontecer a seguir: amanhã, vais voltar a namorar com ele. Toda a gente sabe como isto acaba.

Evelyn engoliu em seco.

- Ai é? Então é isso? Fomos e viemos, e enquanto lá nos demos bem, cá voltamos a ser os mesmos estranhos que se irritam um com o outro quando se cruzam no corredor? É isso que queres?

- É a ordem natural das coisas, boneca.

- Eu não sou nenhuma boneca.

- E eu não ter nada a ver contigo. Vives a tua vida, eu vivo a minha. Não te metes comigo, não me meto contigo. Bem… só o suficiente para sermos educados. E, não te esqueças, estou disponível sempre que estiveres bêbeda.

Ele soltou outro risinho e deixou-a especada enquanto entrava para a sua casa e fechava a porta. Evelyn ainda teve alguns minutos em estado de choque até pegar no resto das suas malas e as arrastar para dentro de casa.

Doug mandou a mala contra o sofá e deu um pontapé no móvel que tinha ao pé, com uma expressão angustiada. Sentou-se ao lado da mala e juntou as mãos, pondo-as junto aos lábios. Não era justo que aquele marmanjo a tivesse dispensado e agora a quisesse de volta, mas ele sabia que era impossível competir com a realeza, e Grayson era praticamente da realeza de Nova Iorque. Podia dar uma melhor vida a Evelyn, uma vida que ele nunca poderia, por muito que gostasse do seu sorriso, da sua voz, da maneira como o fazia sentir. Era escusado. Tinha de a esquecer, tinha que desistir. Não se consegue atingir o inalcançável. Ela estava fora do seu alcance.

Evelyn olhou para as malas e não lhes mexeu. Começou a recolher todas as rosas e reuniu-as na cozinha, dentro de um saco em cima da bancada, onde as deixou ficar. Aqueceu leite e jantou meramente cereais, enquanto revivia vezes e vezes a conversa anterior.

 

Já sei, já sei, a esta hora querem-me crucificar...

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