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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 15.11.12

Capítulo 17

Os Conselhos de uma Amiga

 

A casa estava tão silenciosa que Evelyn só tinha vontade de arrancar os cabelos. Foi até à sua caixinha de jóias, que guardava sempre numa das prateleiras do roupeiro, e de lá tirou a pulseira que Doug lhe tinha oferecido no Natal, aquela com uma pequena guitarra pendurada. Sentou-se na cama e sorriu para si ao lembrar-se do que tinha vivido em Billingsley. Perguntava-se se agora, que tudo o que nem sequer tinha começado estava acabado, voltaria a ver Theresa, ou até mesmo a pequena Lola. Mesmo não estando relacionada com o vizinho, ia ter saudades da família dele. Foi difícil ao início, mas acabaram por a conquistar como os sulistas sempre conseguem.

Suspirou, colocou a pulseira no pulso e levantou-se. Deu uma arrumadela na casa e depois colocou um CD na aparelhagem com o som elevado enquanto lavava a loiça. Com esperança talvez desta vez fosse ele a ir bater-lhe à porta a mandá-la fazer menos barulho, mas isso não aconteceu. Há quase duas semanas que nem mais de três palavras trocavam, e isso estava a matá-la por dentro.

O seu telemóvel tocou e ao ver quem lhe telefonava sorriu e atendeu.

- Oi Grayson.

- “Ouve amor, desculpa mas vou ter que cancelar o almoço de hoje. Aparece um cliente e o caso está mais complicado do que parecia e…”

- Não faz mal, a Lizzie está por cá, eu telefono-lhe e almoçamos juntas. Não te preocupes.

- “És um anjo. Como é que acabei por ter tanta sorte?”

- Pois, pois. Vai lá ver desse cliente. Beijinhos.

- “Beijos, amo-te”.

Evelyn desligou sem retribuir o “amo-te” do namorado, e engoliu em seco. Desde que deram aquele tempo já no ano passado, nunca mais o tinha dito. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, Grayson ia perceber que estava alguma coisa errada, mas esperava ter ainda mais algum tempo até que isso acontecesse. Tinha esperança de que, em mais umas poucas semanas, esquecesse Doug de vez e a chama de amor por Grayson se voltasse a acender. Estava a enganar-se a si mesma, ou então a fingir que se enganava, pois nem ela própria acreditava muito nisso.

Precisava urgentemente de conselhos, e por isso até ficou agradecida por Grayson ter cancelado o almoço. Logo a seguir telefonou à amiga e esta disse que a encontrava no restaurante, e foi mesmo isso que aconteceu.

Era quase uma hora quando a médica tomou um duche rápido e se colocou em frente ao roupeiro sem saber o que vestir. Sentia-se extremamente em baixo, mas não podia descurar na sua imagem. Optou por uma blusa de lã, comprida, umas leggins pretas e umas botas rasas. Deixou o cabelo solto e foi para o restaurante o mais depressa que pôde, pois já estava a ficar atrasada.

Lizzie ainda se atrasou mais que ela, e quando entraram e se sentaram à mesa já eram quase duas da tarde. Evelyn teria que estar na clínica às três, hora em que o seu turno começava.

- Quero saber de tudo! – Exigiu a modelo, assim que se sentaram e a empregada se foi embora com os pedidos.

Evelyn começou a reportar-lhe os pormenores da viagem, visto que ainda não tinham estado juntas devido ao trabalho de Lizzie, e pouco depois a comida veio para a mesa. Lizzie ouvia tudo com a máxima atenção enquanto iam fazendo breves pausas para comerem.

- Beijaste-o outra vez?! – Perguntou, completamente atónica – E desta vez estavas sóbria Evie?

Evelyn riu.

- Estava. E, sabes, cheguei mesmo a pensar que podíamos ter alguma coisa. Ele foi tão diferente lá Lizzie, não fazes ideia. Talvez eu apenas não tivesse visto aqui porque nunca lhe dei uma oportunidade, mas ele é simplesmente… - Evelyn encolheu os ombros e abanou a cabeça.

- E, no entanto, voltaste para o Grayson.

- Não sabia o que fazer. Ainda não sei. O Grayson é… ele é fantástico, e uma parte de mim vai sempre amá-lo, mas não sei…

Lizzie assentiu com a cabeça, deu um gole no copo cheio de água, e respirou fundo. Arrumou os talheres no prato, visto já ter terminado a refeição, e depois olhou para a amiga de um modo sério.

- Ouve… eu sempre dei conselhos maus nestas alturas – começou por dizer, captando a atenção da médica – Sempre te disse para te divertires e fazeres asneiras e… Mas bem, se queres mesmo saber a minha opinião, acho que devias ficar com o Grayson.

Evelyn franziu as sobrancelhas. Não era aquilo que esperava ouvir. Vindo de Lizzie esperava que ela a encorajasse a ser espontânea, a dar-lhe coragem para ir ter com Doug, e não aquilo que tinha acabado de ouvir.

- Achas? – Perguntou.

- Só passaste três semanas com o Doug, Evie, três semanas! Isso não é amor… Mas o Grayson é um homem fantástico, com sucesso, bonito, é um príncipe. Um príncipe que já é teu há dez anos. Não arruínes tudo isso por umas férias de Natal que já terminaram. O que podes estar a sentir agora pode ser confuso, mas tenho a certeza de que, quando a poeira assentar, vais perceber que estás a fazer o mais correcto.

- Sim… o mais correcto.

Ao estudar medicina ensinaram-lhe a ser objectiva e imparcial, e se analisasse tudo isto de um modo científico então teria que concordar com a opinião da amiga. Mas não era capaz de ser neutra, apesar de saber que estava a fazer o mais correcto, não se sentia assim.

Quando terminaram de almoçar Evelyn foi para a clínica e, depois de cumprimentar Phil, fechou-se no seu gabinete. Momentos depois de ter vestido a bata e ajeitado a maca, o seu telefone começou a tocar.

- “Dra. Tucker, tenho aqui um paciente que foi atacado por um cão. Posso mandar entrar?”

- Sim, podes Phil.

Phil desligou e logo depois bateram à porta e abriram-na. Evelyn arregalou os olhos e ficou boquiaberta ao ver Doug com a blusa toda manchada de terra e algum sangue no braço.

- Doug! – Exclamou ela – O que é que te aconteceu?

- Fui atacado por um… cão – Evelyn franziu as sobrancelhas – Tudo bem, era um poodle, mas se alguém perguntar foi um cão grande e assustador e…

Ela começou a rir e ele calou-se. Sabia que era uma desculpa esfarrapada, apesar de ter mesmo acontecido, mas tinha que a ver de qualquer modo.

- Anda lá, senta-te na maca. Tens que tirar a blusa.

- Estavas desejosa de dizer isso, boneca.

Após revirar os olhos, a médica corou ligeiramente. Depois de ele tirar a blusa Evelyn observou a ferida e desinfectou-a com água oxigenada.

- Vai deixar ficar cicatriz? – Ela olhou para ele e só lhe apeteceu rir.

- Não, é superficial.

- Não, não sou superficial. Só não quero ficar cheio de…

- A ferida é superficial, Doug, não és tu.

- Ah… - ambos se riram.

- Vou-te pôr um penso, não precisas de pontos sequer. Tiveste sorte… o poodle podia ter-te deixado em pior estado.

Ele revirou os olhos e após ela lhe pôr o penso voltou a vestir a blusa. Enquanto ela pegava na gaze para mandar fora, e na água oxigenada para voltar a guardar, ele notou na pulseira que tinha posta e sorriu.

- Estás a rir do quê?

- Hum? Nada. Puseste a pulseira que te dei…

Evelyn olhou para o pulso e, de novo, sentiu as bochechas a ferver. Tinha-se esquecido de a tirar.

- Sim, eu… - nesse momento o seu telemóvel começou a tocar, e Doug foi buscá-lo à secretária para lho dar, reparando em que lhe ligava.

- É o teu namorado.

Ela engoliu em seco e assentiu.

- Sim. Tu estás pronto, Doug.

- Trato do pagamento com o moço na recepção?

- Deixa isso, não precisaste de nada de especial.

Ele assentiu e foi embora, deixando-a para atender a sua chamada.

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