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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 27.11.12

Capítulo 21

Amantes Silenciosos

 

Abril ia a meio e o tempo estava a começar a amenizar.

Depois de um dia calmo na clínica, a médica foi para casa e deixou-se ficar a repousar na banheira cheia de água quente e sais de banho. Estava tão esgotada que acabou por adormecer, acordando quando a água estava já a começar a esfriar. Saiu do banho e depois vestiu uma camisa de noite de meia-manga, branca e com gatos pretos. Prendeu o cabelo com uma mola e foi fazer o jantar, quando ouviu um grande estrondo vindo das escadas.

Abriu a porta, alarmada, e viu que Doug estava em estado de choque a mirar o que se encontrava no fundo das escadas. Franziu as sobrancelhas e olhou também, vendo a sua guitarra espatifada no chão.

- Oh Deus… - murmurou ela.

- Escorregou-se-me – disse ele, ainda em choque.

Ela desceu as escadas e foi buscá-la, trazendo-a depois até ele.

- Achas que ainda está boa?

- Espero que sim.

Despediram-se e cada um foi para a sua casa. Agora que pensava bem, o vizinho parecia-lhe diferente. Para começar o brinco da sua orelha tinha desaparecido, e estava a passar muito mais tempo fora de casa. Teria arranjado alguma namorada? Bem, não o podia culpar, afinal há quase dois meses que não falavam nada além de um breve “olá” e “adeus”.

Passou a noite às voltas na cama, e quando o despertador tocou despachou-se para ir trabalhar.

Estava a caminho da clínica quando o vento começou a soprar mais fortemente e, como se o destino tivesse intervindo subitamente na sua vida, um panfleto já um pouco amachucado desviou-se de árvores e bocas-de-incêndio e outras pessoas apenas para lhe ir embater na barriga. Ela levou lá a mão, na intenção de apenas lhe dar um toque para que seguisse o seu caminho com a brisa, porém algo lhe captou a atenção e decidiu observá-lo melhor. Era uma fotografia de quatro homens, homens esses que Evelyn conhecia. Estavam bem vestidos e o cabelo estava penteado de modo a dar aquele ar de despenteado. Doug estava ao centro com uma guitarra novinha em folha; Wren e Riucci também tinham guitarras, e Dave estava sentado a uma bateria. A letras gordas e bem desenhadas podia-se ler “Silent Lovers”, e em baixo informava que o grupo ia dar um pequeno concerto num grande café nas redondezas.

Evelyn não conseguiu deixar de sorrir.

- Quem diria, hum? Ele tem mesmo uma banda.

Foi para o trabalho e passou o dia inteiro atarefada entre dores de garganta, más-disposições e membros partidos. O concerto da banda de Doug seria esta noite, e ela tinha uma vontade enorme de os ir ver. Estava curiosa, mas era mais que isso… queria lá estar para ele, ver se tinha conseguido concretizar o seu sonho, ouvir as suas músicas.

- Evie, estás-me a prestar atenção?

Foi chamada de volta à realidade pelo Dr. Porter, enquanto ambos petiscavam à mesa da sala conjunta.

- Sim Carl, desculpa. Na verdade não… não te ouvi.

Carl riu.

- Hoje estás com a cabeça na lua.

- É… algo assim.

O seu turno terminou perto das cinco da tarde e, tal como combinado, foi ter à casa do namorado. Grayson não tinha ido trabalhar, tinha havido uma infiltração na firma e por isso todos os empregados tinham tido o dia livre. Ficaram lá juntos durante algumas horas, mas Evelyn não conseguia deixar de pensar no concerto que ocorreria daí a pouco tempo.

- Há algum problema, Evie?

- Hum? Não. Nenhum.

- Então o que vamos fazer depois do jantar? Podíamos ir dar um passeio pelo Central Park… há muito tempo que não fazemos nada romântico.

Ela olhou para ele e sorriu-lhe, pressionando depois os lábios com alguma força.

- Na verdade… - levantou-se do sofá e foi até à sua mala, de onde tirou o panfleto que a tinha atingido de manhã – Gostava de ir ver este concerto.

 

 

Ao contrário do esperado, aquele enorme café encontrava-se a abarrotar. Havia um pequeno palco encostado à parede, onde os instrumentos e a banda já se encontravam, e toda a sala estava escura. Os focos de luz apenas incidiam nos músicos.

Quando Evelyn e Grayson chegaram, o espectáculo já tinha começado. Procuraram uma mesa para se sentarem e ficaram ligeiramente longe do palco. Ela também não queria ficar muito perto, não queria que Doug a visse.

A música que estavam a tocar terminou, e Doug respirou fundo. A médica sorriu e sentiu-se a corar ao vê-lo, estava tão descontraído, tão natural e tão bonito. Fãs não lhe haveriam de faltar.

- Estão a gostar pessoal? – Perguntou ele, recebendo vários aplausos e gritos da plateia, fazendo-o rir – Bem… agora vamos abrandar um pouco o ritmo. O meu amigo Dave, na bateria, sempre disse que um homem sem uma história de amor não é um homem. Sempre pensei que isso fossem tretas, até ter a minha curta história de amor. Isto é o que restou dela. A música chama-se That Night (Aquela Noite), e espero que gostem.

Quando Doug disse aquilo, o coração de Evelyn até disparou. Ele começou a tocar uma melodia muito suave, sendo acompanhado também pelos outros guitarristas e pelo baterista. Assim que chegou a boca ao microfone as palavras começaram a sair com um sentimento genuíno, capaz de emocionar qualquer alma gelada que estivesse naquele concerto. A música era triste, mas bonita e, mais que tudo, sincera.

 

That Night (chorus)

 

And I know that we could have made it right (E eu sei que podíamos ter feito resultar)

And I know that this was worth to fight (e sei que era algo pelo que valia a pena lutar)

But we’ll always have that night (mas teremos sempre aquela noite)

When my body felt your body (quando o meu corpo sentiu o teu corpo)

When my heart felt your heart (quando o meu coração sentiu o teu coração)

When the light shined throw the dark (quando a luz brilhou pela escuridão)

We’ll always have that night (teremos sempre aquela noite)

 

Durante todos os quatro minutos e vinte e dois segundos que a música durou o coração de Evelyn palpitou a toda a velocidade. Aquela música era sobre ela, sabia-o perfeitamente. E ele tinha-lhe chamado de a sua curta história de amor. Como queria levantar-se e correr para ele. Subir àquele palco e dizer que a história não precisava de acabar ali. Que, de facto, podiam fazer com que as coisas resultassem. Naquele momento, e independentemente de ter o namorado ao lado, percebeu que o amava. E percebeu que esse sentimento não ia a lado nenhum. Ela era uma amante silenciosa, durante todo este tempo andava a amá-lo em silêncio.

Assistiram ao resto do espectáculo e depois saíram. Grayson ofereceu-se para a acompanhar até casa, e notou pelo seu silêncio que estava mais pensativa do que mesmo durante a tarde. Engoliu em seco e parou já quando estavam no início da rua dela, puxando-lhe a mão para que parasse também.

- O que se passa? – Perguntou ela.

- Porque é que os quiseste ir ver? Aquele que estava a cantar e a tocar guitarra era o teu vizinho, não era? – Evelyn engoliu em seco e assentiu com a cabeça – O que é que se passa, Evie? Seja o que for, diz-me.

Ela respirou fundo, olhou em redor e depois olhou directamente nos olhos de Grayson. Estava na altura, já chegava de viver numa mentira.

- Ouve…

- Ama-lo, não é verdade? – Ela assentiu a receio, e ele suspirou e enfiou as mãos nos bolsos das calças do fato – Eu sabia que alguma coisa estava diferente… desde que voltámos a namorar que não estás… tu própria. Deus… nunca devia ter pedido aquele tempo.

- Não! – Apressou-se ela a exclamar – Estou feliz por o teres pedido. Tiveste razão em tê-lo pedido. Se não o tivesses feito, nunca teria percebido o mundinho pequeno em que vivia… nunca teria conhecido gente maravilhosa, e aprendido que consigo fazer mais além de ser médica. Desculpa Grayson, acredita quando digo que não esperava que isto acontecesse, não esperava mesmo nada… Não planeei apaixonar-me por ele.

- Então é isto, hum? – Grayson sorriu um pouco tristemente enquanto, com a mão dentro do bolso, apertava uma pequena caixinha da Tiffany’s que ainda não tinha dado à namorada, e ainda bem que não.

Ironia: ele acaba tudo com ela na noite em que ela pensa que vai ser pedida em casamento, e meses depois ela acaba tudo com ele no mesmo dia em que ele comprou o anel com o diamante.

- És um homem fantástico. Um príncipe. Mas não és o príncipe que eu amo. Espero que encontres alguém que te mereça, espero mesmo.

Ele assentiu com a cabeça e despediu-se dela com um abraço bem forte.

- Espero que ele te trate bem – sussurrou-lhe, ao ouvido.

Depois das despedidas Evelyn caminhou até ao seu prédio e, ao entrar, reparou que o pobre porteiro já quase dormia em pé. Reparou também noutra coisa, e ficou espantadíssima a olhar para o elevador.

- Vieram-no arranjar esta tarde – informou o porteiro.

Ela sorriu, disse-lhe “boa noite” e começou a subir as escadas como já era hábito. O elevador estava finalmente arranjado, o que lhe parecia algo irónico, como se fosse um sinal de que tudo se estava a encaminhar pelo rumo certo.


Então que tal, já gostam mais assim? :b

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