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O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 12.12.12

É um pouco maior. Não se esqueçam de comentar, oui?

 

Capítulo 24

Um Passeio Apoquentado

 

- Fico feliz por vocês – disse Theresa, com toda a sinceridade – Pelo menos espero que desta vez seja de vez. Não podia pedir por uma nora melhor.

Evelyn riu-se e corou ligeiramente. Sim, pensando bem, agora era “nora” dela, e “tia” da pequena Lola, que estava agora na sua cozinha com o tio e Maura. Visto serem tantos Evelyn cedeu-lhes também a sua casa. Ela iria dormir no quarto de Doug, Theresa e Steve ficariam no quarto dela e Maura dormiria com Lola no sofá-cama da sua sala.

Doug chegou da cozinha com Lola, que se pôs logo ao colo da sua “nova” tia, juntamente com Maura, e sentou-se no sofá ao lado da namorada, apertando-lhe a mão.

- Nervosa? – Perguntou-lhe.

Evelyn engoliu em seco. Nervosa? Não exactamente. Estava mais receosa. Já sabia que, a partir do momento em que aquela campainha tocasse e Christina Tucker chegasse, apenas haveria desgraças. Pouco depois os seus medos confirmaram-se, ao ouvir-se aquele triiimm tão enervante. Doug foi abrir a porta. À sua frente mostrou-se uma mulher alta e perfeitamente equilibrada nos seus saltos agulha, elegantíssima, com os cabelos castanhos cortados pelos ombros num corte recto, os olhos implacáveis e um casaco de peles. Parecia uma figura de um filme, mas era bem real.

A Dra. Tucker olhou-o de alto a baixo, claramente desagradada, e pouco esforço fez para formular um pequeno sorriso.

- Mãe! – Exclamou Evelyn, ao espreitar da porta da sala. Foi até ela e disse-lhe para entrar, fechando depois a porta. Cumprimentou-a com um gélido beijo na bochecha – Mãe, este é o meu namorado, o Doug.

- Hum… é… um prazer – disse Christina, pouco convincente.

- O prazer é inteiramente meu – afirmou Doug, com uma simpatia extrema na voz. Evelyn sentiu um arrepio, era agora que isto piorava.

- Anda até à sala, a família do Doug também cá está.

Não era preciso ser-se um génio para se perceber as diferenças de estatuto naquela sala de estar daquele apartamento de Nova Iorque. Por um lado tinha-se a família de Doug, cómoda e amigável e simples e, por outro, a mãe de Evelyn, fria e com um ar de superioridade e nariz empinado. Evelyn e Doug apresentaram-nos e, para surpresa dela, a mãe até não foi muito desagradável.

É de pensamento comum que os grandes cirurgiões são pessoas frias e distantes, porém Evelyn já tinha conhecido bastantes e todos eles pareciam bastante acolhedores quando comparados à sua mãe.

Como era a primeira vez que a família do músico estava em Nova Iorque, decidiram fazer uma pequena visita pela cidade. Enquanto Lola andava alegremente à frente, com Doug e Maura, seguidos pelos pais de ambos, Evelyn ficou mais para trás com a mãe.

- Já te instalaste no hotel? – Perguntou-lhe. Christina nunca ficava na casa da filha.

- Sim, no mesmo de sempre. Então, a família do teu namorado, querida, é… interessante.

- Mãe, não comeces.

- Não estou a começar nada.

Juntaram-se aos outros e, após visitarem o Central Park, pararam numa pizzaria para almoçar. Enquanto todos se deliciavam com umas grandes pizzas cheias de queijo, fiambre e várias especiarias e condimentos, Christina olhava para eles, enojada.

- Você não quer comer? – Perguntou-lhe Theresa, sorrindo-lhe.

- Essas coisas? Por favor… - resmungou-lhe a outra, fazendo-a forçar um sorriso amarelo. “Pobre Evie, nem sei como conseguiu tornar-se naquilo que é”, pensou.

O almoço prosseguiu e de seguida decidiram subir até ao topo do Empire State Building. Andavam todos espantados com o tamanho dos edifícios, o movimento das ruas, a confusão para passar a estrada, a diversidade de estilos e modas que se viam. Todos se divertiam. Todos, menos Christina, que agia como se aquilo fosse o pior castigo que lhe poderiam dar.

A última paragem foi a clínica de Evelyn, que todos insistiram em visitar, e então separaram-se para irem tomar banhos e prepararem-se para irem jantar a um sítio mais requintado. Christina foi para o hotel e os restantes para o prédio.

Evelyn tomou banho na casa de Doug, deixando os hóspedes à vontade na sua, e nesse tempo aproveitou para conversar com ele sobre o dia e desabafar que acreditava que Christina ainda ia estragar tudo. Ele pediu-lhe para ter fé, porém também não tinha ficado com boa impressão da doutora.

Entretanto, na porta em frente, enquanto Lola tomava banho, os adultos conversavam na sala.

- Aquela mulher não é nada agradável – queixava-se Maura – Tudo bem que, quando conheci a Evie, também não a achei muito agradável, mas agora percebo porquê.

- A Evie não é nada como ela – defendeu Steve – Até é uma rapariga simples e prestável, por baixo de toda aquela aparência.

- Nem consigo imaginar ter crescido com uma mãe assim – desabafou Theresa.

Evelyn tinha terminado de vestir o seu vestido roxo, estava a pôr os seus brincos, quando a campainha tocou e foi abrir a porta. Doug, já despachado, ao ver a “sogra” chegar, achou por bem deixá-las um momento a sós para que pudessem falar, por isso foi ter com a família à casa da namorada. Por lapso, Evelyn não fechou a porta, deixando-a apenas encostada.

- Onde vamos jantar? – Perguntou Christina.

- Ao Avalon’s. Sei que gostas – respondeu-lhe a filha, recebendo um sorriso cínico – O que é que foi isso?

- Achas que o teu namorado e a familiazinha têm posses para jantar num restaurante desses? Não servem frango, lá, sabes?

Aquela arrogância era tão grande que Evelyn, por um minuto, conseguiu mesmo odiar aquela mulher. Christina, porém, estava confiante de que, como sempre, tinha a filha na palma da mão e que conseguiria fazer tudo o que queria.

- O meu namorado assinou um contracto com uma discográfica. Mas, mesmo assim, prometi que o jantar era por minha conta.

- Por favor Evelyn, quando é que vais parar com esta fantochada? – Àquele ponto Christina elevou a voz, como se estivesse a ralhar com a filha como fazia quando ela tinha cinco anos, chamando a atenção dos hóspedes do apartamento em frente.

- Desculpa?!

- Ambas sabemos que este… este… músico…

- O Doug.

- Este músico não passa de uma maneira para te rebelares contra mim. Queres-me punir por nunca cá estar, por ter escolhido ser feliz longe de ti, e…

- Estás errada mãe, como sempre. Nem sempre é tudo sobre ti, sabias?! O Doug não é um modo de me mostrar rebelde, ou de te contrariar, estou apaixonada por ele!

Na casa ao lado fez-se um silêncio de morte mas, quase instantaneamente ao começo da discussão, abriu-se a porta para que conseguissem ouvir melhor, permanecendo todos no hall.

- Evelyn, pára com isso! Amas o Grayson, não sejas idiota. Que tipo de vida te pode este homem dar? Que tipo de estatuto? Que futuro? E aquela família dele? São tão amigáveis que até irritam.

- Estás a passar o limite – avisou a filha, já a tremer com os nervos.

- Aqueles pais tão sorridentes, e a irmã tão prestável, e a sobrinha que tem os olhos tortos e não é operada porquê?! Nem é um procedimento complicado! São tão…

- O quê? – Esta foi a primeira vez em toda a sua vida que Evelyn levantou o tom à mãe, o que a deixou em estado de choque. Mas não parou por aí – Eles são tão o quê, mãe?! Tudo o que tu não és? Eles gostam dos filhos? Gostam de estar lá nos momentos importantes? Preocupam-se com as pessoas? Conseguem mostrar alguma empatia por outros seres humanos? São o quê, mãe?! Tu achas-te tão superior, mas no entanto és tão inferior a eles. A Theresa e o Steve foram os melhores pais que podia ter pedido, e só estive com eles por três semanas! Quantos anos é que tiveste para me fazer sentir assim?

- Evelyn… - Christina tentou calá-la, mas não conseguiu.

- E, no entanto, nunca conseguiste. A Maura consegue ser tão julgadora e preconceituosa como tu, mas ela consegue ser superior pois deixa que as pessoas a surpreendam, dá-lhes essa oportunidade. E não te admito que fales mal da Lola porque não tens esse direito, não quando não sabes o que é uma criança, do que precisa e o que espera da vida. Porque nunca estiveste presente para nenhuma criança, nunca estiveste presente para mim. E o Doug é o homem da minha vida, e podes dizer o que quiseres, que mal o conheço, que a nossa relação é recente, que isto não vai durar, mas o teu dever como mãe não é fazer isso, mas sim estar presente para mim caso isso aconteça e eu precise de ti. Mas isso é algo que nunca soubeste fazer! Porque de todas as vezes em que precisei de conselhos, ou de apoio, apenas me soubeste criticar! Nunca estiveste presente na minha vida, por isso não tens o direito de insultar o meu namorado nem a família dele nem de me quereres controlar! Podes ter-me dado à luz, mas minha mãe nunca foste!

Christina não se conseguiu conter e a sua mão bateu tão fortemente na bochecha de Evelyn que o estalido fez eco pela escada. Doug apareceu à porta, com a família atrás, abrindo-a nesse momento. A namorada olhou para ele, com os olhos brilhantes e um nó na garganta, e depois voltou a olhar para a mulher à sua frente.

- Saia desta casa, Dra. Tucker – mandou Evelyn, com a voz dura.

- Evelyn, querida, não queria… - murmurou-lhe a mãe, a olhar para a mão, arrependida por lhe ter batido – Perdoa-me, não queria…

- Já é tarde para desculpas. Saia! – Ordenou-lhe a médica, inquebrável – Já que viveu todos estes anos sem se preocupar que tinha uma filha, de certeza que não faz mal viver o resto deles assim também.

Ela engoliu em seco e saiu, passando pelos sulistas, em direcção ao elevador.

Todos entraram para a casa e fecharam a porta e, assim que Evelyn se encontrou ali sozinha com eles, as lágrimas começaram-lhe a escorrer pelos olhos e sentou-se no sofá. Doug apressou-se a chegar até ela, sentando-se ao seu lado, e abraçou-a fortemente enquanto lhe plantava alguns beijos na testa.

- Lamento – murmurou-lhe.

Lola passou pelos adultos e caiu aos pés de Evelyn, fazendo-lhe festinhas na perna.

- Porque é que estás a chorar? – Perguntou.

- Não é nada querida… isto já passa – respondeu-lhe ela.

- Ajuda se eu der muitos beijinhos?

- Sim, ajuda muito.

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