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One Shot - A Amiga a Fingir

por Andrusca ღ, em 28.12.12

Hoje trago-vos uma one-shot.

Espero que gostem


A Amiga a Fingir

 

Era a noite de Verão mais fria das últimas décadas e, para alguns, a mais triste também. Catherine mirava aquela mulher ainda nova, cuja vida fora tirada injustamente devido à irresponsabilidade dos outros. Estava dentro do caixão aberto, com o cabelo cor de cobre bem penteado e umas roupas negras vestidas. De olhos fechados, parecia estar num sono angelical.

- Catherine? – Perguntou-lhe a mãe, pousando-lhe a mão no ombro – Vamos deixar que as outras pessoas se despeçam?

Ela assentiu com a cabeça e, deitando um último olhar àquela mulher da qual nunca fora próxima, dirigiu-se ao agora viúvo, que se encontrava encostado a uma parede a falar com o seu pai. Velórios deixavam-na sempre com um ar abatido, porém deu o seu melhor para não se mostrar mal, pois afinal aquela perda não tinha sido sua.

- Lamento – disse-lhe, de um modo simpático e contido. Ele sorriu-lhe.

- Eu sei, querida, eu também.

A família dela sempre fora chegada à daquela mulher agora morta, porém ela nunca fora chegada ao seu filho apesar de terem a mesma idade e de frequentarem a mesma escola. Tinha uma paixoneta por ele desde sempre, por aqueles caracóis de bronze e o sorriso maroto que quase sempre lhe habitava os lábios, porém nunca o deixara chegar perto de si. Já se tinha magoado antes, agora limitava-se a andar pelas ruas de coração fechado para que nunca mais fosse partido. Viu-o sentado num banco, envergava umas calças escuras e uma camisa preta, com os últimos dois botões por abotoar, mirava o chão e tinha os olhos brilhantes e inchados. Ela sabia que ele amava a mãe mais que tudo e agora, perdê-la assim para um súbito acidente, não foi capaz de olhar para o lado e de o deixar ali. Depois de respirar fundo, começou a aproximar-se e sentou-se no banco, ao lado dele. Ficaram em silêncio durante vários minutos, até que ele falou.

- Não me vais perguntar como é que estou?

- A tua mãe morreu… estás péssimo.

- Então vai-te embora, não és minha amiga.

Ela olhou para ele directamente e revirou os olhos ao mesmo tempo que abanava a cabeça. Este era o outro motivo pelo qual nunca se tinha esforçado para ser realmente sua amiga, ele afastava as pessoas, tratava-as mal a não ser quando precisava delas.

“Eles não estão aqui”, pensou para si, contendo-se para não o perturbar ainda mais.

- Então finge que sou, como fazes sempre que tens problemas – disse-lhe, firmemente, surpreendendo-o – É isso que fazes, não é Kyle? Pedes para falar comigo só quando precisas de alguém que te ouça? Quando precisas de uma amiga a fingir? Os teus verdadeiros amigos não estão aqui, agora, por isso só me tens a mim. Finge.

Kyle olhou para ela e assentiu com a cabeça.

- Estou a sufocar aqui – admitiu – Estou cansado que venham ter comigo a perguntar se estou bem, e a darem-me os pêsames.

- Queres sair daqui? – Ele foi apanhado desprevenido por aquela pergunta, mas acabou por assentir com a cabeça.

Saíram os dois da capela sem que ninguém notasse, e começaram a andar pela rua. Catherine, com os sapatos pretos de salto alto que a mãe tanta questão fizera que usasse, e o vestido acima do joelho, também preto, dava o seu melhor para conseguir acompanhar o passo do amigo fingido. De quando a quando olhava para ele. Nunca o vira tão abatido, tão frágil e magoado.

- Porque é que eles não vieram? – Perguntou, ao fim de alguns minutos de caminharem apenas com o som do vento – Os teus amigos.

- Não puderam. A Daisy e o Jonah foram para fora, e o Ling teve uma reunião de família. Dizem que depois de amanhã falamos.

Ela não disse mais nada, mas então notou-o a aumentar o ritmo do passo.

- Kyle, onde vamos? Porquê tanta pressa?

- Porque não quero que haja amanhã.

Aquela resposta não a esclareceu, por isso continuou a andar atrás dele o mais rápido que conseguia. Deu por si no topo da ponte da cidade, uma ponte sem vedação nem muro, por cima do que outrora fora um belo lago mas que agora não passa de grande lixeira aquática. De lodo a lixo mandado pelas pessoas, não há uma gota de água dali que não seja contaminada. Os banhos lá estavam proibidos, e uma vez fora até lá encontrado um cadáver já em decomposição. Era um sítio hediondo. Ao sentir um arrepio, Catherine abotoou mais o casaco preto que levava também vestido.

Kyle aproximou-se da berma da ponte, e olhou para o horizonte, com uma lágrima a escorrer-lhe pela bochecha.

- Kyle, não te aproximes tanto – advertiu Catherine, que se mantinha quieta mais atrás – Olha que cais.

Ele olhou para trás e então ela viu. Viu nos seus olhos que essa era a sua intenção. Não pôde explicar como nem porquê, mas ele não precisou de lhe dizer nada para ela perceber exatamente o que lhe passava pela cabeça. Não estavam ali por acaso. Naquele momento, ao vê-lo ali, tão despedaçado e tão perdido, sentiu o coração a bater mais forte do que nunca.

- O que é que estás a fazer? – Perguntou, completamente alarmada. Ao ouvirem risos a passarem ao lado da ponte, viram que os três amigos de Kyle passavam animadamente pela rua. “Que amigos”, pensou Catherine, porém quando os viram, aproximaram-se de um modo atrapalhado e envergonhado.

- Kyle, meu, como é que estás? Afinal chegámos mais cedo – disse Jonah.

- É, e a minha reunião familiar foi mais rápida do que pensei – falou logo Ling.

Mas Kyle nada disse. Ele já não queria saber deles, já não queria saber de mais nada.

- Kyle? – Perguntou Daisy – O que é que se passa?

- Vou saltar – respondeu ele, por fim, à pergunta que Catherine lhe tinha feito antes de os outros aparecerem. Todos eles ficaram com um ar assombroso, e os três deram um passo atrás enquanto Catherine se manteve quieta, como se tivessem medo do amigo – Estás louco?

- Meu, isso não tem piada – disse Ling.

- Deixem-me em paz – retorquiu Kyle – Vão-se embora, também nunca estão presentes quando preciso de vocês. Vão!

E perante a incredulidade de Catherine, eles desviaram-se mais e começaram a observar tudo desde o fim da ponte.

- Kyle…

- Tu também – interrompeu ele, furioso – Também não te quero aqui.

- Kyle, pára, sai daí e vem para ao pé de mim.

- Não.

Catherine olhou em volta, completamente em pânico, sem saber o que fazer.

- Oh Deus… está bem… - engoliu em seco e deixou que a mala lhe caísse no chão. Descalçou os sapatos, ficando quase dez centímetros mais baixa, e despiu também o casaco, ficando apenas com o vestido de alças por cima da pele. Kyle arqueou as sobrancelhas, sem perceber o que se passava. Completamente aterrorizada, Catherine deu duas passadas na direcção dele, e parou ainda um pouco mais afastada da berma do que ele.

- O que é que…?

- Por favor, não saltes – pediu-lhe, com uma voz bastante tranquila para aquilo que estava a sentir.

- Porque é que tu te importas?

- Importo-me... Importo-me porque se saltares vou ter que saltar atrás de ti – Disse, de rajada – Vou ter que saltar para essa água poluída e cheia de tóxicos e… e a minha roupa vai ficar estragada e o meu cabelo vai acabar por cair por causa dessas toxinas todas, por isso vou ficar careca – ele olhou para ela como se ela só estivesse a dizer baboseiras, mas Catherine não se calou e ainda se aproximou mais dele – E diabos, posso muito bem ser comida por esses peixes mutantes que ainda conseguem viver nessa lixeira e nem sequer voltar à superfície mas… mas vou ter que saltar atrás de ti. Por isso, por favor, não me faças saltar para essa água.

Ele abanou a cabeça e olhou para o céu, soltando um suspiro.

- És louca – denunciou. Devido à ironia da situação, Catherine foi incapaz de não produzir um pequeno sorriso.

- As pessoas morrem, Kyle. Não deviam morrer, e é horrível quando acontece, mas morrem. São as pessoas que cá ficam que têm que se erguer e continuar a viver.

- O que é que tu sabes sobre isso? Nunca ninguém próximo de ti morreu.

Ele tinha razão, Catherine era sortuda nesse aspecto.

- Então não sejas o primeiro – pediu, apanhando-o de surpresa – Por favor, não sejas o primeiro.

Quando ele voltou a olhar para ela, os seus olhos estavam diferentes. Ainda tinham aquela mágoa, mas por algum motivo não parecia já tão forte.

- O quê? – Perguntou.

- O que foi? Achavas que me ia pôr descalça, de vestido de Verão num frio destes, à beira desta porcaria de lago, pronta para saltar, por um qualquer? És meu amigo. Por favor – ela estendeu-lhe a mão e ele agarrou-a, o que a fez respirar de alívio – Vamos embora?

Ele assentiu com a cabeça e desviaram-se da berma. Saíram da ponte pela parte oposto à qual os amigos de Kyle esperavam, e caminharam de novo silenciosos pela rua. Catherine vestia o casaco e punha a mala ao ombro, mas caminhava com os sapatos na mão.

- Não vais calçá-los? – Perguntou Kyle, quando estavam já à entrada da capela.

- Não… estão-me a dar cabo dos pés, ainda bem que me fizeste tirá-los.

E naquele momento, a meio daquela noite tão triste e desoladora, Catherine viu o melhor sorriso que alguma vez veria em toda a vida. Foi um sorriso genuíno, conseguido magicamente num momento daqueles, e foi-lhe dirigido a si.

- Obrigado – agradeceu-lhe Kyle, antes de voltarem a entrar na capela. Ela assentiu com a cabeça, e então viram o pai de Kyle, e os seus pais, com um ar bastante preocupado.

- O que se passou? – Perguntou o pai de Kyle.

- Onde foram? – Perguntou a mãe de Catherine.

Os dois adolescentes trocaram um breve olhar, e foi a rapariga quem falou:

- Tenham calma, fomos só desanuviar um bocadinho. Precisávamos de apanhar ar.

Já deviam passar das três da manhã quando Catherine chegou a casa. Estava exausta, tinha tido uma noite para esquecer, por isso despachou-se e enfiou-se logo na cama, apenas com um lençol e um cobertor fininho por cima. Deu voltas e voltas e, quando estava prestes a adormecer, o seu telemóvel começou a tocar. Estranhou ao ver quem era, mas após bocejar atendeu.

- Estou?

- “Catherine. Acordei-te?”

- Não. O que é que se passa?

- “Não sei. Não conseguia dormir e… queria ouvir a tua voz”.

Catherine sorriu.

- Já é tarde, Kyle.

- “Eu sei. Só te queria agradecer e… e dizer que não és uma amiga a fingir, Catherine. És muito mais que isso. Obrigado. Amanhã é o funeral. Vais estar lá…? Para mim?”.

- Sim, vou estar lá para ti. Sempre que precisares.

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