Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Amor na Porta à Frente

por Andrusca ღ, em 02.01.13

E chegámos ao fim.

Deixem as vossas opiniões


Capítulo 33

Os Bonequinhos

 

- Donald, pára! – Gritou Evelyn, para aquele pato branco que era quase o dono da casa.

Era o dia de Natal e estavam, uma vez mais, em Billingsley. Este ano a casa dos pais de Doug estava mais preenchida, além da bebé Quinn, e do facto de a médica também se encontrar de esperanças, estava lá uma nova convidada do qual Donald não gostava muito particularmente.

- Ora, um pato dentro de casa – resmungou Christina, ao ver a filha pegar nele e mandá-lo para o corredor – onde já se viu.

Tal como a filha fizera, da primeira vez que fora àquela pequena cidade, a Tucker sénior envergava uma roupa sofisticada e uns sapatos de salto bem alto que não condiziam bem com aquela areia e lama.

Evelyn voltou a sentar-se no sofá, ao lado da mãe, e depois acariciou a barriguinha já saliente que tinha. Já estava grávida de quase cinco meses. Doug chegou da rua, a carregar lenha com o pai, e só depois de acenderem a lareira é que se sentou ao lado da, agora, mulher. Fez uma festa na sua barriga e deu-lhe também dois beijinhos, dando depois um a Evelyn.

- Como se estão eles a portar, hoje? – Quis saber.

- Estão muito irrequietos, muito mesmo. Ainda não pararam de me dar pontapés.

Lola, ao ouvir isto, saiu do outro sofá e pôs-se logo à frente da tia com os olhos a brilhar.

- Posso sentir? – Pediu, com aquele ar ao qual é impossível recusar qualquer pedido. Evelyn pegou na sua mãozinha e colocou-a estrategicamente na barriga. Quando sentiu o pontapé, Lola saltou de espanto – Que fixe! Também quero um bebé que me dê pontapés por dentro!

- Queres o quê…?! – Engasgou-se Doug, o que fez com que todos rissem – Tu queres é juízo, Lola.

Depois do jantar Christina pediu à filha que a acompanhasse até lá fora, e saíram as duas da casa. Evelyn ajeitou o casaco e cruzou os braços, com frio. Christina sorriu-lhe e aproximou-se da cerca que prendia os poucos cavalos que a família ainda possuía, soltando um suspiro.

- Estava errada sobre eles. Foi simpático terem-me convidado – admitiu, após alguns minutos de silêncio. A sua presença lá devia-se muito à teimosia e insistência de Theresa.

- Sim, pois foi – Evelyn aproximou-se também da cerca e olhou para as estrelas, pousando uma das mãos na barriga.

- Já sabem que nome lhes vão dar?

Ao lembrar-se do primeiro ano em que tinha vindo a Alabama, a médica sorriu. Enquanto fingiam ser namorados, ela e Doug tinham escolhido os nomes dos futuros filhos, num jeito de brincadeira. No final de contas, tinham ganhado um certo carinho a esses nomes.

- Maggie e Steve, em honra do pai do Doug.

- Eu gosto. Achas… achas que vou poder estar presente na vida deles… como não estive na tua? – Aquela pergunta apanhou-a completamente desprevenida, o que a fez olhar para a mãe com um ar bastante perplexo.

- Porque é que…?

- Desculpa, estava só a pensar. Sei bem os erros que cometi, mas gostava de me redimir. É incrível que este seja o primeiro Natal que passamos juntas em anos…

- Sim, bem, talvez de agora em diante seja diferente. A Maggie e o Steve vão adorar ter-te como avó, tenho a certeza. E eu acho… acho que também vou gostar de te ter por perto, vai ser bom estar ao pé de alguém que sabe o que está a fazer.

- Evelyn, que conversa é essa?

- Não sei, acho que estou assustada… feliz, mas assustada. E se não for uma boa mãe?

- Isso é impossível, querida. Essas crianças vão ser as crianças mais sortudas deste mundo, em conjunto com aquelas tuas sobrinhas. Vais fazer um óptimo trabalho.

Nesse momento Doug saiu da casa e dirigiu-se a elas, e Christina afastou-se dizendo que os ia deixar a sós. Ele abraçou a esposa e deu-lhe um beijo na testa, suave.

- Está tudo bem? – Perguntou-lhe.

- Sim, está tudo maravilhoso.

- E esses bonequinhos aí dentro, ainda estão armados em jogadores de futebol?

Evelyn soltou uma gargalhada.

- Bonequinhos? Não, agora estão muito sossegados, devem estar a descansar. Mal posso esperar por os ter cá fora, sabes? Agarrá-los nos meus braços.

- Sim, e de acordar com eles a chorar de duas em duas horas, de ter que os alimentar a todos os minutos, e de lhes trocar as fraldas sujas. Vamos ter o trabalho a dobrar, boneca.

Ela revirou os olhos.

- Espero que o Steve te faça chichi para cima – disse, por ele lhe ter, uma vez mais, chamado de boneca. Ele riu-se e beijou-a apaixonadamente,

inclinando-se depois e começando a falar para os gémeos que esperavam para nascer. Dizia coisas como “a mãe é doida, mas eu gosto muito dela” e “não se preocupem, quando saírem daí de dentro vou cuidar de vocês com a minha vida”. Perante aquela imagem enternecedora, Evelyn não conseguiu deixar de pensar em como tinha chegado àquele momento. No ódio que sentia por aquele seu vizinho e a música que a acordava todas as madrugas, das discussões trocadas, das picardias, no facto de que, se Grayson, o seu suposto príncipe encantado, não lhe tivesse pedido para darem um tempo no namoro, nunca teria tido a oportunidade de se embebedar e de fazer o erro que se revelaria na melhor coisa que podia ter feito. Lembrou-se de como se sentiu deslocada em Billingsley, um sítio ao qual agora chama “lar”, e de como aquele homem tão acriançado e gozão e teimoso lhe começou a pôr um sorriso nos lábios todos os dias desde aí.

- Eu amo-te, sabias? – Perguntou-lhe, levada pelo momento. Ele interrompeu a conversa que fazia para os filhos e levantou-se para ficar à altura dela, sorrindo.

- Não mais do que eu – garantiu – Tu, e esses pirralhos que hão-de vir, são a minha vida.

Ela sorriu e encostou a cabeça ao seu peito, sentindo o seu perfume. Queria eternizar aquele momento para sempre, mas não conseguiu. A vida continuou. Os bonecos nasceram, e choraram, e precisaram de ser alimentados e que lhes mudassem as fraldas, mas eventualmente os anos foram passando e foram também crescendo. Porque na verdade o que queremos nem sempre pode ser feito. Os planos, muitas vezes, não servem de nada. Porque procuramos e procuramos quando, no fim, o amor e a felicidade podem estar mesmo ali, na porta à frente.

 

Fim

14 comentários

Comentar post