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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 05.01.13

Chegou o segundo capítulo.

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2. A Máscara do Diabo

 

Lewis e eu começámos a falar cada vez mais frequentemente, e cada vez me surpreendia mais por nunca o ter encontrado antes. Afinal o anel do azar da minha avó, dava-me sorte, ou pelo menos assim o julgava. O tempo foi passando, e a nossa amizade levou a algo mais. Lembro-me de me apaixonar perdidamente por ele, de ter as bochechas a ferver cada vez que sentia os seus lábios juntos aos meus, de agradecer ao mundo por me ter dado a oportunidade de conhecer aquele ser tão maravilhoso e fora do real. Ele era incrível. Inteligente, bonito, falava bem. Agora que penso bem, fico completamente repugnada comigo mesmo por lhe ter permitido colocar-me nesta situação. Fico enojada cada vez que me lembro do rubor nas minhas bochechas de cada vez que me sorria.

Começámos a passar todos os minutos livres que tínhamos juntos. Ajudávamo-nos nos trabalhos, ríamos, falávamos sobre tudo e mais alguma coisa e, antes que pudesse perceber, tinha-me apaixonado irreversivelmente por ele.

- No que estás a pensar? – Perguntou-me ele, numa das tardes em que tínhamos ido para o parque, para estudar, e estávamos sentados na relva por cima de uma toalha velha.

As minhas bochechas coraram e eu desviei o olhar para o céu.

- Em nada.

- Em nada? Estás a ficar corada.

- Lewis, já disse que não é nada – ele riu-se – Pronto, talvez seja alguma coisa.

Ele agarrou-me nas mãos e olhou para mim, o que fez com que ficasse completamente presa àqueles olhos.

- Conta-me – com aquela sua maneira de falar, com aqueles olhos brilhantes e o sorriso que tanto amava, podia ter-me levado a fazer qualquer coisa. Sorri, corando ainda mais, e depois respirei fundo. O que é que tinha a perder? Nada, pensava eu.

- Estou apaixonada por ti – disse, de rajada. Nunca tinha falado de um modo tão atrapalhado e envergonhado na minha vida. Mas, também, nunca tinha estado tão apaixonada.

O que se passou depois está um pouco confuso na minha mente. São poucas as boas memórias que tenho dele e, as que tenho, tento reprimi-las ao máximo. Lembro-me de me ter forçado a olhar para si, de me ter sorrido de um modo indiscritível e de ter juntado os seus lábios aos meus. Lembro-me de me sentir como se estivesse a levantar voo, como se tudo na minha vida me tivesse conduzido àquele momento. Tive a certeza de que agora sabia que o meu futuro ia ser ao seu lado e ao seu lado apenas. Lembro-me de ter agradecido silenciosamente à minha querida Be, por me ter dado a conhecer aquele maravilhoso anel de rubi que me tinha levado ao amor da minha vida.

- Ainda bem – disse Lewis, assim que terminou com o nosso beijo, com aquele ar de chico-esperto que eu tanto amava –, porque ia detestar não ser correspondido.

Depois de soltar um sorriso com um misto de timidez e felicidade, inclinei-me para a frente e beijei-o de novo, pondo agora tudo o que sentia naquele beijo perfeito.

Mais dias no paraíso se seguiram. Íamos juntos para a universidade, lá passávamos todo o tempo juntos, estudávamos juntos, comíamos juntos. Com o tempo reparei numa faceta dele que ainda não tinha reparado: era ciumento, detestava ver algum rapaz a falar comigo, nem que fosse só para me cumprimentar com um breve “olá”. Costumava dizer “não gosto que olhem para ti, porque és só minha, e não te pretendo partilhar com ninguém. Ou és minha, ou não és de ninguém”. Sempre levei aquelas duas frases no sentido mais engraçado, na brincadeira, pois não tinha como adivinhar que ele não as podia estar a dizer do lado mais literal possível.

- Amor, podes-me ir buscar um sumo? – Estávamos ambos a estudar num café perto da universidade, num dia como os outros, quando me pediu isto. Olhei para ele, tirando por breves momentos os olhos dos livros dos exames, e franzi as sobrancelhas.

- Vai lá tu, estás à mesma distância – retorqui.

- Vai lá, Ruby.

Revirei os olhos e fui. Não me apercebi na altura, mas aquele era um dos primeiros passos para a submissão e, até àquela altura, nunca tinha sido submissa a ninguém.

Já há dois fins-de-semana que não ia visitar a minha Be, e sabia que ela não estava a achar graça nenhuma a isso, portanto, numa sexta-feira à noite, disse a Lewis que no sábado de manhã ia ter com ela e que passava todo o dia na sua casa. Ele não achou graça, mas não comentou nada.

Quando o despertador tocou levantei-me, tomei banho e vesti-me e abandonei os dormitórios. Segui no meu Volkswagen até ao meu verdadeiro lar, e estacionei-o em frente à casa onde tinha crescido. Entrei e logo o cheiro a bolo acabado de fazer invadiu-me o nariz. Procurei pela Be na cozinha e na sala, mas não a vi. Dei com ela no quarto, deitada na cama.

- Be? – Perguntei, ainda à porta. Ela voltou-se repentinamente e sorriu-me como só ela me sabe sorrir.

- Oh Ruby, não sabia que vinhas cá minha querida – disse-me, levantando-se.

- O que estavas a fazer deitada a uma hora destas? Estás doente?

- Não, ora essa, era só uma dor de cabeça, nada de preocupante. Anda, vamos para a cozinha, acabei de fazer um bolinho ainda há bocado.

Ao alcançar-me a mão, ficou pálida com o que lá viu nela. Aquele cintilante anel de rubi que tanto abominava.

- Be…

- Ruby Marie Silax, não te tinha dito para nunca pores isso? É um mau agouro.

- Ora essa, até me deu bastante sorte – ao ver o meu sorriso pateta e apaixonado, a minha avó franziu as sobrancelhas. Ainda não lhe tinha contado – Encontrei alguém. Acho que é o amor da minha vida, Be.

Esperava abraços, beijos, felicidade e congratulações. Em vez disso recebi um olhar frio e preocupado. A minha avó largou-me a mão e cambaleou até a cozinha, onde agarrou dois pires e uma faca e se deixou sentar numa cadeira, começando a cortar uma fatia do bolo de chocolate ainda quente. Ainda à espera de alguma coisa, sentei-me ao seu lado, mas apenas me deu uma fatia do bolo e esteve vários minutos a mirar a dela. Pareceu-me uma eternidade, mas não falei.

- Se o conheceste enquanto usavas essa coisa do diabo, minha querida, ele não é o amor da tua vida.

Aquelas palavras abalaram-me por completo. Como podia ela dizer aquilo, quando ainda nem sequer conhecia Lewis e não sabia o quão maravilhoso ele era? Como é que se atrevia a supor uma estupidez dessas apenas devido a um estupido anel?

- Porque é que tens que ser tão supersticiosa? Isto é um objecto, avó, não é nada além disso, não tem vontade nem poder. E o Lewis é fantástico.

- Não sou supersticiosa, sou cuidadosa.

- Não, eu sou cuidadosa. Tu és supersticiosa. “Não passes por baixo do escadote aberto, Ruby”, “não te aproximes do gato preto, Ruby”, “esse anel dá azar, Ruby”. Isso é tudo uma estupidez.

Pela primeira vez em toda a minha vida, estava chateada até aos ossos com as insinuações da minha avó. Saí da casa dela nesse sábado com a plena consciência de que, com as palavras duras trocadas entre nós durante a tarde, a nossa relação nunca mais seria a mesma. Não tinha era a consciência de que deste modo Lewis já tinha começado a interferir na minha vida de um modo irremediável.

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