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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 06.01.13

3.  A Ovelha Negra

 

- Quero que venhas conhecer a minha família.

Aquele pedido apanhou-me completamente desprevenida. Voltei-me na cama, observando-o com minúcia, e vi-o a sorrir o que, só por si, também me fez sorrir. Perguntei-me o porquê de ele me pedir aquilo, o porquê de me querer apresentar à família, mas só uma resposta me veio à mente: que gostava mesmo de mim, que o que tínhamos era sério e ele estava mesmo comprometido. E adorei essa resposta que eu própria me dei.

Enrolei mais o corpo nu no lençol e respirei fundo. E se eles não gostassem de mim, como a Be não gosta dele? Se bem que a Be é sempre contra as mudanças, tem sempre medo de tudo o que não conhece, por isso não a podia usar como referência.

- Quando?

- Hoje, ao almoço. Já avisei a minha avó.

Ele era assim. Decidia sempre tudo sem me perguntar nada porque, no fundo, sabia que não me importava. Nessa altura teria assaltado um banco, ou ido ao céu para roubar uma estrela, se ele mo pedisse. Era ingénua, e estava cega de amores.

Assenti com a cabeça e dei-lhe um beijo demorado, apesar de saber que já não faltava muito tempo para o almoço. Estava a provocá-lo, e ele até gostava.

Depois de mais algumas “brincadeiras debaixo dos cobertores” levantámo-nos e ele vestiu-se depois de tomar um duche rápido na minha casa de banho e disse que esperava por mim lá fora. Eu fiquei a tomar banho e a pensar na roupa perfeita para me apresentar à sua família. Se fossem tão perfeitos como ele, ia ficar a destoar, ia-me sobressair pelo pior. Optei por um vestido preto, muito simples, que me dava acima do joelho, e por uns sapatos com um salto pequeno. Entrancei o cabelo já depois de o teu secado, e coloquei uns brincos pequeninos. Para completar, fui até à minha mesa-de-cabeceira e peguei no meu anel de rubi, que coloquei no dedo.

Encontrei-me com Lewis no campus, e então seguimos no seu carro. A cada metro que o carro andava, sentia-me mais nervosa, e ele ria-se com isso. Pelo caminho explicou-me que morava apenas com a avó e com o irmão, mas não adiantou mais nada; também não perguntei. Ao fim de pouco mais de dez minutos estacionou em frente a uma pequena vivenda de pedra, de rés-do-chão e primeiro andar, com um ar bastante bonito e moderno. Abriu-me a porta do carro e ajudou-me a sair como se me tratasse de uma princesa. Adorava quando me fazia isto, fazia-me sentir como se fosse a pessoa mais especial e importante deste mundo.

Conduziu-me pela mão até à porta daquela casa de pedra e abriu-a, permitindo-me entrar primeiro. Arregalei os olhos e abri a boca, a casa era fantástica. À minha frente tinha a escadaria que dava para o andar de cima; estava decorada de um modo antiquado porém bastante elegante, cheio de carpetes e com a cor bordô a reinar sobre todas as outras, como se fosse um castelo da era medieval. Nunca pensei que tivesse sido neste tipo de ambiente que o meu Lewis fora criado.

- Avó! – Chamou ele.

Aos tropeções uma senhora apareceu, vinda do que depois soube ser a cozinha. Era baixinha e muito magra, com os cabelos brancos desajeitados, uma roupa escura e um avental amarelo. Lembro-me de pensar “coitada, parece que não se aguenta nas pernas”, de tão finas as ver por debaixo da saia até abaixo do joelho. Também reparei que, com o calor que fazia, envergava uma blusa de manga comprida, o que me fez alguma confusão.

- Oh… tu deves ser a Ruby – ela avançou na minha direcção e deu-me um beijo na bochecha. Vi-a trocar um olhar esquisito com o neto, e notei que não o cumprimentou – Muito prazer.

- Sim, sou. E a senhora chama-se…

- Elise, minha querida – então olhou para o cimo das escadas e respirou fundo – Joshua, vem cá para baixo! – Gritou – As visitas chegaram, vamos comer!

Poucos segundos depois apareceu um rapazito no cimo das escadas. Soube depois que tinha quinze anos. Envergava a típica roupa dos jovens, umas calças de ganga e uma t-shirt. Tinha um cabelo loiro como o do irmão, e pude ver quando chegou ao pé de mim que os olhos eram também claros. Porém algo me despertou a atenção: não sorria como Lewis sempre fazia. Desceu as escadas e passou por mim sem tampouco me dirigir o olhar, e isso fez com que Lewis, ao meu lado, ficasse tenso.

À medida que nos sentávamos na mesa e começávamos a comer, comecei a sentir um certo desconforto naquela casa. Elise dava o seu melhor para me fazer sentir bem-vinda, porém não conseguia deixar de achar que algo ali estava errado. Ao agarrar no garfo passei com os meus olhos pelo anel no meu dedo, e não pude evitar sorrir. “Estou a ficar como a Be”, pensei.

- Então Ruby, também estás quase a terminar o curso? – Perguntou Elise, a meio da refeição.

- Sim, faltam já poucos dias para os exames.

- E depois, que pretendes fazer?

Joshua soltou um certo riso que na altura me pareceu arrogante, e então pela primeira vez olhou directamente para mim.

- Ir para bem longe, espero eu – não pude deixar de ficar em choque com aquele seu comentário. Lewis olhou-o com a mesma perplexidade que eu, e Elise fechou os olhos como se soubesse que uma tempestade se avizinhava.

- O quê…? – Perguntei-lhe. E então reparei num pequeno hematoma perto do meu olho. E outro no seu braço. A única explicação que arranjei foi o facto de que ele, mal-educado e arrogante como era, entrava em conflito com os colegas. Mesmo assim não resisti a perguntar – Porque é que estás magoado, Joshua?

Ele olhou-me arduamente. Posso jurar que naquele olhar percebi que, se me pudesse fuzilar, já o teria feito.

- Brincadeiras com os amiguinhos estúpidos – foi Lewis quem me falou.

- Não és bem-vinda a esta casa, ainda não percebeste?! – Ao mesmo tempo que gritou isto, Joshua levantou-se e a cadeira caiu para trás. Lewis cerrou os punhos ao mesmo tempo que o irmão lhe deitava um olhar… desafiante? – Esta também é a minha casa, e não te quero aqui. Nem a ti nem às outras putinhas que o meu irmão pode querer trazer para cá, percebeste?!

Não tive qualquer reacção. Fiquei simplesmente a olhar para ele, simplesmente em choque, simplesmente atónica.

- Joshua vai para o teu quarto! – Mandou Lewis, ao que ele sorriu de um modo provocante antes de sair da cozinha. Ele suspirou e olhou para mim – Peço desculpa por ele. O Joshua é a ovelha negra da família, Ruby, se fosse a ti não me preocupava muito com o que ele diz.

Por algum motivo, ao observar a feição da avó deles, fiquei com a ideia de que a relação dos dois não era um mar de rosas.

No fim da refeição elogiei os cozinhados de Elise e depois fomos embora. Não pude deixar de ficar a pensar em como, apesar de ter sido sempre simpática para mim, não me disse que me esperava voltar a ver lá como seria de esperar. Será que partilhava a opinião do neto mais novo?


Então que tal?

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