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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 09.01.13

4.  Tentativas Falhadas

 

Nos poucos dias que se seguiram, comecei a frequentar a casa de Lewis mais vezes. A sua avó, Elise, foi sempre muito acolhedora, e estava sempre a presentear-me com bolos e biscoitos e tudo e mais alguma coisa. Notava-se que era uma pessoa simples e acessível, apesar do seu sorriso triste que apenas pude ligar ao facto de o marido ter falecido há pouco menos de dois anos. Era Joshua que me preocupava. Apesar de Lewis me dizer para não lhe ligar, não tinha uma boa impressão dele. Cheguei a tentar aproximar-me dele, a tentar melhorar o ambiente entre nós de modo a tornar a nossa convivência mais fácil, fazia daquela conversa fiada, perguntava-lhe pelo dia, mas as respostas que obtinha eram sempre recheadas de asneiras e insultos. Ele fazia de propósito para me provocar, queria-me fora dali, explicitava-o bem o suficiente. Era como se pertencesse a outra realidade, e eu nunca o fosse conseguir alcançar. Agia como se fosse rei do mundo, a desafiar tudo e todos, a falar mal para o irmão. E depois andava sempre com aquela cara de revoltado, e sempre com sinais de luta no corpo. Cheguei a perguntar a Elise se na escola ainda não tinham feito queixa dele por causa das brigas, mas ela não me disse nada. Pareceu até incomodada quando falei dos hematomas, mas então Lewis chegou de novo ao pé de nós e a conversa seguiu por um rumo completamente oposto. De todas as vezes que lá ia, Joshua tratava-me mal. Chamava-me nomes, insultava-me da pior maneira possível. Acabei por me fartar de tentar ser sua amiga e de o tentar compreender. Ao fim de algumas vezes a ser rebaixada, comecei a retorquir também. Não era aquele pirralho de quinze anos que me ia fazer sentir inferior. Desenvolvemos uma relação de puro ódio, e assim que o via a entrar pela porta ficava cheia de nervos e raiva. Sei agora que as suas intenções eram boas, e que em vez de o recriminar lhe devia ter agradecido. Só posso calcular a quantidade de bordoada que levou apenas por me tentar manter afastada.

- Mas já estou farta, Lewis – queixei-me, numa das tardes em que estávamos sozinhos no meu dormitório.

Lewis suspirou e abraçou-me por trás, pousando o queixo no meu ombro.

- Eu sei, amor. Não posso fazer nada, ele é assim desde sempre. Mas não lhe ligues, é o melhor.

“Não lhe ligues”, falar era fácil. Se antes não gostava do facto de a minha Be não aprovar a nossa relação, agora com Joshua a dificultar tudo ainda me sentia pior. Era como se toda a gente ao meu redor estivesse a tentar desesperadamente acabar com o paraíso em que vivia.

Voltei-me para ele e sorri-lhe o melhor que consegui.

- Hoje vou sair com as meninas, à tarde – informei. Já há algum tempo que não saía só com as minhas amigas. Ele franziu o nariz, não tinha gostado muito da ideia.

- Não, ficas comigo – exigiu, num tom de brincadeira. Ri-me e abanei a cabeça, mas ele não aceitou um “não” como resposta. Tinha maneiras de me fazer mudar de ideias, sabia bem os seus trunfos e sabia usá-los. Começou a descer as mãos até às minhas coxas e a dar-me beijinhos suaves no pescoço até quase me levar à loucura e até me fazer aceitar cancelar tudo com elas. Afinal, como é que podia trocar uma tarde sozinha com ele, com aquele Deus na terra, por uma voltinha com as amigas?

Os exames passaram, e logo chegou a ansiedade de saber as notas. Eu andava completamente paranoica. Dizia que ia chumbar, que não ia conseguir completar o curso, que ia ser uma falhada toda a minha vida. Foram uns dias horríveis. Mas então os resultados chegaram e passei com distinção. Tinha conseguido completar o meu curso, tal como Lewis tinha acabado o seu. A minha felicidade foi apenas aumentada por uma pergunta sua, que me apanhou completamente desprevenida.

- Queres vir morar comigo? – Perguntou, numa tarde no parque. Ao princípio olhei para ele de sobrancelha arqueada. Pensei que estava a gozar comigo, a dizer alguma piada, mas a sua expressão séria não mudou.

- Estás a falar a sério? – Acabei por perguntar.

Ele assentiu com a cabeça.

- A casa da minha avó é enorme, dá para irmos para lá. Além disso é no centro da cidade, perto de tudo. Onde estás agora, estás quase noutro mundo.

Assim que acabara o curso regressara à casa da Be, à minha casa, à espera que alguma proposta de trabalho me chegasse. Mas sabia que Lewis tinha razão, tinha maiores probabilidades de arranjar emprego se estivesse no centro da cidade. Lewis já tinha arranjado, começaria dentro de alguns dias.

- E ela não se importa? – Perguntei, ainda a assimilar essa proposta.

Um sorriso diferente do habitual apareceu-lhe no rosto, e não consegui decifrar o que lhe ia no pensamento. Hoje em dia imagino que fosse algo como “ela não tem escolha”, mas na altura não fazia qualquer ideia da mente distorcida que tinha à minha frente.

- Claro que não. E se estás preocupada com o Joshua, garanto-te que não nos vai dar problemas.

Ponderei por alguns momentos. Não era apenas Joshua que me preocupava, sabia que a minha Be também não ia ser fã dessa ideia. Mas tratava-se do meu futuro, e viver com Lewis, construir uma vida com ele, era algo que sempre quisera desde que apanhara o meu anel do chão.

- Está bem – quando disse aquilo posso jurar que vi os olhos dele a iluminarem-se. Levantou-se da relva, levantou-me também e começou a rodar comigo.

- Amo-te – proferiu, fazendo-me sorrir como sempre sorria cada vez que me dizia isto.

- Também te amo.

Afinal todas as tentativas de Joshua em manter-me afastada daquela casa “embruxada” tinham falhado, e ao aceitar aquela proposta estava um passo mais perto do meu triste destino.


E então, como é que acham que isto vai correr? :b

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