Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 14.01.13

6.  Descobertas Desgostosas

 

Abri os olhos sobressaltada, naquele quarto que no fundo não era o meu. Tinha acordado com um barulho de vidro a partir-se, e isso tinha posto o meu coração a palpitar mais depressa que o normal. Levantei-me da cama, vesti o meu roupão e corri pelas escadas até à cozinha. Elise estava no chão, a apanhar os cacos do que outrora fora um prato, com um ar aterrorizado e completamente desolado, e Lewis à sua frente. Ainda ensonada, andei até eles e bocejei.

- O que aconteceu? – Perguntei, enquanto os observava.

- Eu… o prato escapou-me – disse Elise, forçando-se a sorrir-me. Trocou então um olhar com Lewis, que finalmente se voltou para mim e encolheu os ombros.

- Desculpa se o barulho te acordou, a minha avó tem umas mãos de manteiga – ele disse aquilo na brincadeira, mas bem dentro de mim suspeitei que não me estivesse a contar tudo. De qualquer maneira, estava com demasiado sono para me pôr com perguntas de detective – Vais voltar para a cama? Ainda são oito e pouco.

“Oito e pouco…”, perguntei-me o que ele estaria a fazer já a pé. Elise percebe-se, os idosos dormem sempre menos que nós e tendem a levantar-se ao mesmo tempo que o sol nasce, agora Lewis era um pouco estranho.

- Não… agora já estou acord…

Nesse momento outra voz interrompeu-me.

- O que é que fizeste?! – Joshua estava por trás do irmão, com um ar furioso, como se estivesse prestes a matar alguém. Lewis deitou-lhe um olhar frio e saiu da cozinha sem proferir mais nenhuma palavra.

Joshua, ainda a tremer de raiva, baixou-se e ajudou a avó a colher os cacos, tal como eu também fiz a seguir. Já depois de deitarmos o prato destruído para o lixo, Elise sorriu-me docilmente.

- Então, já não vais dormir não é? Queres que te faça um pequeno-almoço para te dar força?

Sorri-lhe e disse-lhe que o podia fazer sozinha, até para começar a interiorizar o sítio onde as coisas estavam guardadas. Enquanto misturava o chocolate no leite e controlava o pão que torrava na torradeira, senti umas súbitas saudades do bolo que a minha Be tinha sempre pronto quando eu acordava, e do chá que ela fazia, apesar de apenas estar aqui há pouco mais de uma semana.

Sentei-me à mesa a comer e Elise sentou-se a fazer-me companhia, enquanto Joshua se refugiou no sofá e ligou a televisão. Aparentemente nesta casa eram todos bastante madrugadores e, no entanto, todos eles aparentavam estar a morrer de sono. Era como se temessem dormir, como se algo de terrível pudesse acontecer enquanto o faziam.

- Ele não é tão mau como julgas – murmurou Elise, num tom baixo. Franzi as sobrancelhas.

- Quem? O Joshua?

- Sim. É até um miúdo bastante querido e prestável. Sei que não parece, mas ele… ele é o melhor que tenho nesta vida.

Não compreendi aquela afirmação perante os factos que tinha à minha frente. Como é que ela podia dizer que o mal-educado e bruto e arrogante do Joshua era melhor que o meu príncipe encantado?

- Pois…

Quando acabei de comer pus a loiça na máquina e, para tentar agradar a Elise, que afinal me tinha aberto a sua casa, fui-me sentar no sofá ao pé daquele pirralho irritante. Por momentos nenhum de nós disse nada, apesar de eu o sentir a olhar-me de lado. E então, quando a série televisiva que ele estava a ver entrou no intervalo, vi a minha oportunidade de lhe perguntar algo que nunca tinha perguntado a Lewis.

- Joshua, porque é que vivem com a vossa avó? O que aconteceu aos vossos pais?

- A minha mãe abandonou-nos, e o meu pai era um bêbedo e um drogado, tal como o teu namorado – disse, sem tirar os olhos da televisão como se estivesse muito interessado no reclame das toalhitas da maquilhagem – Felizmente morreu, o mesmo não se pode dizer desse aí.

Engoli em seco. O miúdo era maluco, definitivamente. Como é que alguém podia dizer que o facto de o pai ter morrido era bom, e que mau era que não tivesse acontecido o mesmo ao irmão?

Como não tinha nada para fazer, esperei que a manhã chegasse a uma hora aceitável e telefonei a todas as minhas amigas para saber se alguma queria ir dar uma volta. Mas todas elas tinham algo para fazer, algumas das desculpas que me davam nem sequer faziam sentido, e então percebi que tinham era falta de vontade. Também percebo, depois de tanto tempo a cancelar tudo com elas para estar com Lewis, consigo entender que se tenham afastado. Optei então por esperar mais algumas horas e então, à tarde, ir distribuir alguns currículos. Afinal, um trabalho não me ia cair do céu apenas porque me tinha mudado para o centro da cidade.

Lewis não foi fã da ideia, mas depois do almoço saí e comecei às voltas por vários sítios a espalhar simpatia e a deixar o meu currículo na esperança de que, com sorte, alguma empresa ou organização gostasse de mim. Lewis já ia começar a trabalhar amanhã, eu não queria ficar sem fazer nada.

Passei pelo supermercado e comprei algumas coisas que vi que já estavam a faltar lá em casa, como leite, batatas, e mais algumas coisas. Acabei por regressar carregada com dois sacos de plástico, porque na verdade nunca compramos apenas o que é preciso. Pousei-os no chão para tirar as chaves, que o meu namorado já me tinha dado, e um deles tombou-se, fazendo com que a lata de salsichas começasse a rolar pelo chão até embater na parede onde ficava a grande janela que dava para a sala. Fui atrás dela e baixei-me para a apanhar, levantando-me de frente para a janela. E então, sem ter qualquer controlo sobre o que fiz, deixei-a cair de novo no chão quando o meu olhar ficou preso ao que se passava dentro da casa. A janela era da sala, porém a única coisa que dividia a sala da cozinha era um enorme arco de madeira, por isso dava também para se ter uma óptima visão da cozinha. Só que o que se estendia à minha frente era tudo menos óptima. Não ouvia nada, mas via claramente que Joshua estava numa ardente discussão com Lewis, que tinha o cinto das calças na mão, e que Elise estava no chão ligeiramente escondida atrás do neto mais novo. Abri a boca de horror ao ver o meu namorado levantar a mão e dar uma chicotada com o cinto em Joshua, seguindo-se de um murro na barriga, e de o ver cair ao pé da avó.

Naquele momento o meu cérebro congelou ao mesmo tempo que os meus olhos se encheram de lágrimas, e tudo o que consegui fazer foi sair de frente da janela e encostar-me à parede, ainda estupefacta. Lembrei-me das nódoas negras, dos hematomas que Joshua sempre exibia no corpo, e a conexão que a minha mente fez com isso e com a cena a que acabara de assistir não me agradou nada, pois a única explicação era aquela em que eu teimava em não querer acreditar.

 

 

Deixem opiniões (:

6 comentários

Comentar post