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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 31.01.13

10.  A Queda

 

Era dos fins-de-semana que menos gostava. Quarenta e oito horas seguidas sob a constante observação de Lewis. E o que me metia mais raiva era que, depois dos seus constantes ataques de nervos, se vinha juntar a mim e agia como se nada tivesse acontecido. Abraçava e beijava-me e perguntava se estava tudo bem, dizia que me amava e agia como se eu tivesse imaginado todos os açoites na minha mente. A única explicação que conseguia arranjar era que ele era doente, que não era bom da cabeça, pois recusava-me a acreditar que fosse simplesmente maldoso.

Acordei neste sábado a pensar que não passaria de mais um dia de tortura, mas estava completamente errada. Iria ser muito pior que isso. Se antes achava que vivia um pesadelo, então a tarde de hoje seria destrutiva, estrondosa, horrorosa. Um passe directo para o Inferno.

- Então amor, a ver um filme? – Lewis chegou ao sofá e sentou-se ao meu lado, colocando um braço estrategicamente por cima dos meus ombros. Logo em resposta a isso, desviei-me e coloquei-me confortavelmente na outra ponta do sofá, recebendo um olhar ameaçador ao qual não dei muita importância. Dei por mim a pensar em Tyler, aquele recém psicólogo com quem falava ultimamente pelo telefone, e sorri involuntariamente, tomando logo depressa controlo desse sorriso antes que Lewis notasse. Ouvi um estrondo no andar de cima e olhei alarmada para ele, já sabia o que ia acontecer. Vi-o levantar-se do sofá e andar de um modo assustador e intimidante, e corri com as pernas a tremer atrás dele. Fiquei no fundo das escadas e vi-o a subi-las. Logo no cimo encontrava-se Elise, com o que me parecia ser aquela hedionda jarra azul escura desfeita em pedaços. Na sua mão estava um pano do pó e, na sua cara, o puro choque. Joshua saiu do quarto e aproximou-se da avó, também alertado pelo barulho.

- O que é que fizeste?! – Questionou Lewis, com uma voz tão grave que me fez um nó na garganta.

- Estava a limpar o pó… a jarra escorregou-me das mãos… Vou já limpar, vou já limpar – balbuciou a pobre Elise, passando por ele para descer para vir buscar a vassoura e a pá. Mas ele agarrou-lhe fortemente no braço e voltou-a para si, deixando-a de costas para mim. Notava-se que a estava a magoar, pois eu podia ver perfeitamente a força que exercia no seu pulso, mas Elise não se queixava.

- Achas isso bem?! – Gritou-lhe. Joshua deu um passo em frente, mas a avó deve-lhe ter feito um sinal qualquer para se manter quieto – Já viste a confusão que arranjaste?! O que é que merecias agora? Ficar aos pedaços como aquela jarra?! Responde-me!

- Des… desculpa… arranjo outra, compro outra já amanhã.

Ele soltou-lhe o pulso bruscamente e deu-lhe um safanão, o que a fez desequilibrar-se e cair para trás. Sei que foi um acidente, ou pelo menos pareceu um acidente, pois o resto foi tudo demasiado rápido. Lembro-me de ver o seu corpo a cair, a rebolar, pelas escadas até chegar aos meus pés bastante maltratado. Lembro-me de a ver a bater com a cabeça no corrimão antes de cair dos degraus, e de gritar o seu nome com todo o ar que tinha nos pulmões. Lembro-me de ver Joshua abrir caminho e correr pelas escadas até chegar também junto a nós, agora já comigo de joelhos no chão a abanar Elise freneticamente. Lewis permaneceu ali, quieto, no cimo das escadas, com um ar de choque disfarçado pela espessa camada de insensibilidade que possuía, sem fazer nada.

- Chama uma ambulância, Joshua! Vai! – Gritava eu, em pânico. Ele foi.

Continuei agarrada a Elise, que exibia agora várias pancadas no rosto e certamente também no corpo, com um lábio rebentado e um olho a ficar completamente roxo. Da nuca deitava sangue. Notava-se que estava prestes a perder os sentidos, e fez um esforço enorme para levantar uma mão para que eu a agarrasse. Deixei que as lágrimas me escorregassem pelas bochechas e lembro-me da revolta que senti dentro de mim ao olhar naqueles olhos tão bondosos e sofredores e perceber que cedo demais se fechariam para sempre. Detive-me no seu cruxifico, posto no seu fio, e recordo-me de ficar enjoada, enervada, completamente repugnada com o Deus a quem ela tanto costumava rezar e pedir ajuda e força e protecção. “Do que é que esse te serviu? Hum? Do quê Elise?!”, lembro-me de pensar enquanto chorava como uma menina pequena, “não te impediu de carregares a tua cruz”.

- O que é que eu faço? – Sussurrei, com a garganta dorida e os olhos embaciados das lágrimas, enquanto os soluços se forçavam por permanecer.

- Cuida… dele.

- Prometo.

E então os seus olhos perderam o brilho e a sua mão deixou de fazer pressão na minha. Elise morreu com a promessa de que eu cuidaria dele. De que eu nunca deixaria Joshua, de que o protegeria. Quando ele saiu da entrada da casa e se aproximou de nós, já com o som da ambulância a ecoar pela rua, ficou estagnado perto de nós.

- Ela…?

- Sim – confirmei.

Joshua olhou para o irmão com uma raiva no olhar que nunca mais vi igual.

- Tu fizeste isto – acusou – Tu mataste-a!

E só então, após todos estes minutos angustiantes e intermináveis, é que Lewis pareceu perceber o que se tinha passado. Desceu as escadas e agarrou o irmão pela gola da blusa.

- Ninguém diz uma palavra! Ou os próximos são vocês. – Disse, intimidante. Nesse momento os paramédicos entraram, e ele largou-o. Perguntaram-nos o que se tinha passado e, como ordenado, nenhum de nós disse nada. Quem é que ia acreditar em nós? Os loucos que não param de chorar e soluçar durante o tempo que é requerido para formarem uma frase coesa? Aqueles que estão tão perturbados com o luto, que nem sequer pensar direito conseguem? Ninguém. Para o resto do mundo Elise tinha tropeçado e caído das escadas.

Os paramédicos ainda a tentaram reavivar, mas eu sabia que era demasiado tarde. Declararam a hora de óbito às quatro e quarenta e três da tarde. Olhei para Lewis enquanto era declarada, queria ver a sua reacção, e não obtive nada. Estava nu de sentimentos. “Vivo com um assassino”, dei por mim a pensar.

 

E então? Prontas para darem cabo de mim, ou nem por isso?

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