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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 03.02.13

11.  Um Anjo no Céu

 

Ao contrário do que esperava, o dia não estava nem chuvoso, nem ventoso, nem triste de alguma maneira. Um sol brilhante fazia-se notar num céu sem nuvens, embora o clima não estivesse muito quente.

Surpreendi-me com a falta de pessoas que havia em torno daquele caixão negro onde Elise repousava. Além de mim, de Joshua e de Lewis, estavam presentes a senhora da mercearia, o senhor do café, o carteiro e uma vizinha. Era de chocar a limitada quantidade de pessoas a quem Elise tinha tido a oportunidade de tocar em vida, e o que metia mais pena era que, com a sua maneira de ser, as suas capacidades, a sua bondade, tenho a certeza de que podia ter tocado na de muitos mais. Acho que, com um neto daqueles, também não devia ser de espantar que não tivesse muitos amigos, mas infelizmente fui apanhada de surpresa num funeral que tão pouca gente tem. E de quem me acompanhava neste momento, apenas eu e Joshua parecíamos inconsoláveis, apesar de eu saber que não tinha esse direito. Ele tinha perdido uma avó, eu tinha perdido uma pessoa que ainda pouco conhecia, logo as nossas dores não eram exactamente equiparáveis.

O padre disse as suas rezas, Lewis falou meia dúzia de palavras secas sobre a avó de ouro que teve – pois nunca nos deixaria falar, sabendo que poderíamos dizer alguma coisa que não quisesse que se soubesse – e, assim, desapareceu uma das melhores pessoas que alguma vez conheci. Isto era revoltante. Toda esta situação. Era a prova de que o mundo de justo nada tem, que o bem não triunfa, o bom não vence o mau. A prova de que nunca podemos ganhar se “jogarmos” nesta vida seguindo as regras, comportando-nos, porque haverá sempre alguém pronto para nos tirar o tapete de debaixo dos pés, para nos mandar abaixo, para nos assassinar a sangue frio. “Simplesmente não é justo”, amaldiçoei dentro de mim.

- Ao menos estás num sítio melhor, Elise – murmurei, para o caixão, quando já todos se tinham afastado e o coveiro o começava a cobrir de terra – Ao menos… estás longe dele. Mas não te preocupes, vou cuidar do Joshua, prometo-te.

Dirigi-me então ao carro e entrei, sem proferir mais nenhuma palavra. Já todos os outros tinham ido embora, e sabia como ele devia estar a ficar impaciente pela espera enquanto eu me despedia.

Lewis conduziu-nos até casa, e Joshua dirigiu-se logo para o seu quarto, fechando-se no seu mundo sem nos dizer nada. Eu arrastei os pés cansados para a cozinha porque o meu suposto namorado queixava-se de fome e tinha que o saciar. Seria esta a minha vida a partir de agora? Viver como se fosse uma escrava, sempre à espera que a próxima tareia viesse? Em constante medo, em constante sobressalto? “Pelo Joshua”, obriguei-me a pensar, “pelo Joshua tenho que aguentar. Ele já não tem mais ninguém”.

- Demoras muito? – Saltei ao ouvir aquela voz, e apressei-me a levar a sandes de carne e a cerveja até ao sofá, onde ele repousava. Ao passar-lhe aquilo para as mãos, reparei que já não era o rapaz que outrora tinha conhecido. O seu aspecto de Deus terreno estava agora vulgar, bruto, com a barba por fazer e o cabelo pouco cuidado, com os cigarros na mão e o álcool no sangue. Sem estar completamente apaixonada por ele, sem estar radiante por estar ao seu lado, fora daquela universidade e daqueles tempos de ingenuidade e simplicidade, vi nele um homem grotesco e que me metia repulsa. Um homem com absolutamente nada a oferecer, nada desejável, completamente fora do querer de qualquer mulher sã de cabeça.

- Vou tomar um duche – disse-lhe, dirigindo-me depois para o andar de cima, não sem antes passar pela cozinha e pegar noutra sandes e num copo de sumo.

Bati à porta do quarto de Joshua e abri-a, vendo-o deitado na cama abraçado a uma almofada, com as bochechas rosadas e os olhos vermelhos. Parecia um menino indefeso.

Fechei a porta e, antes de me sentar na cama com ele, pousei as coisas em cima da secretária. Por longos minutos permanecemos em silêncio. Ele respirava pesadamente; eu mergulhava em pensamentos; ele contorcia-se e agarrava mais a almofada; eu revivia os últimos momentos de Elise.

- Não é justo – acabou ele por falar, forçando-me a concentrar-me agora na realidade.

- Eu sei – garanti.

- Ele é que devia ter morrido.

Engoli em seco.

- Eu sei. Posso? – Ele assentiu e chegou-se para um lado da cama, permitindo-me a mim deitar-me. Observei-o bem, soltando um longo e profundo suspiro – Não vou deixar que te aconteça o mesmo, Joshua, podes ter a certeza disso.

- Por favor não me abandones.

E, naquele momento, todas as suas máscaras caíram. Aquele seu ar de rapaz duro, sem sentimentos, sem medos, sem nada, foi tudo substituído pela expressão de um miúdo assustado que me abraçou a chorar.

 

Está pequenino, mas não consegui fazer maior...

Acho que quando virem o próximo capítulo se organizam e me esganam...

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