Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 09.02.13

13.  Alguém a Olhar por Mim

 

O telefone tocava freneticamente. Eu estava no banho, com a água quente a queimar-me as feridas recentes, mas não estava mais ninguém em casa. Nem nos meus momentos de solidão, de quase paz, conseguia estar minimamente descansada. Havia sempre algo para me perturbar.

Saí da banheira e enrolei o corpo na toalha, desci as escadas a correr e atendi no último momento.

- Estou? – Disse.

- “É a Sra. Silax?” – Perguntou-me uma voz desconhecida, que me colocou logo desconfiada. Quem seria e como sabia o meu nome? A primeira coisa que me ocorreu foi que Lewis tivesse feito asneira no trabalho, ou que tivesse sido apanhado com droga e agora o tivesse que ir buscar à cadeia ou algo parecido. Pela voz da pessoa, o assunto não parecia ser para brincadeiras.

- Sim… quem fala?

- “Daqui é do Hospital Central…” – o que me disseram a seguir está enublado na minha memória. Afinal, não nos podemos recordar de tudo, não é? Sei que a senhora me disse que já tinham telefonado há coisa de uma semana, a informar que a minha avó tinha sido internada nessa altura devido ao seu estado grave. Perguntei-lhe que estado era esse, e lembro-me de, com um modo chocado, me ter perguntado “mas o seu namorado não lhe disse?”. Logo aí percebi que a notícia não era boa, e as lágrimas vieram-me aos olhos. “O que é que tem a minha Be? Quer dizer… a minha avó?”, perguntei em seguida. Fez-se silêncio, o que confirmou as minhas suspeitas de que o caso era grave. Ia começar a gritar com ela quando me respondeu: “um tumor no cérebro”. O meu mundo caiu-me aos pés. Nunca me senti tão desamparada como naquele momento, tão sem rumo, sem apoio, sem nada. Informou-me de que já tinha feito vários testes, tinha sido operada duas vezes, mas nem o melhor neurocirurgião do mundo a ia conseguir salvar. Falou-me que a mandaram para casa, mas que ela, há uma semana, regressara ao hospital e exigira uma nova cirurgia. Sorri interiormente, a minha Be sempre fora teimosa e queria continuar a viver. A última coisa que me disse naquele telefonema nunca me esquecerei: “infelizmente a cirurgia não correu como o planeado, e temo que o pior vá mesmo acontecer. Se a quer ver ainda com vida aconselho que venha já para o hospital”.

Nem pensei em mais nada. Vesti-me, deixei um papel escrito a Joshua para quando chegasse a casa e enfiei-me num táxi, exigindo ao taxista que conduzisse o mais rápido possível. Enquanto ia pensando em todos os momentos que tinha passado com a minha Be, em como não lhe tinha dado ouvidos, ia amaldiçoando o destino por me ter pregado uma destas. Porque é que ela não me tinha dito que estava doente? Que estava em perigo de vida? Também não a podia culpar, tinha deixado de ser sua neta, de ser sua família, no dia em que troquei a sua casa pela de Lewis. Mesmo sabendo que a magoava continuei em frente com a mudança. Como me arrependo hoje.

- Mais rápido – ia ordenando.

Quando chegámos ao hospital ele estacionou e eu paguei, correndo depois até à recepção onde estavam duas enfermeiras e um médico de conversa. Fui direcionada até outro corredor onde estava mais um balcão de atendimento e engoli em seco, não conhecia nada dali. Olhei em volta e vi que tudo naquele espaço eram quartos de pacientes, os quartos da pós-operação. Quando ouvi o bip frenético de uma máquina e vi médicos e enfermeiros a entrarem numa sala o meu coração quase me saltou do peito. Nunca na vida tive tanto medo como naquele momento pois, no fundo, sentia que aquele bip era um mau presságio para a minha Be.

Enquanto eles usavam as pás para tentar que o coração da paciente voltasse a bater, eu tentei espreitar, mas foi em vão. Agora também não tinha ninguém que me informasse para onde devia ir e então, uns vinte minutos depois, a equipa médica desistiu e o médico responsável declarou a hora do óbito. Só quando todos se desviaram é que a pude ver, e os meus olhos encheram-se de lágrimas.

- Be! – Gritei, com a garganta a doer do choro suprimido. Aos solavancos abri caminho entre alguns enfermeiros e deixei-me cair em cima da cama, parcialmente em cima da minha avó, enquanto a abraçava e chorava e a apertava cada vez mais – Acorda Be, acorda! Não me deixes aqui… avó… por favor. Desculpa… lamento tanto… preciso tanto de ti, por favor não me abandones, por favor não me deixes… abre esses olhos Beatrice Ruby Silax… avó…

À minha volta começou a haver algum aparato. Alguns enfermeiros queriam que a largasse, tentavam afastar-me, mas eventualmente perceberam que qualquer esforço para me tirar dali era escusado. Acabaram por desistir e por sair do quarto, deixando-me completamente despedaçada num sítio já sem qualquer outro tipo de vida.

Não sei quanto tempo passou, apenas que já era noite quando uma enfermeira voltou a entrar no quarto. Eu ainda me encontrava no mesmo sítio, agarrada à minha Be como nunca devia ter deixado de ficar, com os olhos brilhantes do choro e as bochechas rosadas.

- Venha lá – pediu ela, com uma voz humilde, estendendo-me apenas a mão – Deve estar esgotada e esfomeada, deixe-me arranjar-lhe qualquer coisa para comer.

Assenti e levantei-me porém, antes de sair, dei o último beijo na bochecha à minha Be que alguma vez daria e cobri-lhe o rosto com o lençol.

De uma máquina de vendas automáticas a enfermeira arranjou-me uma sandes com carne e alface e um sumo de frutos. Acabámos por nos sentar as duas nas cadeiras da sala de espera.

- Lamento – disse ela – É a Ruby, não é? Tem o nome dela…

Sorri ao pensar naquilo. Sim, sou Ruby graças ao segundo nome da minha avó, e Marie graças ao da minha mãe.

- Ela sofreu?

- Não. Provavelmente nem sentiu – assenti e engoli em seco – Ela falava de si… dizia que estavam distantes uma da outra. Mas que a adorava na mesma. Disso tem que saber.

- E eu também a adoro… adorava.

E, de novo, as lágrimas começaram a escorrer-me pelas bochechas.

Quando cheguei a casa Lewis apareceu-me logo à frente. Parecia-me implacável, mas naquele momento não me metia qualquer tipo de receio.

- Onde foste? – Questionou, duramente.

- Porque não me disseste que a minha Be estava no hospital? – Ele não respondeu – Ela está morta! Ela morreu sozinha! – Enquanto gritava e chorava e esperneava apercebi-me pela primeira vez do quanto o odiava verdadeiramente. Nunca o olhei com tanta raiva como ali, e não consegui controlar a boca antes de falar – Morreu a achar que a odiava, que não gostava dela! Porque não me deixaste ir vê-la! Porque me mantiveste longe dela! Porque és um monstro, e eu odeio-te! Eu odeio-te…

Aí a sua expressão ainda se tornou pior, como se tal fosse possível. Chegou-se ao pé de mim e deu-me um empurrão que me fez cair junto à porta.

- Ai odeias-me, hum? Então odeia-me mais! Odeia-me mais! – Gritava, enquanto me pontapeava.

- Pára! – Gritou Joshua, do cimo das escadas. Ele olhou para o irmão, depois para mim, e então desviou-me da porta e saiu batendo com ela. Joshua correu até mim e ajudou-me a levantar, auxiliando-me no caminho até ao meu quarto para que pudesse tratar de mim.

Em cima da cama retirei a blusa e deixei-o passar-me uma pomada pelas costas, pois certamente ficaria com umas nódoas negras. E então, quando me perguntou porque tinha ido ao hospital, não fui forte o suficiente e quebrei, perante a sua incredibilidade, recomeçando a dança do choro e dos soluços.

 

A história já está acabada, só vai ter mais 3 capítulos.

Que acharam deste?

5 comentários

Comentar post