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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 10.02.13

Acho que vão gostar deste, não sei porquê... (a)


14.  A Voz ao Telemóvel

 

Joshua tinha ido para a escola como habitualmente, e Lewis para o seu trabalho. Como o meu “carrasco” me permitia uma ida ao parque, para dar as corridas que antigamente tanto gostava de dar, nos tempos em que o corpo não me doía todo, decidi aproveitar o bom tempo e ir mesmo até lá. Vesti o fato-de-treino e, embora não corresse, caminhei durante vários minutos. Ao chegar a casa telefonei para o centro de ajuda e falei com Tyler, como já era também rotina. Ele mostrava-se preocupado comigo, fazia-me sentir protegida, embora isso não passasse de um simples engano, de um simples desejo. Comecei a fazer isso todos os dias: parque, Tyler, parque, Tyler. Contava-lhe tudo, o que fazia, quando fazia, como fazia, e ele interessava-se. Era a única altura do dia em que podia conversar com alguém com temas variados pois, quando estava farta de falar do drama que a minha vida era, ele falava-me da dele. Contava-me coisas das suas irmãs, da sua rotina, do seu trabalho. Mais tarde disse-me que desde o primeiro telefonema que lhe fiz que ficou genuinamente preocupado comigo e com um enorme desejo de me ajudar. Disse que havia algo na minha voz que o tinha atraído.

Levantei-me da cama e olhei pela janela. Sol, perfeito. Ainda não sabia, mas hoje seria o dia que definiria todo o meu futuro. Mudei de roupa e saí para o parque. Parei na mercearia, para comprar uma garrafa de água, e a senhora de lá logo tratou de começar a meter conversa.

- Então e o menino Joshua, como se está a aguentar? – Referia-se ao facto de Elise já ter partido há quase três meses.

- Está a ir, é complicado.

- Pois é, é mesmo. E o Lewis, como está? Agora raramente o vejo.

Odiava quando me perguntavam sobre ele. “Como está? Bruto e insensível como sempre! É a pessoa horrível que sempre foi, um mentiroso manipulador sem remorsos nem coração! Deve estar feliz da vida por ter morto a avó, por me torturar todos os dias, deve sentir um prazer imenso aquele desgraçado” apetecia-me sempre dizer. Porém, nunca o fazia. Engolia em seco e, com o melhor sorriso que conseguia fingir, dizia sempre o mesmo:

- Está na mesma.

Quando finalmente fiquei livre dos últimos mexericos do bairro, caminhei então para o parque, inconsciente de que hoje não era apenas eu que por lá caminhava à espera de encontrar algo. No meu caso, era fé e força, no dele era eu.

Depois de andar durante quase uma hora, deixei-me cair num banco de madeira e abri a garrafa de água, bebendo quase um quarto dela de seguida. Foi então que um homem passou por mim num passo apressado e depois de sentou a dois bancos de distância, esforçando-se por parecer descontraído. Quando olhei para o chão reparei que tinha deixado cair um telemóvel e, assim que o agarrei para lho ir levar, este começou a tocar. Apareceu o nome “Tyler” no ecrã, o que me fez olhar para o homem com alguma desconfiança. Ele fez-me um sinal com a cabeça como se me estivesse a incentivar, e por isso atendi.

- Estou? – Disse, a olhar directamente para ele.

- És mais bonita do que eu imaginava – elogiou. Abri a boca de espanto. A voz era igual e agora, a somar-se a ela, tinha uma figura. E uma bastante atraente, devo acrescentar. Tyler não era o homem barrigudo e de óculos que eu imaginei pelo telefone. Tinha um cabelo castanho e uns olhos que, depois de os olhar mais de perto, percebi serem de um tom de caramelo. Parecia bastante atlético e tinha um sorriso de encantar. Mas já tinha sido enganada por uma cara bonita antes.

- És mesmo tu… - murmurei.

- Não sabia como reagirias se me sentasse ao teu lado.

- Não! Não venhas, ele pode ver – e, por azar ou destino, ele tinha saído mais cedo do trabalho e estava mesmo a observar-nos ao longe – Ele sabe sempre de tudo, não sei como. Ainda não acredito que me encontraste.

- Ora, contaste-me tudo o que precisava de saber. Então conta-me, como vão as coisas? Ainda tens os pesadelos com a tua Be?

Mirei-o durante poucos segundos até lhe responder. Era tão estranho estar a falar agora para uma face.

- Tenho, mas hoje já foram só durante a primeira metade da noite.

- E o Lewis?

Engoli em seco.

- Está na mesma.

- Como é que deixaste as coisas chegarem a esse ponto, Ruby? Tens que dar a volta, tens que…

- O meu primeiro erro foi tê-lo deixado bater-me a primeira vez. O segundo, ter achado que podia mudar. Depois comecei a rezar, mas no inferno em que estava já nem Deus me podia ajudar – “afinal, Elise rezava a toda a hora, e nem isso lhe serviu de alguma coisa”, acrescentei mentalmente – Mas não posso fazer nada, o Joshua…

- Estava muito mais a salvo se essa besta estivesse atrás das grades.

O seu olhar estava a fixar-me demasiado, por isso desviei o meu para as árvores e para as crianças que brincavam.

- Tenho que ir, Tyler. Desculpa.

Desliguei a chamada e levantei-me. Caminhei na sua direcção e deixei o telemóvel cair aos seus pés mas, em vez de o apanhar, Tyler agarrou-me no pulso e impediu-me de ir. Tinha as mãos quentes, e uma ruga na testa que mostrava preocupação. Havia algo na maneira como me agarrava. Não era do mesmo modo possessor como Lewis o fazia, não era de um modo bruto ou forte. Era forte, sim, mas de uma maneira suave e agradável.

- Eu quero-te ajudar, Ruby, mas só se pode ajudar quem quer ser ajudado.

Sorri-lhe por educação e com a outra mão empurrei a dele, pondo-me depois no meu caminho.

- Eu ligo-te – sussurrei, sem ter a certeza de que ele ouvira.

 

Estamos na recta final. Dois capítulos para o fim. Que tal?

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