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O Anel de Ruby

por Andrusca ღ, em 11.02.13

16.  Objecto do Diabo

 

Olhei por aquele espelho duplo com uma expressão completamente apática, tendo a perfeita noção de que do outro lado alguém me observava. Tinha sido assim que tinha vindo parar a esta sala de interrogação com a roupa ensanguentada e a alma partida. Já não era apenas a vítima, a inocente, agora era também uma assassina, um carrasco.

Depois de a casa ter sido invadida por polícias, eu e Joshua fomos transportados para o hospital. Felizmente ele encontrava-se bem, tinha sofrido uma concussão pequena mas não era motivos para alarme. Não pareceu ficar abatido quando lhe disse o que tinha acontecido a Lewis, e consegui perceber bem o porquê. Do hospital viemos directamente para a esquadra e, enquanto ele ficou acompanhado de dois polícias na sala de espera e a dar-lhes o seu depoimento, eu fui escoltada até esta sala onde espero desde então.

Já não tinha mais lágrimas para deitar, limitava-me agora a olhar para o vazio e a bebericar do copo de água que me tinham disponibilizado. Quando a água acabou debrucei-me sobre a mesa e deitei a cabeça nos braços. Tentei fechar os olhos, mas tudo o que via era Lewis. Tudo o que me tinha feito sofrer, tudo o que me tinha feito crescer. O seu olhar gélido no momento da morte.

Parte de mim dizia-me que assim tinha sido melhor. Que ele tinha morrido, não me podia voltar a magoar, estava para sempre a salvo. Mas a outra questionava tudo isso. Porque, depois de tudo o que vivi, nunca estarei realmente a salvo de nada. Porque, nesta sala de interrogação, percebi que a minha vida ia agora entrar num capítulo ainda mais difícil que o anterior. Tinha um adolescente a meu encargo. Era a única pessoa que me restava, e como é que havia de o sustentar sem trabalho? Então outra ideia me passou pela cabeça: e se for parar à prisão?

Quando a espera já estava insuportável, a porta abriu-se a apareceu um detective vestido com umas calças de ganga e um blazer, com uma pasta na mão. Olhou para mim e mostrou-me um breve sorriso. Ajeitei-me na cadeira, pondo-me direita, e esperei que se sentasse à minha frente.

- Desculpa a demora, Ruby, burocracias – disse, em tom de desabafo. Apenas assenti com a cabeça – Não me queres contar o que se passou?

- Ainda não sabe? – Questionei, genuinamente surpreendida.

- Gostava de o ouvir por ti.

- Eu matei-o. Matei o Lewis.

- Defendeste-te, não é verdade? Pelas fotografias tiradas no hospital…

- Sim. É o amigo do Tyler?

- Sou. Desculpa-me a má educação, sou o detective Waldor.

- Não faz mal. O que me vai acontecer agora?

Ele mostrou-me um pequeno sorriso e depois fechou a pasta do caso, levantando-se.

- Claramente que isto foi um homicídio por legítima defesa. Temos as chamadas que fizeste ao centro de ajuda gravadas e o nosso técnico já analisou mais de metade, o que deu para percebermos pelo menos um pouco pelo que passaste.

- Com todo o respeito, detective Waldor, mas você nunca saberá pelo que eu passei.

- Acredito em ti. Vai, estás despachada. Está alguém muito ansioso por te ver lá fora.

- É só isto?

- Não é o suficiente?

Sorri-lhe e, após me abrir a porta, saí. Vi Joshua sentado acompanhado por dois polícias e Tyler e, assim que me viu, começou a correr até mim e abraçou-me com toda a força que tinha. Agora só nos tínhamos um ao outro. Vi o detective Waldor trocar umas palavras com Tyler, que logo depois veio ter connosco e nos encaminhou à saída.

Saí daquela esquadra com um braço por cima dos ombros de Joshua e com Tyler do meu outro lado; ele oferecera-se para nos ajudar no que fosse preciso e, agora, o que precisávamos era um almoço tardio antes que desmaiássemos. O futuro logo se veria. Enquanto andava, reparei de novo naquele anel de rubi que me enfeitava o dedo. Nunca acreditei em maus presságios. Bruxarias, maus-olhados. Para mim isso nunca passara de meras fantasias de quem não queria ver o mundo como ele realmente era. Duro, cruel. Mas agora sei que devo ter mais cuidado com o que acreditar, pois se aquele velho anel me arrastou até este pesadelo imenso, então a minha falecida avó tinha razão. Não passava mais de um objecto amaldiçoado vindo das mais profundezas do inferno destinado a arruinar-me a vida. Soltei Joshua só o tempo requerido para tirar o anel do dedo e mandei aquele objecto do diabo para trás das costas e, pelo retrovisor de um carro, vi-o cair dentro de uma sarjeta onde, pacientemente, esperaria por outra pobre alma que o resgatasse.

Só ao andar por aquela rua é que percebi a quão modificada estava. Sabia que os pesadelos nunca iriam desaparecer, que o medo me tinha moldado e que era uma pessoa completamente diferente. Estava danificada

 

Fim


E pronto, acabou.

Então digam-me lá, visto esta história ter sido tão diferente das outras, o que acharam no global?

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