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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 21.02.13

Capítulo 3

Primeiras Lições * Parte 1

 

- Acorda – dizia Will constantemente, enquanto abanava Chelsea para que esta se levantasse. Mas era escusado. A rapariga não acordava por nada, ainda envolta no mundo dos sonhos no qual era uma heroína – Vais chegar atrasada Chelsea, acorda! – O rapaz empurrou-a com um pouco de força a mais, sem intenção, o que fez com que ela rebolasse e caísse da cama ao mesmo tempo que soltava um pequeno grito. Chelsea, ainda meio zonza, sentada no chão, levou uma mão à cabeça e tentou focar o que via, e quando viu Will em pé à sua frente sentiu uma fúria enorme.

- Mas o que é tens?! – Reclamou ela – Não é assim que se acorda uma pessoa!

- Desculpa, foi sem querer – desculpou-se o rapaz, dando-lhe a mão para a ajudar a levantar.

- O despertador ainda nem tocou – lamentou a rapariga, deixando-se cair de costas em cima da cama fofinha – Mas o que é que tu queres?

- Falar contigo. Como fugiste de mim ontem na escola…

- Disseste-me para fugir – apressou-se a rapariga a explicar.

- Bem, sim, deles. Mas era suposto esperares por mim quando os despistasses – disse Will, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

- Então devias ter explicado melhor – resmungou a rapariga, respirando fundo e sentando-se de pernas cruzadas – Mas o que é que estás aqui a fazer Will? Se os meus pais te apanham aqui, matam-me.

- Só quero conversar – disse ele, calmamente – sobre o que aconteceu ontem.

A mente de Chelsea começou a divagar até ao dia anterior, em que por obra de um pingente se tinha transformado numa Guerreira e tinha impedido que um demónio andasse à solta, salvando assim os seus colegas e amigos.

- Tu – acusou, apontando o dedo a Will – Tu transformaste-me numa aberração!

- Não! – Defendeu-se o rapaz – És uma heroína. Uma guerreira que protege o mundo contra o mal. Uma heroína.

- Mas não quero ser – murmurou Chelsea, num tom baixo, e como se as palavras lhe custassem a pronunciar – Não quero ser.

- Temo que não tenhas escolha – Will aproximou-se mais dela e sentou-se na ponta da cama – É o teu destino.

- Podemos… podemos falar depois? Eu tenho que me despachar, e… não quero chegar tarde outra vez – murmurou ela, o que na verdade eram apenas desculpas para não ter que abordar aquele assunto agora.

Só de falar nisso, assustava-a. Apesar de ontem ter vencido aquele demónio, isso não quer dizer que vá sempre ser assim. Não quer dizer que Chelsea saia sempre vencedora. E isso petrifica-a de medo. Assusta-a o facto de falhar e de que outra pessoa pode sofrer as consequências. Assustam-na os monstros que adivinhava estarem para vir. Assusta-a a enorme responsabilidade que recolheu quando apanhou aquele colar do chão, ainda sem saber o que significava. Se soubesse, nunca o teria apanhado, mas Will sabe com todas as certezas que mais cedo ou mais tarde ela cederia e abraçaria quem é na realidade. Ele sabe que chega a uma altura em que não se consegue fugir mais. E por isso mesmo é que não insistiu mais com ela, pelo menos agora.

- Podemos – concordou – Despacha-te, vai para a escola. Mas quem és, e o que fizeste, é segredo. Não podes dizer a ninguém. Quanto mais pessoas souberem de quem és, pior é. Estão a ser postas em perigo desnecessariamente. A melhor maneira de os ajudares é não lhes dizendo.

O rapaz aproximou-se da janela do quarto de Chelsea, que ficava virada para as traseiras da casa, para um bosque grande que se estendia por vários quilómetros, e quando ia saltar a voz da rapariga fê-lo parar.

- O que… - Chelsea engoliu em seco, até tinha medo de perguntar – O que acontece agora?

- Agora descobrimos o que podes fazer. Começamos os treinos.

- E se eu não quiser?

- Então pessoas morrerão, e não apenas nesta cidade. Diamond City é o centro de algo muito maior. Estamos apenas no início.

E dito isto, Will saltou, aterrando na maior das perfeições, como se saltasse da altura de dois degraus e não de um primeiro andar.

Chelsea ainda ficou especada na cama, imóvel e afundada em pensamentos, durante mais uns tempos, mas depois levantou-se e dirigiu-se à sua casa de banho. Ligou a torneira do lavatório e passou água abundantemente pela face, limpando-a em seguida com uma das toalhas que tinha, penduradas, ao lado. olhou-se ao espelho e suspirou.

- Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades – murmurou ela – Pelo menos é o que o tio do Homem-Aranha disse… bah, eu não quero grandes poderes.

Por muito que quisesse abstrair-se e pensar noutra coisa, não conseguia, era-lhe impossível. Abriu o roupeiro e escolheu umas calças pretas e justas para vestir em conjunto com uma blusa azul-turquesa, comprida. De entre os seus vários pares de All-Star, escolheu aqueles que mais se aproximavam do tom da blusa, e calçou-os. Nessa altura tocou o despertador, e ela foi desligá-lo. Deu por si a pensar no que faria àquele colar com o pingente, que repousava em cima da mesa-de-cabeceira. Não o queria levar, mas também não se sentia bem ao deixá-lo em casa. Suspirou e meteu-o ao pescoço, escondendo o pingente por dentro da blusa. Tinha que o levar, não poderia ser de qualquer outra maneira.

Regressou à casa de banho e deu um jeito ao cabelo, apesar de não ser preciso grande coisa. Os seus caracóis estavam quase sempre arranjados. Pegou na mala já com as coisas lá dentro e desceu as escadas. Pousou-a em cima do sofá e encaminhou-se para a cozinha, para preparar o pequeno-almoço.

Quando os seus pais desceram as escadas, já ela tinha comido e estava a pôr a loiça suja na máquina, o que os fez desconfiar que algo tinha acontecido.

- Acordaste cedo – murmurou a sua mãe, chegando-se ao pé dela para lhe beijar a face. Elas eram as duas muito parecidas. Tinha sido à mãe que Chelsea tinha ido buscar o seu cabelo ruivo e os olhos esverdeados.

- Não consegui dormir mais – “Ou melhor, fui acordada por um chato”, corrigiu mentalmente a rapariga.

- Mas está tudo bem? – Inquiriu-lhe o pai, com um tom de preocupação.

- Sim, está tudo – garantiu ela, sorrindo o mais sinceramente que lhe era possível – Bem, eu já comi, por isso vou andando para não chegar tarde.

- Mas ainda é muito cedo Chelsea – advertiu-lhe a mãe.

- Mas não me apetece ficar aqui – murmurou Chelsea, agarrando na mala. Despediu-se dos pais com um beijo a cada um e saiu, respirando fundo.

Não lhe apetecia voltar para a escola, mas tinha uma certa curiosidade em saber como estaria depois da confusão de ontem. Será que iria ser fechada e não haveria aulas nos próximos dias? Pelo menos Chelsea esperava que sim, não estava com cabeça para ouvir os professores a tagarelar.

- Oh não! – Gritou, de repente – Raios, tenho um teste hoje!

O teste para o qual não estudou. A razão de Helen ter ficado até mais tarde na escola a estudar. “Oh não… a mãe vai-me matar”, lamentou a rapariga. Nesse momento, mais que nunca, desejou mesmo que a escola fechasse.

Andou lentamente pelas ruas, hoje, para admirar, não tinha que correr nem ser apressada para chegar à escola. Tinha tempo mais que suficiente para andar devagar e inspirar uma boa brisa matinal. Chelsea não sabe exactamente quanto tempo demorou no caminho mas, quando fez a última curva para a escola, viu um aglomerado de pessoas em frente ao portão. “Fixe, vão mesmo fechar a escola!”, pensou ela.

Procurou por alguém conhecido e depressa avistou Helen, junto a Tony e mais uns alunos. Correu até eles e saudou-os.

- Chelsea! – Exclamou-lhe a melhor amiga – Não tens ideia do que aconteceu aqui ontem. Foi de loucos! - As palavras iam saindo pela boca de Helen à velocidade do vento, e foi aí que Chelsea percebeu que não podia falar sobre o fim da tarde passada, pois ao entender de todos, ela não esteve presente – E depois quando finalmente acabei de estudar e eram horas da biblioteca fechar, a bibliotecária pôs os alunos todos fora, e saiu também, mas depois apareceu… apareceu o quê? Eu nem sei o que é que aquilo era. Só sei que não era normal, ai disso tenho a certeza. Aquela coisa era assustadora.

- E depois? – Perguntou uma rapariga, que ouvia o relato de Helen.

- Depois toda a gente começou a ficar sonolenta – prosseguiu agora Tony, o que fez com que Chelsea estranhasse.

- Mas tu também lá estavas? – Perguntou ela. Ela não o tinha visto lá.

- Sim, estava nas mesas ao lado da biblioteca – disse ele – Bem, começámos a sentir uma sonolência enorme, até que perdemos os sentidos. E depois…

- E depois quando acordámos vimo-la! – Interrompeu-o Helen, fazendo-o fazer uma cara amuada.

- Viram… quem? – Perguntou Chelsea, a medo.

- A… espera, como é que era? Já sei! A Defensora do Oculto! – Explicou-lhe o melhor amigo, sorrindo – Devias ter visto Chelsy, ela é linda!

Chelsea corou, mas felizmente ninguém reparou.

- Mas ela pode ver – a rapariga que anteriormente ouvia o relato tirou um jornal de trás das costas e mostrou-o. Na primeira página estava uma fotografia de Chelsea. Não, da Defensora do Oculto. Estava desfocada e Chelsea estava de costas. – Parece que um dos alunos tirou a fotografia, e como os jornais ficaram logo interessados, vendeu-a.

Chelsea agarrou no jornal e focou melhor a vista. Estava irreconhecível, mas a fotografia trazia o melhor dela à tona. Ela engoliu em seco. Uma fotografia? Não podia ser reconhecida, devia ter tido mais cuidado.

- Quem me dera saber quem ela é – confidenciou Tony.

- Também eu. É uma heroína, é o que é – concordou Helen – Devemos-lhe as nossas vidas.

- Então e tu, o que achas? – Perguntou a outra rapariga, a Chelsea.

- Eu? Eu… - Chelsea não sabia o que responder. Ela não considerava que tivesse sido uma heroína. Acreditava sim que tinha tido bastante sorte, nada mais – Eu não…

- Chelsea? – Uma voz grave soou por trás dela, e ela, reconhecendo-a, voltou-se.

- Pai? O que estás aqui a fazer? – Perguntou ela.

- Não sabes o que aconteceu ontem? Tive pessoal a vigiar este sítio de noite, mas não encontrámos nada. Parece que seja quem for que vandalizou o liceu, não deixou quaisqueres pistas – disse ele – Vamos sair daqui e o dia vai correr com regularidade.

- Oh não! – Exclamou Chelsea, fazendo com que todos olhassem para ela, surpreendidos – Quer dizer, é péssimo não terem encontrado nada – “E pior ainda ter que fazer o teste. Ora bolas!”, adicionou, em pensamento.

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