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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 24.02.13

Capítulo 3

Primeiras Lições * Parte 2

 

“Demonologia: Demónios de A a Z” era o título de um dos muitos livros que repousavam em cima da secretária que estava no quarto de Will. Chelsea olhou para ele e imaginou quantas páginas teria. Novecentas, no mínimo. Will estava na cozinha, tinha ido buscar um copo de sumo para cada um. Tinham combinado encontrar-se a esta hora, na casa dele, para que pudessem discutir melhor o que iria acontecer, e para que Will explicasse melhor a história da Guerreira Defensora contra o Oculto a Chelsea. Will tinha tudo programado na sua cabeça, primeiro iriam conversar sobre o que ela pensava, depois ele iria explicar as histórias e algumas lendas em redor dessa heroína, e apenas depois lhe diria como iriam ser os treinos e o que pretendia então que ela fizesse.

- Este parece bastante antigo – disse Chelsea, ainda com a mão em cima do livro de demónios, quando sentiu Will a entrar no quarto.

- E é – afirmou ele, passando-lhe um copo com sumo de laranja para as mãos – Começou a ser escrito perto do século XII, e desde então que têm sido acrescentadas novas coisas cada vez que novos conhecimentos são feitos.

“Desde o século XII?! É impossível só ter novecentas páginas”, pensou Chelsea.

- Posso? – Perguntou, agarrando no livro. Will assentiu, e assim que Chelsea agarrou no livro este aumentou de largura quase para o triplo, fazendo com que os olhos da rapariga se arregalassem. Ela voltou a pousá-lo, era bastante pesado.

Chelsea deu mais uma olhadela pelo quarto. Era pobre em termos de apresentação, tal como o resto da casa. Apenas tinha o essencial. Neste espaço apenas se encontrava uma cama de solteiro, um roupeiro e a secretária. E depois havia pilhas de livros no chão, mais pilhas de livros na secretária, e ainda um ou outro, espalhados, por cima da cama.

- Mais calma? – Perguntou Will, dando um gole no seu sumo.

- Na verdade não. À beira de um ataque de nervos – confidenciou Chelsea, pousando o copo na secretária e voltando-se para ele.

- Desculpa, admito que posso ter sido um pouco… apressado. De certo que haveria melhores maneiras de te explicar tudo – admitiu o rapaz.

- Pois, não vou discordar disso.

- É que… não és exactamente como pensei que fosses.

- Como assim? Como é que me imaginavas?

- Bem… - “Forte, destemida, com alma de lutadora”, pensou o rapaz – apenas diferente.

- Não posso voltar atrás, pois não? – Will foi apanhado de surpresa por esta pergunta, e notou uma certa mágoa na voz da rapariga dos cabelos ruivos, que se deixou cair sentada de costas para ele, na cama – Gostava de poder… mas não posso, pois não?

- Lamento – pronunciou ele, voltando-se na cama para a ver apenas de lado – Pode parecer injusto, percebo. Mas é quem tu és, e mais cedo ou mais tarde vais ter que aceitar isso. E quanto mais cedo, melhor.

- Mas eu…

- Posso… posso-te contar como tudo começou? – Will interrompeu Chelsea, e com esta pergunta ganhou definitivamente a sua atenção. A rapariga assentiu-lhe, e voltou-se também para ele, para lhe permitir então começar o relato – Foi há aproximadamente um século atrás. Uma rapariga apareceu numa estalagem ferida, e acabou por perder os sentidos. Quando acordou, não tinha qualquer memória sobre quem era nem onde vivia. Era jovem, e por isso os estalageiros não a conseguiram deixar à mercê do destino, e acolheram-na. Poucos anos passaram, e numa noite igual às outras, a rapariga viu uma luz forte ser emitida a pouca distância de lá, e seguiu-a. Lá encontrou o pingente, o mesmo que tu encontraste. Quando lhe tocou, todas as suas recordações regressaram. Lembrou-se que tinha sido criada pelos Guardiães, para estabilizar as forças do mundo. Tinha sido ferida numa das muitas lutas que travou com seres maus, e foi aí que foi ter àquela estalagem. Quando se lembrou de quem era, teve que voltar à sua vida. Não podia deixar que o mundo pagasse pela sua falta de memória. Saiu de lá nessa mesma noite, sem tão pouco se despedir. Mas era tarde. Várias cidades à frente, numa cidade chamada Diamond City…

- Mas essa é…

- Esta cidade, sim, é. Nesta cidade tinha-se colocado a sede da Escuridão, e a partir daqui ela ia sendo aos poucos transmitida para o resto do mundo. A Guerreira Defensora lutou arduamente, até que por fim conseguiu destruir as forças do mal por força de um milagre, e o mundo voltou a ter paz.

- O que lhe aconteceu a ela?

- Morreu nessa batalha. O pingente, por outro lado, regressou a casa, à Casa dos Guardiães, quem o criou, e permaneceu lá.

- Mas pensei que tinhas dito que os Deuses tinham criado o pingente…

- Sim, de certo modo. Os Deuses deram os poderes necessários aos Guardiães para que pudesse ser criado. Várias lendas disseram que ele apenas acordaria e voltaria a encontrar uma nova Guerreira quando tal fosse necessário, quando a Escuridão regressasse à Terra. Por dezenas de anos tudo permaneceu quieto, sempre com os Guardiães a vigiar do mundo dos humanos. Mas de um momento para o outro o pingente “acordou” e desapareceu, indo ao encontro da sua própria dona.

- Disseste “própria”, não devias dizer “próxima”?

- Não… porque tu, Chelsea, és a reencarnação dessa lendária lutadora. E era por isso que te imaginava algo diferente do que realmente és.

- Reencarnação? – Chelsea respirou fundo e expirou o ar com força. Isto era informação a mais, era como se o cérebro fosse explodir de um segundo para o outro – Então o colar veio até mim, e tu apareceste a seguir, e depois o demónio.

- Não. O pingente veio pois sentiu que o demónio viria. E eu vim encarregado de identificar, e treinar, a nova Defensora. Tu.

- Isto está tudo a ir demasiado rápido – disse Chelsea, entre suspiros, enquanto se levantava e começava a andar de uma ponta à outra do quarto, sempre em linha recta, para trás e para a frente.

- Lamento, mas estas são as partes que tens que saber para já.

- Para já? As partes? Queres dizer que há mais? – Perguntou ela, já a desesperar – Há mais além de eu ter sido uma guerreira na outra vida? Mais além de ter morrido a salvar o mundo? Não consigo respirar… - Chelsea parou subitamente e mais uma vez tomou uma grande golfada de ar. Sim, havia mais. Muito mais. Mas Will sabia que não lhe podia providenciar toda a informação de uma vez. Havia coisas que nem ele sabia. Informações que apenas os Guardiães possuíam. E ainda coisas que apenas a verdadeira guerreira sabia, e que nunca partilhou com ninguém. Coisas que Chelsea pode, ou não, eventualmente vir a lembrar-se.

 - Ok, hum… - Chelsea encostou à parede e observou Will, que ainda se encontrava sentado na cama – Posso voar?

Will fez um pequeno sorriso, contrariando a enorme vontade que tinha se dar largas gargalhadas.

- Não – respondeu.

- Posso lançar teias como o Homem-Aranha?

- Não és a Mulher-Aranha Chelsea, és uma Guerreira Defensora…

- Contra o Oculto, blá, blá, blá. Já percebi. Então… o que é que posso fazer?

- Honestamente? Com as tuas habilidades? Não muito – Chelsea ficou surpreendida de o ouvir falar assim – Não sabes lutar, não tens muita coragem. Nem sequer sabes usar o pingente, e isso é algo que tem que vir de ti, ninguém to pode ensinar. Mas com treino… podes fazer qualquer coisa.

- Bem… matei aquele demónio, não matei?

- Sorte. E os Procuradores são dos demónios mais fracos que existem. Sem treino, não consegues fazer nada. És uma presa fácil.

- Tenho medo Will…

- Eu sei, e é por isso que te vou ajudar. Vou-te ensinar a defender-te. Vou-te dar as armas que conseguires manejar. Aos poucos vais ver que ganhas a tua coragem. Podes não ter muitas qualidades de uma guerreira Chelsea, mas tens uma que vale muito – Chelsea franziu as sobrancelhas, e pela primeira vez desde o início da conversa, Will levantou-se e aproximou-se um pouco dela – Tens um bom coração Chelsea. Nunca, nunca, o percas. Com o resto havemos de nos arranjar.

- Como? – Insistiu ela.

- Vamos ter treinos várias vezes por semana. E a adicionar, vais… - Will começou a mexer na pilha de livros que tinha em cima da secretária, e agarrou em três. “A História da Magia”, “O Poder Interior” e “Pingente Mágico”, eram os seus nomes. Passou-as para as mãos da rapariga – ler estes livros. O mais importante é o do pingente, mas quero que conheças os outros também.

- Estás a gozar, certo? – Perguntou ela – Will, eles são enormes! Eu detesto ler. Não me podes fazer um género de resumo? Tipo… há vampiros?

- Sim, por acaso até existem – disse ele.

- Então e fantasmas? O Pé-Grande é real?

- Hum… - Will agarrou num último livro, e sorriu ao pô-lo também em cima dos outros que Chelsea já agarrava – também devias ler este. “Demonologia: Demónios de A a Z” vai responder-te a todas essas perguntas. Tem os tipos de demónios, onde costumam ser encontrados, os poderes que possuem e como serem derrotados. Vai ser uma óptima ajuda.

Chelsea sorriu, forçosamente. Nunca se achou capaz de fazer isto, e à medida que a pilha de livros nos seus braços aumentava, cada vez se sentia menos.


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