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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 27.02.13

Capítulo 4

Segredo * Parte 1

 

- De novo! – Exigiu Will, olhando Chelsea de cima, visto a rapariga estar no chão. – Tenta de novo!

Ela levantou-se e suspirou. Will estava a perder a paciência, e ela conseguia ver isso demasiado bem. Estavam há horas a tentar que Chelsea aprendesse a controlar a transformação. A tentar controlar o colar. Segundo Will, ela apenas se transformou na escola, perante o Procurador, por pura sorte. Porque o pingente teve misericórdia dela. E isso provou-se verdade quando ela não conseguiu repetir a feito.

Este era o segundo dia em que Chelsea ia a casa de Will para treinarem. Ele morava sozinho, por isso não havia problema. Mas a cada minuto que passava com a Guerreira Defensora, Will perdia a esperança de que poderia ser ela a grande salvadora do mundo. Ela não conseguia fazer nada. Não conseguia controlar o pingente, ainda não se tinha esforçado para aprender a mínima coisa sobre os demónios, e não estava minimamente interessada em aprender os seus deveres como protectora do universo. No meio de toda a aflição e desespero, Will não conseguia ver que também Chelsea estava cheia desses sentimentos. Ela transformara-se uma vez, e uma vez apenas, e isso mata-a de medo. Tinha medo que acontecesse de novo, por dentro não o desejava. Por muito que repetisse que queria ser a Defensora do planeta em voz alta, isso não mudava o que sentia por dentro. E o pingente não é guiado por vozes ou exigências. É pelo que está dentro da pessoa. O coração, a alma, a vontade. Naquele dia, na escola, Chelsea quis ajudar os amigos. Pode não ter desejado ser a Defensora, mas quis ajudá-los, e o pingente percebeu isso e por isso permitiu-lhe transformar-se. Mas tal como Will suspeitava, isso não era o suficiente. A Guerreira Defensora contra o Oculto tem que desejar sê-lo, não o pode ser por obrigação. E infelizmente Chelsea ainda se sentia longe de ter essa vontade.

- Não consigo Will! – Gritou-lhe a rapariga, cheia de desespero na voz, deixando-se cair no chão. Estava exausta, não aguentava nem mais um segundo – Não consigo… estou cansada, quero ir para casa.

- Mas assim nunca conseguirás! – Discutiu o rapaz.

- Não me importo – murmurou ela, sem que ele ouvisse.

- Chelsea, tens que continuar a tentar. Não podes combater sem a ajuda do pingente. Nunca conseguirás sobreviver a uma batalha sequer. Tens que continuar. Tens que conseguir.

- “Tens”, “tens”, “tens”, isso é tudo o que dizes! – Exaltou-se ela – Isto é difícil, está bem? Não é como ligar uma luz ou beber água. É exaustivo, e ainda nem sequer consegui ir até ao fim da transformação. Já chega. – Ela levantou-se e pegou na sua mala, pondo-a ao ombro. – Vou para casa. Podemos falar amanhã.

Chelsea voltou-lhe as costas e bufou, abrindo a porta e saindo por ela em seguida. Caminhou pelo corredor, desceu as escadas, e saiu do prédio, tudo sem nunca olhar para trás. “Aquele Will põe-me maluca!”, ia reclamando, à medida que avançava pelo seu caminho. Ela sabia que ele apenas a estava a tentar ajudar a perceber melhor as coisas mas… era complicado, e isso ele não percebia. “Ele só quer que eu seja perfeita, não tenho culpa”, pensava.

Ia tão absorta nos seus pensamentos, que não reparou em ninguém, e ao fazer uma curva embateu contra um rapaz mais alto que ela, que assim que levantou os olhos para o ver, o conheceu como sendo PJ.

- PJ! – Exclamou, sorrindo-lhe e corando ao mesmo tempo – Desculpa, estava distraída.

- Sim, as curvas têm esse efeito em ti – Jensen saiu por detrás de PJ, e começou logo a enervar Chelsea. “Como se o dia não estivesse a correr já mal que chegasse”, resmungou ela, interiormente.

- Não faz mal, não se zanguem – meteu-se PJ, afastando o cabelo dos olhos – Já não tens mais aulas hoje Chelsea?

- Não, finalmente estou livre para o fim-de-semana – disse ela, contente.

- Tu chegas sempre tarde, não estudas, não tomas atenção a nada… parece-me que para ti é domingo todos os dias – resmungou Jensen, o que fez com que Chelsea cerrasse os punhos e mordesse o lábio, para não desatar a gritar com ele. Mas PJ estava lá também, e ela não queria fazer figuras tristes à sua frente. Não lhe podia dar qualquer pretexto para que achasse que ela é uma criança ou algo do género. Afinal, apenas têm dois anos de diferença, dois anos não é nada.

- Vá lá Jensen – repreendeu-o PJ, para felicidade e alívio de Chelsea.

- Desculpa, mas é verdade. Oh Chelsea, não achas que assim vais chumbar de ano? – Insistiu o rapaz dos olhos claros, de dedo empinado.

- Tu cala-te – mandou-lhe Chelsea, já sem conseguir esconder muito bem o nervosismo. Ela nunca tinha chumbado de ano, nem uma vez. E não ia deixar as coisas chegarem a esse ponto. Apenas não se interessava muito pelo estudo… mas safava-se se encontrasse uma brecha de entusiasmo, ainda que fosse mínima.

- Vá lá, já chega, que chatos – Reclamou PJ, bufando – Íamos experimentar os gelados daquela geladaria que abriu há uns dois meses, não queres vir?

- Não, obrigado. Esqueci-me da carteira em casa, por isso… - disse Chelsea, meio atrapalhada. Era o que fazia ser despistada.

- Só Deus sabe como ainda não perdeste a cabeça – Ambos, PJ e Chelsea, ignoraram o comentário de Jensen.

- Não faz mal, eu pago-to. Anda lá, estás com uma cara… parece que precisas de desanuviar Chelsea – insistiu o rapaz dos caracóis, sorrindo-lhe. Aquele sorriso derretia-a da cabeça aos pés. Acabou por concordar, e então voltou para trás, com os dois rapazes, em direcção à nova geladaria.

Jensen não estava com vontade nenhuma que ela fosse com eles, mas não queria ser ainda mais rude ao dizer isso directamente, por isso limitou-se a ficar com uma cara de amuado enquanto via o melhor amigo dar mais atenção à rapariga que o chateava, do que a ele.

JP foi pedir os gelados, enquanto Chelsea e Jensen ficaram sentados a guardar mesa. Entre poucas trocas de olhares e longos momentos constrangedores, nenhuma palavra foi proferida. De quando a quando, PJ espreitava desde a fila, para ver se os amigos ainda não se tinham morto um ao outro, e constatava que ainda se encontravam intactos. “Nunca se haverão de entender”, pensava ele, enquanto esperava que a sua vez chegasse.

- Tu tens cá uma lata! – Ouviu PJ, já quando se aproximou da mesa, com os três gelados de cone nas mãos. Chelsea estava sentada em frente a Jensen, tinha uma perna cruzada por cima da outra, e encontrava-se de braços também cruzados. Não parecia nada feliz. Já Jensen encontrava-se com uma cara trombuda, como se estivesse a fazer o maior frete da vida dele ao estar ali.

- Eu?! – Defendeu-se a rapariga – Olha quem fala. És um estúpido!

PJ nem quis saber do que a discussão se tratava. Eles os dois arranjavam sempre os motivos mais estúpidos para discutirem, e nunca, mas nunca, nenhum dava o braço a torcer. São os dois demasiado orgulhosos para tal.

- Um gelado de menta para a donzela – disse ele, passando o gelado de Chelsea para ela –, e um de morango e cheesecake para ti – entregou o gelado de Jensen ao tal, e sentou-se na cadeira vaga, começando a saborear o seu gelado de banana. 

Chelsea e Jensen não abriram mais a boca para dirigirem qualquer palavra um ao outro, e PJ odiava esse ambiente, por isso decidiu ser ele a começar a conversa. 

- E então Chelsea, tens alguma novidade? – Perguntou, na esperança que fosse uma boa forma de começar uma longa conversação.

 “Hum, deixa ver… descobri que estou destinada a lutar com monstros, não tenho jeito nenhum para a coisa, não me consigo sequer transformar, o Will dá comigo em louca e ainda estou pior na escola. Só descobri isto há uma semana e já estou a ficar pelos cabelos. Ah! E ainda não arranjei coragem para me declarar a ti, PJ”, pensou a rapariga, sentindo-se a corar só por pensar na possibilidade de dizer a PJ como se sentia ao pé dele. 

- Na verdade, não – respondeu, dando mais uma lambidela ao seu gelado. PJ estranhou ela não dizer nada, visto que é sempre bastante faladora. 

- Está bem… - murmurou ele.


 

Ando cheia de testes e trabalhos, e a falta de comentários também não motiva fofos...

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