Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 09.03.13

Capítulo 5

Expectativas * Parte 1

 

- Há quanto tempo sabes?

Uma brisa fresca fazia-se sentir no pátio do Liceu de Diamond City, onde a maior parte dos alunos se encontrava agora. As raparigas encontravam-se separadas por grupos, sempre a conversar, a rir. Os rapazes jogavam à bola, ou falavam mais recatados a um canto. Havia sempre aqueles que se iam meter com as colegas, e de quando a quando um casal de namorados passava de mãos dadas.

Chelsea e Cassie encontravam-se sentadas num muro, afastadas de toda a confusão, e Will estava em frente a elas. Desde que Cassie descobrira que Chelsea é a Defensora do Oculto, que as duas raparigas têm estado algum tempo juntas. Ao princípio Chelsea tinha medo que Cassie faltasse à promessa e revelasse a sua identidade, mas nos poucos dias que estiveram juntas ela percebeu que Cassie era uma pessoa em quem se podia confiar. Cassie, por sua vez, estava contente por ter uma amiga com quem falar, e Chelsea pô-la à vontade para fazer as perguntas que queria, apesar de não lhe saber responder à maior parte. Aos poucos, em poucas horas, uma amizade começou a nascer.

Will olhou para Cassie, preparando-se para responder à sua pergunta, mas Chelsea antecipou-se. Foi apenas hoje que ela tinha ganho coragem para dizer a Will que Cassie sabia de tudo.

- Foi ele que me contou – explicou Chelsea – Ele sabe desde antes de mim.

- É muito importante que saibas que não podes contar isto a ninguém – Will foi bastante directo, e em troca recebeu um sorriso directo dos lábios de Cassie.

- Eu sei, a Chelsea já me explicou tudo – disse a rapariga dos piercings, assentindo com a cabeça – Excepto… quem mais sabe?

- Ninguém – Will foi rápido na sua resposta – Ninguém mais pode saber. É um risco. Quem sabe pode ser usado pelo outro lado, ou pode ser morto por informações. A melhor maneira de se proteger as pessoas de quem gostam, é mantendo-as ignorantes perante tudo isto.

- Will, pensava que a Escuridão apenas me queria a mim. Mas aquela demónia há três dias, ela não sabia quem eu era. Ela queria a Cassie. Porquê? – Perante a pergunta de Chelsea, Will ponderou se devia, ou não, contar-lhe o porquê da Escuridão perseguir humanos, e chegou à conclusão que ela devia saber.

- A Escuridão precisa de “passagens” para este mundo – começou ele – Precisa de ajuda para se implantar. A Escuridão não é uma pessoa, ou um objecto. Cresce como um sentimento, um estado de mente, uma maneira de ser. É puro mal. Diabólico. Demónios são mandados para a Terra para implantar o mal nas pessoas, para que as faça cometer crimes, delitos mais, ou menos, graves. A energia gerada por esses crimes alimenta a Escuridão, tal como a energia dos bons feitos alimenta a Luz, tudo o que é bom. O nosso lado.

- Mas aquilo tentou matar-me – interrompeu Cassie –, não me tentou fazer nada.

- Demónios são demónios. Algumas vezes eles gostam de se divertir. E por “divertir”, não é ir beber um copo ou ver um filme – especificou ele – Não sabia que já andavam a matar, isso mostra um grande avanço da parte deles. Estão a evoluir mais depressa que o previsto. Em breve conseguirão o seu objectivo.

- O quê? – Perguntou Chelsea.

- Devolver todas as forças às Cinco Bruxas. As líderes do Reino da Escuridão.

- Por isso alimentam-nas com a força do mal na Terra – calculou Cassie.

- Sim.

- O que acontece quando recuperarem as forças? – Chelsea não sabia se queria saber a resposta, mas sabia que não podia deixar de perguntar.

- Vamos pôr desta maneira: a última vez que a Defensora lutou contra a Escuridão, apenas uma das Bruxas tinha o poder completo. E causou danos irremissíveis em algumas partes do Mundo. E para a impedir a Defensora teve que se sacrificar. Se as Cinco Bruxas ganharem todo o seu poder, nada as poderá impedir. Nem a Defensora, nem os Guardiães, nem o próprio Deus, se é que o há.

As raparigas engoliram em seco. Parecia uma história de terror mal contada.

- Como é que impedimos que isso aconteça? – Perguntou Cassie.

- Tu és apenas humana – Will não pôde acabar a frase, pois o toque de entrada fez-se soar por toda a escola. Chelsea despediu-se deles e encaminhou-se para a aula. Ia receber o teste feito na semana passada, e estava com receio, para não dizer que era mesmo medo.

À porta, à espera que a professora chegasse, encontrou Helen e Tony, e notou que eles agiram algo diferentes com ela. Helen estava mais distante, parecia estar sempre a evitar olhar para ela. Chelsea já a conhecia bem o suficiente para saber que algo a estava a incomodar. Mas não teve tempo para lhe perguntar, a professora chegou e cada aluno teve que ocupar o seu lugar.

Quando o seu nome soou pela sala, Chelsea levantou-se e caminhou reticente até à secretária colocada ao lado esquerdo da sala, voltada para os alunos, onde a professora a esperava.

- Tens que estudar mais Chelsea, isto está uma desgraça – disse-lhe ela, dando-lhe o teste para as mãos. “Mais uma negativa…”, lamentou a rapariga, ao ver a nota.

 

 

- Chelsea, podes vir cá abaixo? – A voz do xerife Burke fez-se soar por toda a casa. Chelsea acabou de vestir os calções do fato de treino e desceu as escadas, a pensar no que o pai quereria. Quando chegou à cozinha, deu com ele sentado na cadeira. Pela sua expressão não adivinhava nada de bom.

- Sim pai? – Perguntou ela.

Norman Burke pousou a folha que tinha na mão, permitindo a Chelsea ver o seu teste, a sua negativa que lhe tinha sido entregue logo de manhã.

- Como…

- É que o encontrei? – Interrompeu-lhe o pai, num tom chateado – Parece que além de tirares negativas, também és demasiado despistada e esqueces-te delas em todo o lado, incluindo na mesa da cozinha – Chelsea começou a lembrar-se. Tinha almoçado sozinha, enquanto contemplava a sua desgraça de teste. Arrumou a cozinha, e subiu para o quarto. Mas não tinha qualquer lembrança de ter levado o teste. Engoliu em seco, já estava a adivinhar um sermão.

- Pai…

- Senta-te Chelsea – Chelsea nunca tinha ouvido o seu pai falar-lhe naquele tom tão duro. Obedeceu sem ripostar, sentando-se na cadeira em frente a ele – Eu não sei o que te vai na cabeça. Palavra que não sei! Não queres fazer nada de importante? O teu irmão está a estudar arduamente para ser um bom médico, para fazer alguma coisa da vida. Eu protejo estas ruas, defendo esta cidade com a minha vida.

- Pai…

- Estou a falar Chelsea! Isto tem que mudar, percebes? Eu sei que nunca gostaste de estudar, mas isto é demais! O que é que queres da vida afinal? Hã? Vá, diz lá o que é que queres ser, com notas tão péssimas?

Chelsea engoliu em seco, já com as lágrimas a quererem saltar-lhe dos olhos. Psicóloga. Antes Chelsea sonhava em tornar-se numa psicóloga e ajudar quem precisasse. Mas desde que descobriu o seu destino a lutar contra a Escuridão que parou de sonhar. Limita-se a ser quem tem que ser, sem sonhos, sem ambições. Apenas a sobreviver um dia de cada vez. Ela sabia que teria que estudar bastante para ter a profissão com que sonhava, mas se quisesse conseguiria. Tinha fé nisso.

- Eu posso melhorar – disse a rapariga, com custo, como se a voz ameaçasse não lhe passar pela garganta.

- Tu sabes que te adoro – disse Norman, suspirando – Mas eu quero que faças algo de importante com a tua vida. Que deixes a tua marca no mundo.

“Mas deixo. Estou destinada a isso”, pensou ela, contendo muito bem as lágrimas para que não desse parte fraca.

- Posso ir? – Perguntou, engolindo em seco.

- Arranja explicações com alguém, atira-te de cabeça nos livros, não sei. Mas melhora nestes resultados escolares – disse-lhe ele, firmemente – Estamos entendidos?

- Sim pai.

- Vai lá.

Chelsea saiu da cozinha e correu escadas acima, atirando-se para cima da sua cama em seguida. Fechou os olhos e contou mentalmente até dez, para se acalmar, e quando não resultou voltou a contar.

6 comentários

Comentar post