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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 12.03.13

Desculpem a demora, esqueci-me completamente :x

 

Capítulo 5

Expectativas * Parte 2

 

Quando viu que eram três e meia, agarrou num casaco de fato de treino, calçou os ténis e saiu de casa, dirigindo-se ao bosque que ficava por trás dela. O bosque corria por quilómetros, e era um sítio onde a maioria das pessoas nunca ia. Era calmo. Chelsea sempre gostou de lá ir para pôr as ideias em ordem, mas esse não era o motivo por que lá ia desta vez. Will esperava-a. Segundo ele, era o sítio ideal para começarem a treinar.

Começou a avistá-lo dez minutos depois de entrar no bosque, e ficou pasmada com o que ele tinha feito. A erva estava cortada a fazer um círculo perfeito, e vários pedregulhos estavam alinhados a esse mesmo círculo.

- Como…

- Magia – Will nem a deixou terminar a pergunta. Dirigiu-se a uma das pedras e de lá tirou uma espada que tinha dentro de uma mala, mandando-a a Chelsea, que se desviou e a deixou cair no chão.

- Estás louco? Não me mandes coisas pontiagudas! – Reclamou ela, baixando-se para apanhar a espada.

- Passa-se alguma coisa? Estás mais irritadiça que o normal. É tudo nervos por causa do primeiro treino prático? – Na verdade Will não estava minimamente interessado, mas para a poder treinar convenientemente tinha que a ter no seu melhor, e nunca o conseguiria se ela não estivesse em paz mentalmente.

- Eu estou a salvar o mundo, certo? Sei que faço montes de asneiras mas… estou a fazer uma coisa importante, não estou? – Chelsea nem pensou antes de falar. Com a pergunta de Will toda a conversa que tinha tido com o pai tinha regressado, e o que ele dissera sobre “deixar a sua marca no mundo” não lhe saía da cabeça.

- De onde é que isso veio? – Will tinha sido apanhado desprevenido.

- O meu pai chamou-me de falhada. Não usou essas palavras mas… o significado está lá.

- Chel…

- Sei que não sou a melhor guerreira de sempre mas… importa, não importa? Mas é tudo tão secreto… ninguém sabe que sou eu, ninguém sabe o que faço. Para o resto do mundo a Chelsea Burke não é nada além de uma falhada. Não é justo.

- Vamos começar.

“É claro que ele não se importa”, pensou ela, apertando a pega da espada com força. Will também agarrou numa, e começou a avançar para Chelsea com uma força demasiada, levantando-a e depois deixando-a cair fortemente. Se Chelsea não se tivesse mandado para o chão certamente que teria sofrido uns cortes.

- Estás a tentar matar-me?! – Perguntou ela, levantando-se, enfurecida – Lá porque concordei em deixar-te treinar-me não quer dizer que te deixe matar-me!

- Pensei que te soubesses defender – desculpou-se Will, bufando. “Também, que raio de guerreira é que não sabe?”, adicionou ele, mentalmente.

- Se soubesse, não precisava de estar aqui para me ensinares – resmungou a rapariga, prendendo todos os seus caracóis ruivos com um elástico.

- Vamos começar com trabalho de punhos e pés, então – disse ele, mandando a espada para longe. Chelsea fez o mesmo, e Will pôs-se em posição. Flectiu as pernas e pôs-se em modo de ataque, enquanto Chelsea o tentou, sem sucesso, imitar – Defende-te! – Will atacou com um murro, acertando em Chelsea exactamente na barriga. A rapariga andou para trás e caiu no chão, a tossir.

Mas acabou por se levantar de novo.

Ao fim de poucas horas ela sentia-se como se tivesse sido atropelada por um autocarro de dois andares. Will não lhe dizia nada. Atacava e esperava que ela se defendesse. Esperava que a certo momento o seu espírito de guerreira viesse ao de cima, mas tal parecia não acontecer. Chelsea simplesmente não se sentia capaz de lutar. Não era para o que tinha sido feita, ou pelo menos era o que pensava.

Caiu no chão. Uma, e outra vez, e mais outra a seguir. Os seus joelhos começaram a ficar esfolados, e Will cada vez mais sentia que todas as expectativas que tinha posto naquela rapariga eram em vão.

- Levanta-te Chelsea! – Gritou-lhe, enfurecido. A rapariga encolheu-se. Will nunca lhe tinha gritado.

- Estou cansada Will – lamentou-se, ainda de joelhos no chão.

- Levanta-te – exigiu ele, com uma cara implacável. Chelsea engoliu em seco e levantou-se, levando logo a seguir com um pontapé que a deitou ao chão novamente. Will abanou a cabeça, frustrado, enquanto via que Chelsea continuava de barriga para baixo e não se movia – Mas há alguma coisa que saibas fazer?! Talvez tenhas razão. Talvez o pingente se tenha enganado. De modo nenhum és a Defensora que procurava. Estamos acabados Chelsea. Vai-te embora.

Um nó começou a formar-se na garganta de Chelsea, enquanto esta apertava as ervas com força. Levantou-se a fraquejar das pernas e começou a afastar-se lentamente, sem olhar para trás. Demorou o dobro do tempo que lhe tinha demorado a ir para ao pé de Will, a chegar a casa. Quando o fez, subiu para o quarto e enfiou-se na casa de banho, deitada na banheira cheia de água. O jantar foi comido no mais frio dos silêncios, e assim que se deu por terminado, a rapariga ruiva fechou-se no quarto e escondeu-se entre as mantas e os lençóis.

Acordou com os raios de sol a baterem-lhe nos olhos, e levantou-se pouco depois. Após se despachar e tomar o pequeno-almoço, foi para a escola. O dia até correu rápido. Não falou com Will, encontraram-se umas quantas vezes, mas de todas elas nenhum deles dirigiu mais que um olhar ao outro. Quando as aulas acabaram, Chelsea foi pôr a mala a casa e comer qualquer coisa, mas não lhe apetecia ficar fechada o resto do dia, por isso decidiu ir dar um passeio. Não tinha nenhum sítio específico em mente, por isso começou a andar devagar, sem rumo, enquanto pensava nos acontecimentos do dia anterior.

Não conseguia parar de se sentir como uma inútil. Ela sabia que não prestava para ser a Defensora do Oculto. Qualquer pessoa conseguiria entender que qualquer pessoa seria melhor que ela para esse feito. E por isso Chelsea não percebia porque é que o pingente a tinha escolhido a ela. Não sabia lutar, não gostava de correr, era medricas como tudo… não tinha nada para ser a escolhida. Os seus pensamentos começaram a divagar até à noite em que salvou Cassie. O rapaz que as ajudou. Chelsea queria saber quem ele era. Mas não tinha reparado muito bem na sua estrutura, e além disso estava com uma máscara. Mais tarde ela chegou a perguntar a Will se ele o conhecia, mas este negou-o, dizendo-lhe que não se preocupasse com mais nada além do treino. Mas aquilo intrigava-a. A maneira como ele as defendeu, o modo confiante com que agiu. Gostava de ter um nome para lhe chamar, uma face para reconhecer. Queria descobrir a sua identidade, nem que fosse para lhe agradecer por a ter ajudado. Sem a sua ajuda, o mais provável era terem as duas morrido naquela noite. Mas era impossível. Tudo o que Chelsea reparara fora no seu cabelo escuro e, só no liceu quase todos os rapazes têm o cabelo nesse tom.

Ao longe começou a avistar Helen, a comer um gelado ao lado de Tony. Apressou o passo até chegar a eles, e chamou-os quando já se encontrava mais próxima. Eles olharam para ela, mas não pareceram ficar muito felizes. Chelsea não percebia o que se passava com eles ultimamente.

- Não sabia que vinham comer um gelado – disse a rapariga dos caracóis ruivos, parando ao pé deles. Normalmente combinavam sempre irem todos, sempre os três, sempre sem se separarem.

- Apenas não sabíamos se tinhas tempo para vir – disse Helen, num tom amargurado.

- Helen… o que é que se passa? – Chelsea estava a ficar preocupada.

- Não sabes mesmo? – Foi Tony quem lhe respondeu – Ultimamente é como se nós nem existíssemos.

- O quê?! Do que é que estás a falar?

- Desde que aquele rapaz, Will, apareceu na escola que andas diferente – Afirmou Helen – Não sei se gostas dele ou alguma coisa, mas isso não te dá o direito de nos tratares como andas a tratar – Chelsea ficou pasmada. Ela não sabia o que andava a fazer de errado.

- Helen, eu…

- Andas distante – interrompeu-a Tony – Andas distante, passas quase todo o teu tempo com ele, dás-nos respostas vagas.

- Não te preocupas com nada – Tony calou-se para deixar que Helen continuasse –, estás afundada em negativas e não queres saber disso para nada, e… estás apenas… não és como costumavas ser. Já nem te estou a reconhecer Chelsea.

Sim, Chelsea andava um pouco mais afastada dos amigos ultimamente. Antes eles faziam tudo juntos, e agora Chelsea tinha um segredo que não lhes podia contar e isso fazia como se não soubesse como agir ao pé deles. Ela odiava mentir-lhes, eram os seus melhores amigos desde que andavam de fraldas, mas não tinha outra solução. E por isso talvez, involuntariamente, se tenha começado a afastar sem dar conta. No entanto, nunca quis chegar a este ponto. Apenas não sabia o que fazer com o facto de ter agora uma vida da qual ninguém pode descobrir nada.

- Malta, ainda sou eu – garantiu ela, com um nó na garganta.

- A não partilhares as coisas connosco? A trocares-nos por aquela gótica e pelo Will? Não eras assim – disse Tony.

- Não vos troquei! – Chelsea levantou um pouco a voz, mas não muito – Não troquei. Eu adoro-vos malta, eu…

- Está a escurecer – Helen interrompeu-a com uma voz triste, o que magoou Chelsea – Vou embora. Adeus Chelsea – aquele “adeus” não soou igual a todos os mil e quinhentos ditos antigamente. Aquele fez com que Chelsea se arrepiasse, deixando-a mal ao ponto de nem sequer responder. Ficou imóvel, encostada ao muro de uma casa, vendo os dois amigos a afastarem-se dela sem mais nenhuma palavra. 

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