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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 20.03.13

Capítulo 6

A Força de Querer * Parte 1

 

Desta vez Chelsea não observava apenas aquela bela guerreira com as vestes roxas e a máscara preta na face. Desta vez estavam mesmo frente a frente. A Guerreira Defensora contra o Oculto era algo mais alta que Chelsea, e tinha também um corpo mais maduro. Era mais velha poucos anos. A rapariga dos caracóis ruivos queria falar com ela. Perguntar-lhe coisas sobre o que faz ou o porquê de ter sido escolhida para ser a sua sucessora. Mas perante aquela figura nada conseguia dizer. Estava embasbacada. Estava acostumada a vê-la lutar com os demónios. A esquivar-se graciosamente das investidas dos inimigos e sempre com graça e pose. Costumava vê-la vencer as batalhas sem nunca sofrer uma má queda ou fazer má figura. E depois salvava os inocentes. Os pobres coitados apanhados no meio dos planos da Escuridão. Mas não desta vez. Desta vez encontravam-se ambas no meio do bosque por detrás da casa de Chelsea, ambas sozinhas, ambas em silêncio. Não haviam monstros, ou inocentes a precisarem de protecção. Nem o vento se fazia passar por aquele sítio. Era como se apenas existissem as duas no mundo. Nada mais, nada menos. Chelsea observou-a bem. Como a admirava. Tão forte e corajosa, tão bonita e graciosa. “Completamente o contrário de mim”, pensava ela. E a Defensora também a contemplava. Enquanto a olhava relembrava-se dos seus próprios anos de juventude. Dos ganhos e das perdas. Do auge da adolescência e das asneiras que nunca ninguém sabia que tinha feito. Foi ela quem deu o primeiro passo. Levou calmamente a mão à máscara que lhe escondia o rosto e tirou-a, puxando-a para cima e deixando-a depois cair no chão. Chelsea ficou embasbacada e aproximou-se para ver melhor. Tinham os mesmos olhos. Verdes esmeralda. E o cabelo tinha a mesma tonalidade, apesar do da Defensora ser completamente liso. Mas o de Chelsea também ficava assim quando se transformava. As linhas do rosto da Defensora eram uma versão mais madura e adulta das de Chelsea, e quando sorriram, era como se estivessem de frente para um espelho.

- Mas como? – Perguntou a rapariga dos caracóis e das calças de ganga.

- Como somos iguais? – Chelsea assentiu, e a Defensora sorriu – É simples. Tu e eu, nós, somos a mesma pessoa. Tu és eu. Renascida. Noutra vida. E no entanto… na mesma vida de sempre.

- Não entendo – Chelsea abanou a cabeça e desviou o olhar para o chão. Como podia ser ela aquela mulher tão graciosa e poderosa? – Não é possível.

- Não somos tão diferentes Chelsea – garantiu-lhe a Defensora, mostrando-lhe um carinhoso sorriso.

- Mas tu és tão forte… e bela… és perfeita e poderosa – enumerou Chelsea.

- Mas nem sempre o fui. Sei que estás confusa. E lamento que estejas a passar por tudo isto. A solidão sempre foi o que menos gostei em tudo. As coisas vão melhorando com o tempo, prometo.

- Mas eu sou um desastre – admitiu-lhe a rapariga, corando um pouco – Cada vez que vejo um demónio… eu fico com tanto medo, só quero fugir e deixar tudo o resto para trás.

- Mas não o fazes. Isso é o que te faz ser especial. A força, os poderes, a coragem… está tudo aqui – a Defensora pousou a mão no peito de Chelsea, por cima do coração, e sorriu-lhe – Dentro de ti. No teu coração, na tua alma. Sempre esteve. Sempre estará. Vais descobrir os teus poderes com o tempo, e vais aprender a controlá-los naturalmente. Tudo o que tens que fazer é querer, e acreditar em ti.

- E se eu não conseguir? E se fizer asneira? E se não for a verdadeira Defensora?

- Não vais fazer asneira. És eu. Tudo o que eu fui, tu podes ser. Tens tudo o que é preciso. Isto vai-te ajudar a compreender melhor. Somos apenas tão fortes quanto os nossos corações puros, nunca te esqueças Chelsea.

Um livro começou-se a formar nas mãos de Chelsea. Era de pele e roxo acinzentado, e tinha escrito numas letras grandes e gordas, pretas: “A Defensora – Lendas”.

 

Chelsea abriu os olhos lentamente e respirou fundo. Não tinha tido o mesmo sonho de sempre. Este parecia-lhe mais real. Como se de facto tivesse estado frente-a-frente com a antiga Defensora do Oculto. E estranhamente, ela acreditava em tudo aquilo que tinha ouvido no seu sonho. Era demasiado verdadeiro para não acreditar. Quando se voltou de barriga para cima nem teve tempo para pestanejar, pois um vulto pesado caiu-lhe exactamente em cima da barriga, fazendo-a estremecer e empurrá-lo para longe, sobressaltada. Tinha-a aleijado. O vulto caiu no chão e fez um pequeno estrondo. Chelsea ajeitou-se e espreitou de cima da cama. Era um livro com a capa roxa acinzentada. “A Defensora – Lendas” era o seu nome. Chelsea engoliu em seco. Agora sim, não havia como não acreditar no seu sonho.

- Chelsea, que foi isso? – Ouviu a sua mãe gritar. Margaret Burke encontrava-se na cozinha quando tinha ouvido o estrondo que o livro fizera ao ser mandado para o chão.

- Nada! – Gritou Chelsea, apressando-se a levantar-se para ir agarrar no livro. Voltou a sentar-se na cama, com ele pousado sobre as pernas cruzadas, a observá-lo bem. O sono tinha-lhe passado em questões de segundos. Abriu o livro e desfolhou-o rapidamente, agora não tinha tempo de o ler convenientemente. Enfiou-o na mala que levaria para a escola e foi-se despachar para não chegar novamente atrasada. Durante todo o tempo que levou a ficar pronta, e até pelo caminho até à escola, Chelsea não conseguiu pensar em mais nada além do sonho e do livro, e de como podiam estar relacionados. Pensou em perguntar a Will, mas logo tirou essa ideia da cabeça. Havia de conseguir sozinha, não precisava da sua ajuda. Era o seu orgulho quem lho afirmava.

Quando deu o primeiro toque de entrada ainda ela estava a metade do caminho, por isso chegou mais uma vez tarde às aulas. Sentou-se no seu lugar, e em silêncio tirou as coisas da mala, incluindo o livro que tão misteriosamente lhe tinha caído literalmente em cima. Começou a lê-lo, mesmo em plena aula de Filosofia. Chelsea nunca gostou de ler, ainda não tinha pegado nos livros que Will lhe dera sobre os seres sobrenaturais, mas este livro em particular intrigava-a. Esperava que lhe dissolvesse algumas das muitas dúvidas que ainda tinha.

Abstraindo-se de tudo, começou a mergulhar na história que aquelas palavras contavam. “Muitas lendas existem sobre heróis e heroínas que salvam o mundo do caos. Mas poucas falam na mais poderosa de todos eles. A Guerreira Defensora contra o Oculto. A sua data de nascimento é desconhecida porém a sua história de morte é quase tão famosa quanto os seus poderosos poderes e capacidades”, ia ela lendo.

E continuou por aí durante todo o resto da aula. No intervalo ficou fechada na sala, ainda a analisar aquele livro, a tentar entender tudo o que lhe tinha falhado. À medida que ia avançando ia-se sentindo tanto maravilhada como horrorizada. Maravilhosa pela grandiosidade da bela Guerreira Defensora do antigamente, e horrorizada quando pensava na possibilidade de poder ter que combater algumas das coisas que ela combateu. O que a Guerreira lhe dissera no sonho ainda lhe remoía a cabeça, e a um certo ponto fechou o livro e ficou simplesmente a pensar. “Mas se eu sou ela… porque é que não consigo ser assim?”, perguntava-se ela vezes e vezes. Como é que pode ser a reencarnação de uma poderosa salvadora quando tem medo de tudo e mais alguma coisa?

Decidiu que ia treinar. Os poderes, principalmente.

A manhã de aulas acabou depressa, e felizmente à tarde não ia ter nenhumas, por isso podia fazer o que bem lhe apetecesse. Quando chegou a casa assustou-se ao ver o seu pai a ler o jornal, no sofá da sala, quando supostamente ninguém estaria em casa.

- Assustaste-me! – Queixou-se ela, rindo-se em seguida – O que é que estás a fazer em casa?

- A pensar… - Norman respondeu-lhe vagamente, e como notou a curiosidade da filha decidiu dizer-lhe algo mais – Sabes da história da Defensora do Oculto?

- Sim… - Chelsea respondeu a medo. Já sabia que o pai não aprovava, e agora nem imaginava no que estaria ele a armar.

- Tenho posters a serem espalhados neste preciso momento. Estou a convocá-la para um encontro na Praça Pública, no Largo da Câmara Municipal.

- Mas porquê? – Chelsea não sabia de nada disto, e não estava a gostar do rumo que a conversa levava, mas não o podia mostrar. Tinha que dar o seu melhor para que o xerife seu pai não desconfiasse de nada.

- Porque o que ela está a fazer é errado. Faz justiça com as próprias mãos. Não age de acordo com a lei. Heróis há muitos, se quer ajudar que se junte à polícia.

- Então estás a preparar uma armadilha – murmurou-lhe a filha, estupefacta.

- Há algo nela que é demasiado estranho. Não tenho um bom pressentimento.

- Pois bem… boa sorte pai.

Chelsea deu-lhe um beijo na bochecha e subiu para o quarto, apressada. “Nem por sombras apareço naquela convocação”, pensou para si própria, “Hoje nem sequer me transformo, não quero correr riscos”.

Almoçaram os dois calmamente, e depois o xerife Burke voltou ao trabalho e Chelsea apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo e ajeitou o pendente, pendurado ao seu pescoço. Agarrou no livro “A Defensora – Lendas” e saiu em direcção ao bosque, onde mais cedo tinha pedido a Cassie que a encontrasse.

Caminhou até à pequena clareira em que ultimamente treinava, e sentou-se numa pedra grande à espera que a amiga aparecesse. Entre pensamentos sobre o rapaz misterioso e os sonhos e o livro, a mente de Chelsea navegou até aos seus melhores amigos, com quem já não falava há alguns dias. Quando se viam na escola, desviavam os olhares, e de resto evitavam encontrar-se. Chelsea detestava isso, mas não sabia como fazer as pazes com eles sem lhes contar de tudo.

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