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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 27.03.13

Capítulo 6

A Força de Querer * Parte 3

 

Chelsea encheu os pulmões de ar e levou a mão direita ao pingente que lhe repousava no peito, apertando-o. Na verdade ela nunca teria uma escolha. Somos quem somos. E mesmo que quisesse fugir, Chelsea nunca conseguiria deixar um inocente magoar-se.

A brilhante luz roxa começou a percorrer todo o corpo de Chelsea até a tornar na Defensora do Oculto, com a túnica roxa escura, tal como os calções que ultrapassava, e umas botas pretas, de cano alto e rasas. Sentia a máscara a proteger-lhe a identidade e tão depressa como apareceu, a luz dissipou-se. Correu até ao arbusto, viu um homem no chão, um perfeito desconhecido, e um outro levantando. Quando o segundo homem se voltou para ela, a Defensora do Oculto viu-lhe uma cicatriz que lhe ocupava toda a bochecha esquerda, e também que usava uma pala preta a tapar apenas um olho. O homem era magrinho e tinha uma barba de três dias, e umas roupas velhas e usadas.

- Ora, ora, ora – murmurou ele, esticando o dedo indicador a Chelsea e sorrindo com a sua boca desdentada – A famosa Defensora do Oculto…

Ele era arrepiante. A situação não a favorecia. Mas mesmo assim, Chelsea acreditava. Sentiu uma força enorme que a fez acreditar em si e que conseguiria sobreviver.

- Não te vou deixar magoar esse homem – disse ela, tão firme que se surpreendeu. O homem que estava no chão começou a arrastar-se para longe, enquanto admirava a figura da sua salvadora.

O demónio abriu um sorriso e quando voltou a esticar o dedo um raio saiu dele, indo em direcção a Chelsea. Esta deu um salto para se desviar, e ao contrário do que esperava, não caiu. Sentiu-se leve. Como uma pena, ou um pedacinho de algodão. Sem se aperceber do que fazia deu um salto mortal para trás e ficou perfeitamente bem apoiada num ramo de uma árvore. A antiga Defensora tinha razão, era simples usar os poderes, era apenas preciso acreditar neles. Confiar em si. Estava-lhe no sangue. Chelsea sorriu. Olhou para a sua mão e desejou com todas as forças conseguir mover as coisas com a mente com a mesma facilidade com que tinha levitado e subido até ao ramo da árvore. O demónio mandou mais um raio, que embateu na árvore dois segundos depois de Chelsea saltar para o chão. Ela aterrou perfeitamente, como se saltasse de um degrau. Simples. Fácil.

- É tudo o que tens? – Provocou ela.

- Já vais ver! – Ele, cheio de raiva, atirou-lhe com mais um raio, mas Chelsea apenas fez um gesto com a mão e o raio voltou para trás, mandando-o para vários metros atrás, fazendo-o cair no chão. Não o matou, mas não o deixou muito bem. Ele levantou-se, com a raiva latente no olhar, e cambaleou para a frente.

Chelsea mal podia acreditar no que tinha feito. Mas sentia-se bem. Aterrorizada, mas bem.

- Espantoso – murmurou ela, sem que ninguém ouvisse.

- Gorman – disse-lhe o demónio – Decora o nome… um dia, virei por ti.

E desapareceu. Evaporou-se. Chelsea ficou perplexa, e demorou poucos segundos a mentalizar-se do que tinha acontecido. Aparentemente já tinha feito um inimigo, além de todos os outros.

- E eu a pensar que precisavas de ajuda – os olhos da Defensora do Oculto viajaram depressa até ao cimo de um monte de pedras grandes que enfeitavam o parque, e viu o rapaz que a salvara no outro dia. A roupa escura, a capa, a máscara – Adeus.

- Espera! – Gritou-lhe. Ele voltou-se e Chelsea correu um pouco, ficando poucos metros afastada – Eu… obrigado – O rapaz assentiu com a cabeça – Por que é que me ajudas? Como te chamas?

- Já disse que não sabia. E não o vou dizer. Adeus, Guerreira Defensora.

O rapaz deu meia volta e saltou da pilha de pedras. “Ele levitou”, pensou Chelsea automaticamente. Nunca ninguém conseguiria saltar aquilo tudo se não tivesse uma ajuda, sem se magoar. Chelsea ainda rodeou as pedras, mas ele tinha desaparecido. Apenas depois se lembrou do pobre homem que tinha sofrido o ataque de Gorman, e voltou-se para ele rapidamente. Ainda sentado no chão, o homem olhou para Chelsea com admiração, e começou a levantar-se lentamente.

- Papá, papá! – Chelsea voltou a cabeça e viu uma rapariga pequena a sair de trás de uns arbustos, e a correr em direcção ao homem, abraçando-o com força em seguida.

- Obrigado – disse ele, para Chelsea, beijando a cabeça da rapariga que tinhas nos braços em seguida – Já está tudo bem, o papá está bem. Oh, obrigado.

Chelsea sorriu, e aí ela percebeu. O que acabou de fazer podia meter bastante medo, podia ter bastantes riscos, mas também dava uma grande satisfação ao ver o sorriso nos lábios das pessoas. Ela não ia fugir mais. Sabia quem era. Não era um engano. Ela é a Guerreira Defensora contra o Oculto, e nesse momento, finalmente começou a aceitá-lo.

- Tome conta de si – disse ela, para o homem, sorrindo e virando costas para começar a correr. Havia mais um sítio onde tinha que ir. Não ia fugir nem esconder-se. As pessoas iam começar a ter que se habituar à presença da Defensora do Oculto em Diamond City.

Correu por algumas ruas, e depois parou e olhou para cima. “Não seria perfeito se…”, e como pensou, fez. Chelsea subiu para um dos telhados e começou a correr por eles, saltando no intervalo entre prédios. Às vezes até gritava ao mesmo tempo que se ria. Dava-lhe uma sensação de libertação incrível. Afinal levitar não era difícil. Era como ela queria, tão natural quanto respirar.

Parou no cimo de um prédio e observou todas as pessoas lá em baixo. O relógio da Câmara Municipal marcava cinco horas e dezassete minutos, e as pessoas ainda pareciam mais impacientes do que quando Chelsea tinha passado por lá mais cedo. Ao lado do seu irmão e de PJ viu também Jensen, e mais afastados estavam os seus melhores amigos e, no meio de mais pessoas, encontrava-se agora Cassie. O primeiro a notar pela sua presença foi Will, que abriu a boca, estupefacto. Aos poucos as pessoas começaram a aperceber-se de que ela estava no topo do prédio, na lateral do palco, até que o seu pai e os outros polícias também se voltaram para a ver.

- Vieste! – Gritou o xerife Burke – Porque é que não desces para aqui? Gostava de ter uma conversa contigo.

- Não quero problemas – gritou Chelsea, para que todos ouvissem – Sou a Defensora do Oculto, não tenho nenhum interesse em lutar contra a polícia, mas também não me vou juntar a ela.

- Então estás contra nós – retorquiu-lhe o pai, ignorando com quem falava.

- Xerife Burke, com todo o respeito… o que eu faço, não é do interesse de ninguém além do meu. Se tiverem sorte, provavelmente nunca me verão novamente. Se não tiverem, vou-me garantir de que faço todos os esforços para que tudo corra bem. Vim para esclarecer que não vou a lado nenhum. Agora que já esclareci… aparecerei quando precisarem de mim.

Chelsea começou a fazer o caminho invertido, voltando a correr e a saltar por cima dos prédios, perante o olhar orgulhoso de Will. Desta vez ele tinha conseguido perceber porque fora ela a escolhida. Pela primeira vez, percebeu porque era especial. 

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