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DDO: Primeira Chamada

por Andrusca ღ, em 08.04.13

É um bocadinho maior, mas não sei se mereciam, hum... digam-me o que acharam, sim?


Capítulo 8

O Primeiro Príncipe * Parte 2


Os pais de Chelsea tinham ido trabalhar na mesma. O seu pai raramente tinha folgas, e a mãe não tinha dias certos para fechar a loja.

Jensen desceu as escadas com Chelsea descalça e toda despenteada atrás dele e virou para a cozinha. Chelsea ainda lhe acertou com umas das almofadas do sofá, até que teve uma ideia melhor. Com a mente, moveu o tapete em que Jensen estava em cima e fê-lo deslizar um pouco, fazendo com que o rapaz caísse no chão. Chelsea desatou a rir, tal como PJ e Richard, que tinham chegado a tempo de ver esta última cena.

- Deus castiga! – Disse Chelsea, passando ao lado de Jensen e seguindo para a cozinha para comer qualquer coisa. “Já que tenho estes poderes ao menos aproveito. É bem feito!”, pensou ela, presunçosa.

Jensen começou a resmungar sozinho enquanto se levantava, e PJ e Richard ainda estavam perdidos de riso. Chelsea começou a pôr cereais numa tigela, não tinha fome por isso não ia comer nada mais elaborado. Foi buscar o leite ao frigorífico, e quando voltou para ao pé da bancada já lá estavam os três rapazes.

- Não tivemos nada a ver com isto – disse PJ, falando por ele e pelo irmão da ruiva – Pensávamos que ele só vinha buscar água para beber.

- É verdade, é verdade – apressou-se Richard a dizer.

- Mas que já estava na altura de levantares, estava – murmurou Jensen, ainda com cara de amuado – Oh caracolinhos de fogo, lindo pijama. Sempre amei extraterrestres.

- Pff, vou já queimá-lo – disse Chelsea, fazendo com que os outros dois recomeçassem as gargalhadas, enquanto passava pelos rapazes e voltava a subir em direcção ao quarto. Entrou e fechou a porta, sentando-se depois de pernas cruzadas na cama, a comer os seus cereais. Já faltava pouco para a uma da tarde, e ela tinha coisas combinadas com Helen e Tony. Foi tomar um banho antes que começasse a fazer a digestão e depois escolheu uma roupa simples para vestir. Eles iam estudar para a Biblioteca Municipal, cujo único dia de encerramento era à terça-feira.

Quando acabou de se arranjar, colocou os livros numa mala e saiu de casa, despedindo-se do irmão e dos amigos.

Caminhou pelo Largo da Câmara até quase à rua onde o velho cemitério tinha lugar, e depois voltou para um sítio em que tinha sido um antigo filme filmado. Quando começou a avistar a Biblioteca Municipal, ao longe, começou a diminuir a velocidade do passo. Ainda era cedo, os amigos ainda iam demorar. Acabou por decidir sentar-se num banco, à sombra, perto da porta da biblioteca. O dia estava extremamente quente, e Chelsea sentia-se algo desconfortável. Nunca fora uma rapariga de gostar do frio, mas hoje sentia-se diferente. Era um mau pressentimento.

Viu os amigos a chegarem ao longe, e acenou-lhes. Entraram na biblioteca juntos e em silêncio, e logo Helen ocupou uma das mesas rectangulares ao pé de uma grande janela, e com cadeiras almofadadas em todos os sítios à volta. Tony seguiu-lhe o exemplo, mas Chelsea ficou de pé a observar o local. Tinha sentido um calafrio ao entrar nele. Isso não podia ser bom.

As coisas estavam calmas na biblioteca. Estava tudo silencioso, à excepção de alguns sussurros aqui e ali e das esferográficas a fazerem o seu barulho por estarem a escrever. Havia pessoas de roda das estantes a ler livros, e outras sentadas a estudar. Várias mulheres e poucos homens rondavam a biblioteca para se certificarem de que tudo estava bem.

- Não te sentas? – Perguntou Helen.

Chelsea respirou fundo e pousou a sua mala por cima da mesa. Por alguma razão estava a começar a ficar com calor a mais, e estava a tornar-se mais difícil de respirar.

- Vou à casa de banho – anunciou, dirigindo a atenção aos amigos momentaneamente – Volto já.

Começou a afastar-se lentamente e passou pelas estantes de História da Arte e Poesia Estrangeira, seguindo para o corredor que dava às casas de banho. Entrou na das mulheres, que como quase sempre se encontrava vazia. Abriu a torneira e um dos lavatórios e pôs as mãos juntas em concha por baixo, levando depois a água à face. Fez isto repetidamente até se sentir menos mal disposta. Ainda pensou que fosse vomitar, que talvez tivesse apanhado um vírus, mas não. Eram apenas calores, nervos sem qualquer razão aparente. Um sexto sentido.

Sentiu outro calafrio assim que abriu a porta da casa de banho, e por pouco que não caía para o chão. Engoliu em seco. Agarrou no telemóvel que tinha no bolso das calças e pôs o número de Will a chamar. Da última vez que se tinha sentido assim tinha sido no bar, na noite em que salvou Cassie de uma demónia. E isso fazia-a temer que algo de mal se estivesse a passar.

Will atendeu após o quinto toque.

- “Está tudo bem?” – Perguntou logo ele, apreensivo.

- Estou maldisposta. Will, não disseste que era uma maneira de me indicar que algo mau ia acontecer? – Perguntou Chelsea.

- “Onde estás?” – Ela não gostou do tom da voz dele, pois confirmou-lhe tudo o que suspeitava.

- Na biblioteca… mas posso ir ter contigo, estás em casa?

- “Vem depressa”.

Will desligou, e Chelsea tentou recompor-se o suficiente para ir até ao pé dos amigos e lhes mostrar que não precisavam de ficar preocupados.

- Mas tens a certeza que estás bem? – É claro que Helen não ficava descansada.

- Tenho. Estou só um pouco maldisposta, isto passa Helen – insistiu a rapariga dos caracóis ruivos – Fiquem, estudem… eu fico bem.

- Não queres mesmo que te leve a casa? – Perguntou Tony, pela milionésima sétima vez.

- Não. Até amanhã.

Chelsea agarrou nas suas coisas e caminhou para fora da biblioteca. “Que desperdício de tempo”, lamentou-se, ao mesmo tempo que ficava preocupada com o que estaria prestes a acontecer. Will dissera-lhe que não acontecia sempre, mas que algumas vezes era provável que ela sentisse o perigo antes de ele aparecer, e que o nervosismo e a má disposição eram uma maneira de a avisar. Claro que nessa altura Chelsea ficou frustrada, afinal, não poderia sentir apenas uma coisa má? Tinha que se sentir mesmo mal?

Ainda faltavam umas quantas ruas até ao prédio onde Will morava quando Chelsea fez uma curva e embateu num rapaz, sentindo depois uma grande pontada no peito.

- Desculpa – disse o rapaz, agarrando-a e impedindo-a de cair – Estás bem?

Chelsea ia responder, ia agradecer e pedir também ela desculpa, mas quando olhou para a cara do rapaz que a agarrava não conseguiu. Foi como se todos os seus músculos tivessem congelado e não conseguisse fazer nada. O rapaz era possuidor de uns olhos negros lindíssimos, e de um cabelo castanho levemente encaracolado e pouco comprido. Trazia umas roupas pouco usuais vestidas, umas calças escuras apertadas na ponta e umas botas grandes calçadas. Tinha uma blusa cor de vinho, e um casaco por cima, apesar do grande calor que se fazia sentir. Mas essa não era a pior parte. Chelsea ficara sem reacção pois o tinha reconhecido.

- Sim, desculpa eu, estava distraída! – Disse ela, endireitando-se e saindo dos braços do rapaz mortífero que encontrara. “Ele é muito mais bonito ao vivo…”, pensou, ainda que involuntariamente – Obrigada por me teres agarrado. Adeus!

E desatou a correr. A sensação de mau estar tinha desaparecido. Tal como da outra vez. Quando defrontada com o causador da má disposição, esta desaparece por completo. O rapaz não se apercebeu de nada, pensou apenas arrogantemente que Chelsea era apenas mais uma daquelas humanas que ele tanto desprezava.

“C’um caraças!”, pensava ela, enquanto recuperava o fôlego escondida na curva a seguir, “É o coiso… o… aquele, dos aliados das Bruxas. Fogo Chelsea, nunca te lembras de nada!”. Ao longe viu a figura de Will a correr, a aproximar-se dela, e correu até ele impedindo-o de andar mais.

- Pára! – Disse-lhe, agarrando-lhe no braço – Onde é que ias?

- À tua procura – o rapaz parecia assustado, algo que Chelsea nunca tinha visto – Recebi uma informação dos Guardiães. O Kayor foi avistado por um dos nossos videntes a caminhar aqui, em Diamond City.

“Kayor! Então era esse o nome!”, pensou ela.

- Eu sei, acabei de o ver! – Will ficou pálido como o cal da parede, e por momentos Chelsea pensou que ele fosse desmaiar, mas lá se recompôs.

- Estás bem? – Perguntou ele.

- Eu? Tu é que estás da cor de um fantasma – retorquiu Chelsea.

- Temos que ir. Não estás pronta para ele, tenho que te pôr num sítio seguro – Will agarrou na mão de Chelsea e começou a puxá-la. Ela ainda olhou para trás, mas acabou por se deixar levar, apesar de continuar com aquele mau pressentimento.

- Ele está à minha procura? – Perguntou a rapariga enquanto os caracóis pulavam para cima e para baixo à medida que os dois corriam.

- Os demónios andam a desaparecer, por isso a Escuridão sabe que a Defensora voltou. Chelsea – Will parou para recuperar o fôlego, e voltou-se para a rapariga –, faças o que fizeres, mantém-te afastada dele. Ele é muito mais poderoso do que qualquer um dos outros demónios. Quando ele te encontrar, não vai hesitar em aniquilar-te. Por isso não o deixes encontrar-te.

Chelsea engoliu em seco. Aquilo tinha-a assustado o suficiente, ela não ia deixar.

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