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Pétalas de Rosas

por Andrusca ღ, em 14.10.10

Como tive uma pausa apertadinha agora, decidi postar.

Agora a sério, quem é que quer ter MACS a seguir ao almoço?! -.-'

Enfim...

Espero que gostem, beijinhos

 

Capítulo 14

Fantasmas do Passado

 

Não podia continuar em casa, e Dylan sabia isso. Ele obrigou-me a levantar-me, arranjar-me, comer e ir para a escola. Pensei que poderia não ser assim tão mau, afinal faltava apenas uma semana para as férias de Natal. Mas estava enganada. Apesar de já conseguir ficar duas horas seguidas sem chorar, ainda me doía bastante o peito. Era tudo muito recente.

Há três dias que estava fechada em casa, e Darla continua connosco.

Ela também me faz a vida num inferno, parece que repente todas as bruxas maquiavélicas se juntaram e decidiram fazer-me a vida negra.

Talvez sair de casa me ajudasse. Talvez se ficasse ocupada a minha mente não ficaria tão obcecada em Derek, e então, numa remota hipótese, talvez a dor diminuísse.

Mas eram tudo suposições que se revelaram falsas mal saí do carro e vi Gwen, Gary e Verónica sentados nas mesas.

- Já viste até aqui, nem penses que vais voltar a enfiar-te naquele quarto – disse-me Dylan, pondo-se ao meu lado. Incrível, às vezes parece mesmo que este rapaz nos lê os pensamentos.

- Ok – respondi, enchendo os pulmões de ar.

- Queres ir ter com eles? – Perguntou, solidário.

- Não… - eles não querem que vá ter com eles.

- Ok.

Ele pôs o seu braço à volta dos meus ombros e comecei a sentir-me tensa. Apesar do toque quente e um pouco bruto do meu irmão não ter nada a ver com o toque gelado e suave de Derek, foi dele que me lembre logo. Ele percebeu e largou-me.

- Desculpa – disse-me.

- Não faz mal – menti – Quase que não senti nada – e menti de novo.

Entrámos e percorremos o corredor. Dylan deixou-me na minha sala, e seguiu. Ainda faltavam dez minutos, mas entrei logo. Não tinha paciência para barulho, e muito menos para ouvir as pessoas a falarem sobre mim. Não é ser convencida, é realista, porque a ver delas, Derek foi-se embora e quem ficou mal fui eu. O que não é mentira, mas mesmo assim não se deve dizer, ou sussurrar, ou seja o que for que elas fazem. Mas não tive sorte. Assim que me sentei, Lisa entrou e virou a cadeira da mesa à frente da minha para trás, e sentou-se, apoiando os cotovelos na minha mesa. Ficou a encarar-me durante um tempo, mas como viu que eu não ia dizer nada, avançou.

- Se precisares de alguma coisa, é só dizer – disse-me.

- Estou bem – disse-lhe, sem qualquer pingo de emoção na voz. Agora não ia conseguir fingir felicidade, logo qualquer emoção que sairia seria desolação e tristeza, e isso é que não.

- Tens a certeza? É que pareces mesmo mal tipo… há quanto tempo é que não sorris?

- Lisa, eu disse que estava bem.

- Sim, eu ouvi mas… como é que podes estar bem se ele te abandonou?

Soprei de raiva, para não lhe dar um murro aqui e agora, agarrei na minha mala e levantei-me rápido, deixando a cadeira cair para a frente. Saí da sala a andar apressadamente, mas não aguentava os murmúrios, e as pessoas a olharem para mim, e a rirem-se, e tive que correr.

Passei a correr pela mesa onde estavam Gwen e os irmãos de Derek, mas nem lhes liguei. Uma lágrima queria cair, e eu estava esgotada. Chorar desgasta mesmo uma pessoa.

Encostei-me a uma árvore no princípio do bosque e deixei-me escorregar lentamente até ficar sentada. Vi Gwen olhar para mim, mas nem um músculo mexeu para vir ter comigo. Encolhi as pernas para ficarem junto ao peito e abracei-as, deitando a cabeça nelas em seguida. Estava a usar toda a concentração que ainda tinha para não desatar a chorar. E estava a conseguir.

Tinham-se passado apenas quatro dias, mas será que conseguirei mesmo enganar todos e fingir que estou bem? Não, só se for a mim mesma. Posso negar à vontade, mas esta dor nunca sai, nem sequer alivia. Por muito que tente, segurar as lágrimas custa mais que as deixar cair. Deixei de lutar, não me iria pôr em mais sofrimento. Se as lágrimas queriam sair, então eu não as impeço. Pelo menos não agora. Não tenho forças.

Ouvi passos pararem à minha frente, e levantei a cabeça, limpando a cara com as mãos. Gwen estava parada à minha frente, em pé e muito direita.

- Não vens para a aula? – Perguntou-me, com uma entoação que não parecia querer mais conversa que uma resposta directa.

- Não – respondi, enquanto abanava a cabeça.

Ela não me disse mais nada, virou costas e foi-se embora. Na minha cabeça imaginei que gritava por ela, e ela se sentava ao meu lado, comigo a chorar, e me fazia festas na cabeça, enquanto dizia palavras amigas para me fazer sentir melhor. Foi um pensamento tão real tão… sentido, que quando percebi que não era real, ainda desatei a chorar mais.

Como é que ela me pode abandonar num momento destes? A minha melhor amiga?

Em questão de poucos minutos, o pátio ficou completamente deserto, e tudo o que ouvia era os meus soluços.

Levantei-me e entrei para o bosque, tendo o cuidado de ir em direcção contrária à daquele pequeno lago maravilha. Ir lá sem Derek não faria sentido. Seria completamente mortal para o resto de pouca vida que me resta.

Caminhei durante o que pareciam séculos, até que avistei uma casa de madeira. Deu-me um arrepio, mas não me impediu de me aproximar.

A casa sempre tivera um aspecto de abandonada, mas agora está pior. As rosas secaram, a porta está meio aberta, e as tábuas de madeira que tapavam as janelas estão meio arrancadas.

Lembrei-me do que tinha acontecido aqui, e como agora, mesmo sem querer, vim cá parar.

Entrei devagar, e olhei para todos os lados, respirando fundo. Nada iria acontecer. Aisaec não iria voltar, disso posso ter a certeza.

À medida que andava, o chão rangia, e pensei em ir à parte “secreta” da casa, mas não me atrevi. Seriam demasiadas memórias.

Vi uma tábua no chão, e apanhei-a. Sem pensar, dei com ela no pequeno televisor, partindo-lhe o ecrã. Senti uma espécie de libertação. Aproximei-me da mesa ao lado do sofá já roto e velho, e peguei no pequeno pote que lá estava, mandando-o contra a parede estilhaçando-o em mil pedacinhos. Estava a descomprimir a raiva ao partir coisas, e enquanto havia coisas para partir, parti-as. Era como uma espécie de terapia, só que não era só chachada. Funcionava, mesmo que fosse só durante os ténues segundos que demorava a coisa a partir-se e a cair no chão.

No fim deixei-me cair no sofá, esgotada. Havia vidros por todo o lado, e penas da almofada. Consegui demonstrar um sorriso perante a minha própria estupidez, mas era mais de pena que de outra coisa.

O meu telemóvel começou a vibrar, e ao agarrá-lo deixei-o cair. Era Dylan quem me telefonava, mas não era por isso que tinha deixado o telemóvel cair. Deixei-o cair porque foi Derek quem mo dera. Fiquei especada durante segundos sem saber se agarrava no telemóvel ou se desatava a correr, mas acabei por agarrar e atender a chamada de Dylan. Afinal, se já não tinha Derek comigo, teria que poupar as coisas que tenho dele, senão é que deixo mesmo de existir.

- “Onde estás?” – Perguntou Dylan, assim que atendi.

- No bosque, porquê? – Respondi.

- “Faltaste às aulas?” – Boa, agora ele é que vem com o discurso de pessoa responsável.

- Sim, não estava com cabeça para isso – disse-lhe.

- “Ok, mas volta rápido, sabes que agora não podes andar assim no bosque” – o que ele quer dizer é que já não tenho ninguém que me vá proteger – “As minhas aulas acabaram, vem ter comigo ao carro” – e desligou.

Voltei a contemplar a minha “obra de arte”, e veio-me à cabeça a imagem de como a casa estava quando estava a ser habitada por vampiros e aspirantes a vampiros. Não se pode dizer que assim ficou muito pior.

Fiz o que Dylan me disse, e fui ter com ele ao carro. Corri na maior parte do caminho, gostava de levar com o vento na cara, e de cheirar o bosque. Cheirar a relva, as folhas molhadas da chuva… e sentia-me mais liberta.

Quando chegámos a casa, Abby veio logo ter comigo, chateada.

- Quando é que a Darla vai embora? – Perguntou-me.

- Não sei – respondi, sem parar, em direcção às escadas.

- Bem, podes vir ver um filme comigo? – Perguntou.

- Não me apetece – a minha voz não estava nada amistosa, o momento de mini-amostra-de-felicidade já tinha passado há tempo demais.

Comecei a subir as escadas.

- Ok… sabes que as pessoas que…

- Abby! – Gritei, virando-me para ela – Eu não quero saber, ok?! Estou cansada, e quero ir para o meu quarto!

Consegui ver o desapontamento na cara dela, e as lágrimas queriam voltar a cair pelo meu rosto. Agora tornei-me nesta pessoa amarga e estúpida, perfeito.

Abanei a cabeça e subi o resto das escadas a correr.

- Deixa estar, eu vejo o filme contigo – ouvi Dylan gritar.

Estava a poucos passos da porta do meu quarto quando ouvi outra porta abrir-se.

- Chloe! – Exclamou Darla.

Virei-me para ela. Estava outra vez com aquele ar Hollywood demais para o meu gosto, e com a mania que era uma adolescente, com as roupas curtas e maquilhagem.

- O que é que é o jantar? – Perguntou-me – É que eu perguntei à Abby, mas ela disse que não sabia – revirou os olhos – E depois pedi-lhe para me fazer um lanche, uma tosta com queijo e fiambre, de poucas calorias, e uma caneca de chá verde, e ela trouxe-me pão com manteiga, queijo barato e fiambre com mais de uma semana. Ainda por cima trouxe Ice Tea! Crianças…

- Você não tem mãos? – Perguntei.

- Sim…

- Então faça o jantar e coma o que lhe apetecer! Darla, eu não estou com muita pachorra neste momento, por isso não me piore o dia, ou juro que salto de uma janela.

- Isso é sarcasmo?

- Você é que é a actriz, descubra.

Abri a porta do meu quarto e entrei. Ela vinha atrás de mim, mas fechei-lhe a porta na cara.

Mandei-me para cima da cama e abafei um grito com a almofada. Que raiva!

Fiquei imóvel durante uns momentos. Precisava de um sítio pacífico, onde não se ouvisse televisões, ou a voz insuportável de Darla. Precisava de um sítio onde habitasse paz. E precisava de falar com alguém. Precisava que alguém falasse comigo e me dissesse que tudo ia ficar, mas neste momento, ninguém iria fazer isso. Claro que tenho o Dylan mas… não o quero aborrecer com coisas destas. Eu precisava da minha melhor amiga, mas ela virou-me costas.

Levantei-me, peguei no casaco e corri escadas abaixo. Sai sem dizer nada e meti-me no carro.

Conduzi e conduzi, mas não tinha para onde ir.

Quando dei por mim, estava a sair do carro para entrar para o cemitério.

No portão, dos dois lados, estava um vaso com rosas vermelhas. Arranquei uma e segui com ela na mão.

Procurei entre as campas por aquela que queria, e deram-me vários calafrios até lá. Tal como pensara, o cemitério estava deserto e silencioso.

- “Amado marido e pai” – li, ainda ao longe, na campa dele.

Aproximei-me da campa lentamente, como se temesse chegar lá, mas não conseguisse resistir mais. Desde que o meu pai morreu, que só cá vim uma vez. E nem sequer foi por ele. Eu tinha quinze anos, e tinha a mania que andar em cemitérios e vestir-me de preto tinha estilo. Claro que bem cedo percebi que eram tudo tretas.

Fiquei a contemplar a campa durante uns momentos, e depois pousei a rosa à sua frente.

- Olá pai – murmurei – Deus, eu nem sequer sei como fazer isto – disse, ao perceber que não fazia ideia o que fazer.

Há histórias em que as pessoas em problemas vão a cemitérios falar com os entes queridos e têm uma ideia, ou uma revelação, do que fazer a seguir. Algo que lhes diga como agir. Acho que quando cá vim pensei que isso me poderia acontecer, mas aparentemente estava errada, até porque não sei falar com um homem morto.

- Tenho saudades tuas – disse – e adorava que estivesses aqui. A minha vida está uma desgraça pai… está tudo… errado. E nem sequer sei se me consegues ouvir – dirigi o olhar para baixo e caiu-me uma lágrima, directamente para cima da rosa. Limpei a cara e voltei a contemplar a campa – Não sei se acredito em fantasmas. Não sei o que é a morte. Acho… acho que a morte por si só deve ser o começo de algo, mas não sei do quê. Não sei se estás no Céu; ao meu lado mas és um fantasma; ou se não há nada mais e o teu corpo se está só a desintegrar debaixo da terra mas… agora, agora preciso mesmo de acreditar que me consegues ouvir. Porque mais ninguém ouve. A mãe não está cá, nunca esteve, mas tenho a certeza que sabes isso. Eu tento fazer as coisas certas pelos meus irmãos, a sério que sim, mas sinto que a cada dia nos separamos mais. A Abby sabe que eu não ando bem, e cada vez mais me esqueço de lhe dizer como ela é importante para mim. O Dylan anda fantástico, o irmão que eu conheci em tempos. E e e eu conheci em tempos. E isso faz-me perceber que quem agora não age bem sou eu. A minha melhor amiga mal me fala, a Verónica e o Gary detestam-me. De repente cedo a chantagens e minto a toda a gente. E perdi-o. Não. Eu mandei-o embora. Eu mandei o Derek embora. Sei que parece estúpido mas… sem ele, é como se não houvesse oxigénio, como se não conseguisse respirar nem viver, e ter que pôr um sorriso todos os dias é basicamente um inferno. Eu preciso que alguém me diga o que fazer. Preciso de saber o que fazer – baixei-me, sentei-me e encostei-me à árvore – por isso vim a ti. Lembras-te de quando eu te pedia mil vezes por dia para me leres a Cinderela? Eu lembro-me de dizer que um dia queria morar num palácio como uma verdadeira princesa, e encontrar o meu príncipe. Pai, eu não disse isso da boca para fora. Eu quero isso. Eu quero o Derek, quero viver o conto de fadas, mas por alguma razão parece impossível. Por alguma razão o conto de fadas parece não funcionar comigo. Eu quero acreditar que vou ter um “felizes para sempre”, mas é difícil, por tempos não foi, mas agora é. Sinto como… - agora já não conseguia conter as lágrimas, nem por sombras – como se tivesses morrido outra vez e a mãe nos tivesse deixado, só que pior. E eu chorei bastante nessa altura. E agora… agora não posso, porque ninguém me vai confortar nem dizer que tudo vai ficar bem. Eu precisava tanto de ti agora papá… tanto. Ninguém, nunca, me fez sentir como tu fazias. O Derek faz-me sentir perfeita, mas é diferente. Parece que nem as coisas pequenas, como um sorriso ou sentir o cheiro do oceano, que me faziam sorrir sempre, fazem efeito. Agora é tudo escuro e sombrio. É tudo… morto.

Calei-me e fiquei sentada a olhar para a campa. Não sei o que esperava. Não sei se era de algum sinal de uma coisa que provavelmente não existe, não sei se era de sentir a sua presença ou de ouvir a sua voz juntamente com o vento. Mas sei que queria algum sinal. Qualquer coisa que me dissesse que a morte não era o final. Qualquer coisa que me mostrasse que podia sempre recorrer ao meu pai, mesmo ele não estando entre nós.

Mas nada aconteceu.

A noite começou a cair com uma rapidez enorme, e quando dei por mim já estava completamente às escuras. Comecei a ficar arrepiada, mas não era de frio, porque tinha o casaco vestido. Levantei-me e comecei a andar em direcção à saída. Estava a ficar com medo. O cemitério à noite fica assustador, com o barulho dos pássaros e do vento a passar pelos ramos das árvores desnudadas…

Senti uma brisa mais fresca passar por mim, quando estava prestes a atravessar o portão, que me mandou os cabelos para trás das costas. Fez-me olhar para trás e vi que abanou a rosa em cima da campa do meu pai, e não ligeiramente.

Não sei se foi um sinal de que ele me ouvira, ou apenas um fenómeno normal da natureza, mas sei que foi o suficiente para me fazer sorrir – pouco e durante apenas dois segundos, dando logo lugar à expressão triste que agora reina na minha cara.

Meti-me no carro e voltei para casa. Talvez as coisas melhorassem, agora com as férias.

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