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Pétalas de Rosas

por Andrusca ღ, em 15.10.10

Capítulo 15

Amizade

 

A Darla tem-me dado cabo do pouco juízo que ainda me resta. Agora, com o último dia de aulas à porta e as férias de Natal, começo a pensar cada vez mais que ela não se vai embora.

Ainda não comprei prendas nenhumas, não ando com cabeça para isso.

Faz uma semana e três dias desde que não vejo Derek, e estou a começar a entrar no pior estado da depressão, seja ele qual for. Só quero é que me deixem em paz e não me incomodem.

Levantei-me da cama e arrastei-me até ao parapeito da janela. Espreitei para o céu, que estava carregado de nuvens, como sempre.

Vesti uma camisola de lã e umas calças de ganga, calcei umas botas pretas por cima e deixei o cabelo solto. Agarrei no casaco e na mala e desci as escadas.

Darla estava na sala, em frente à televisão, a fazer ginástica. As minhas professoras das duas primeiras aulas avisaram que iam faltar, por isso pude ficar a dormir mais tempo.

Ao passar por Darla, ela reparou logo que ia para a cozinha.

- Querida, podes-me fazer o pequeno-almoço? – Pediu, com aquela voz mais de quem dá uma ordem.

- Ou então podias fazê-lo tu – respondi-lhe, enquanto tirava o leite do frigorífico.

Ouvi passos e quando olhei para ela, estava encostada à ombreira da porta. Já não sei se a trato por você ou tu, depende um bocado do meu estade de espírito.

- Porque é que és sempre uma desmancha-prazeres? – Perguntou – Lá porque estás solteira, não tens o direito de chatear as outras pessoas.

Fiquei logo sem fome e com um nó no estômago, que mesmo que tentasse comer, não deixava.

Voltei a pôr o leite no frigorífico, agarrei na mala e passei por ela em direcção à porta de saída.

- Onde é que vais?

- Para a escola, para onde é que pensas?

- Chloe Bethany Sims, vê bem como falas comigo.

Estremeci ao ouvir o meu nome do meio. Odeio. Que tipo de pais é que metem o nome “Bethany” à filha? E que raio de nome é esse, afinal?

Voltei-me para ela. Estava em pé, a poucos metros de mim, com um ar adulto e controlador, que eu detesto. Ela é mimada e parvinha, não tem nada de adulta, a não ser as rugas e operações plásticas.

Só porque é a melhor amiga da minha mãe, eu não tenho que aturar isto. Mas afinal o que é que ela veio fazer para aqui?

- Darla, eu vou para a escola, e aviso já que é melhor não dizer mais nada, porque não estou com disposição nenhuma.

Voltei-me e saí. Já não há paciência para esta mulher.

Conduzi até à escola, e entrei.

Fui direita à sala, sentei-me no meu lugar e pus-me a ouvir música. Gary entrou na sala pouco depois, e eu olhei para ele. Ele pressionou os lábios um contra o outro com força e inspirou. Sentou-se logo na mesa à frente, a mais longe que havia da minha. Voltei a pousar a cabeça nos braços e a concentrar-me na música, enquanto esperava ardentemente que as lágrimas não caíssem.

A professora chegou, assim como o resto dos alunos. Infelizmente Lisa foi a última a chegar, e o único lugar ainda livre era ao meu lado. Ela sentou-se e virou-se imediatamente para a frente, sem pronunciar nada.

Por momentos consegui prestar atenção ao que a professora explicava, mas depois desliguei-me completamente e comecei a divagar, enquanto olhava para Gary.

Quando tocou, fui a última a sair. Não me apetecia andar pelos corredores sozinha. E muito menos ir almoçar.

Assim que pus um pé fora da sala, pus-me a caminho dos balneários. Gwen, Gary e Verónica estavam os três encostados à parede e eu fiquei vidrada neles. Não conseguia desviar o olhar deles, era impossível. Era como se estivesse hipnotizada. Tinha saudades deles. De tudo. Sem querer, dei um passo na sua direcção, e então olharam para mim. “Acordei” nesse momento e obriguei-me a parar, ainda a olhar para eles. Inspirei e virei para o outro corredor. Eles não me iam querer lá.

Educação Física foi uma pequena tortura, comparado com o tenho passado. Gwen não me falou, óbvio.

Quando me despachei e saí para ir trabalhar, ouvi passos correrem na minha direcção. Voltei-me para trás e vi Lisa a correr na minha direcção.

- Toma – disse-me, entregando-me o meu telemóvel –, deixaste-o no balneário.

- Obrigada – disse-me, pondo-o no bolso. Ela ficou parada a olhar para mim – Mais alguma coisa?

- Sim… desculpa pelo outro dia, foi insensível da minha parte dizer aquilo.

- Ok, estás desculpada.

Abri a porta do carro para entrar e ela continuava especada a olhar para mim.

- Lisa, porque é que não dizes já o que queres dizer?

- Ok… porque é que ele se foi embora?

Senti os olhos a ficarem enlagrimados de novo. Bolas!

- Porque teve que ir – sem dizer mais nada, fechei a porta e comecei a conduzir.

Conduzi até ao Coffee 4 Ever e estacionei. Já cheguei atrasada.

O café estava praticamente vazio, apenas quatro ou cinco pessoas. Fiquei atrás do balcão, inclinada com os cotovelos em cima dele, e a cara em cima das mãos.

Não dei pelo tempo passar, não ligava a nada.

Observava a mesa onde Derek normalmente se sentava. Estava completamente vazia, e isso aumentava o vazio no meu peito. Não sei quanto tempo fiquei a observar a mesa deserta até que um grupo de rapazes se sentou lá. Senti um aperto enorme. “Essa é a mesa do Derek!” gritava, por dentro. Mas a verdade é que não era. Era uma mesa abandonada e deixada a quem lhe pudesse ligar alguma. Era apenas uma mesa, que não deveria ter qualquer valor sentimental. Apenas madeira e metal, e seja lá o que for mais que se usa para fazer mesas.

- Chloe… Chloe… Chloe! – Dei um salto ao ouvir o meu nome pela terceira vez, porque as outras duas mal tinham passado de murmúrios quase inaudíveis.

Voltei-me para trás e vi Keyla, uma colega minha, a olhar para mim, preocupada.

- Estás bem? – Perguntou-me – Chamei-te várias vezes e… estás a chorar?

- O quê?

Só ao levar a mão à bochecha é que vi que uma lágrima me tinha fugido, e limpei-a logo. E eu que pensava que as estava a controlar melhor.

- É o teu namorado, não é? – Perguntou.

- Ex-namorado – corrigi, a custo.

- Ele não vai voltar?

Mas será que já toda a gente em Great Falls sabe que o Derek foi embora?!

- Não – a voz mal me saiu, mas ela ouviu e abraçou-me.

- Lamento – disse-me, ao ouvido.

- Também eu – murmurei, não tanto para ela mas para mim.

Ela largou-me em seguida.

- Queres que os vá atender por ti? – Perguntou, indicando com a cabeça para a mesa onde estavam os rapazes.

- Não. A vida continua – disse eu, apesar de já não acreditar muito nisso –, eu vou.

- Ok.

Peguei no bloco de notas e fui atendê-los. Custou imenso, mas não chorei durante o resto do dia.

Quando cheguei a casa foi como se me tivessem dado o céu. O jantar é que foi o contrário. Sentámo-nos os três a comer, tínhamos encomendado comida chinesa, e quando Darla chegou a casa, armou um escândalo porque não podia comer daquelas coisas, por causa de uma dieta qualquer marada. Já não estava com pachorra nenhuma para as coisas dela, peguei na minha comida e fui comer para o quarto.

Senti-me um bocado mal ao deixar os meus irmãos lá com ela, mas o que está feito, feito está.

Deixei-me de dormir rapidamente.

 

***

 

Estou no Giant Springs Park, e a tarde já vai avançada. Estava completamente vazio à excepção de mim, e então ouvi um risinho vindo da minha direita. Virei-me calmamente, porque conhecia a voz. Era eu. Uma versão mais nova, mas mesmo assim, era eu. Atrás da minha versão com dez anos, vinha um rapazinho moreno de olhos verdes, também da mesma idade, pelo que parece. Estavam de mão dada.

A pequena Chloe sorriu-me, e eu sorri-lhe de volta.

Olhei em volta, e quando voltei a olhar para onde eles estavam, tinham desaparecido. Não sei porquê, mas senti um pânico enorme.

Comecei a correr sem saber para onde, até que ouvi um grito altíssimo vindo da direcção contrária. Corri bastante até finalmente chegar ao pé da rapariga. Estava amarrada a uma árvore, ao lado de rapaz, que além de estar amarrado parecia muito fraco, como se não comesse há dias, o que era estranho porque mesmo agora estava bem.

- Cuidado! – Disse-me a pequena eu.

Virei-me e vi Aisaec. Congelei completamente. Ele levantou o braço, mandou-me contra uma árvore e arrancou a cabeça do miúdo com as mãos, que se desfez em areia em seguida.

Tanto eu como a pequena eu ficámos em lágrimas, apesar de não perceber porquê. Fiquei tão aterrorizada como se tivesse acabado de perder qualquer coisa minha. Como se tivesse perdido o que me fazia viver. A única coisa assim em que podia pensar, era Derek.

 

***

 

Acordei aos abanões, e quando abri os olhos, vi que era Darla quem me abanava.

- Pára de gritar rapariga! – Gritou-me, com uma voz furiosa. Eu não tive reacção nenhum – Já me interrompeste o sono de beleza, se amanhã acordo com olheiras vais ver!

Saiu do quarto apressada e eu segui-a com os olhos. Abby e Dylan estavam à porta.

- Estás bem? – Perguntou-me Abby, depois da “bruxa má do oeste” se fechar no quarto.

- Não sei – na verdade não estava, mas não lhes ia dizer isso. Não outra vez.

- Ok, tenta dormir um bocado mais, ainda é cedo – disse Dylan, fechando-me a porta em seguida.

Voltei a pousar a cabeça na almofada, mas o sono não voltou. O pesadelo não me saía da cabeça.

As aulas custaram imenso a passar, e foram uma seca completa. No fim, todos os professores nos desejaram feliz Natal, e os meus colegas a eles, porque eu não abri a boca para nada. Ontem à noite, depois do pesadelo, desatei num pranto desgraçado, e por isso dói-me a garganta. Se não a esforçar, passa. É sempre assim.

Quando as aulas acabaram, às três e cinquenta, fui direita a casa. Abby só tinha aulas de manhã e já lá devia estar.

Quando cheguei, ela estava em frente à televisão a ver Os Simpsons e Darla tinha saído, graças aos santinhos todos lá cima.

Fui para o quarto e Dylan chegou pouco depois. Ouvi música e li uma revista. Hoje deveria sentir-me mais feliz, por este ter sido o último dia de aulas e ter três semanas para descansar, mas não. As férias não resolvem os meus problemas, e não arranjam o vazio dentro de mim.

Depois do jantar, sentei-me na sala enquanto Abby e Darla se fecharam nos respectivos quartos.

Dylan inclinou-se nas costas do sofá, fazendo-me olhar para ele.

- O pessoal vai-se encontrar no Coffee 4 Ever para celebrar o fim do primeiro semestre, queres vir? – Perguntou – Fazia-te bem.

- Não, obrigado na mesma.

- Tu lá sabes – deu-me um beijo na nuca e seguiu porta fora.

Pouco depois, tocaram à campainha. “Não acredito que ele se esqueceu das chaves…”, pensei.

Levantei-me do sofá e fiquei estupefacta ao abrir.

- Gwen! – Exclamei, sem querer.

Ela ficou parada, a olhar para mim. Tinha uma expressão triste, e olhava-me com aqueles olhinhos de cachorrinha abandonada. Senti uma raiva passageira, quem tinha sido abandonada tinha sido eu!

- Desculpa – pronunciou, a fazer beicinho. Deu para ver que não era falso, o que significava que se tinha passado qualquer coisa – Posso entrar?

- Claro… - desviei-me para ela passar e fechei a porta.

Assim que me virei para ela, fui presa entre abraços.

- O que é que estás a fazer? – Perguntei-lhe, a tentar soltar-me.

- Eu sou tão estúpida! Tu és a minha melhor amiga e eu praticamente abandonei-te, lamento tanto! – Dizia, enquanto me ia abraçando com mais força.

- Pois és – concordei.

Ela largou-me e mandou-me “aquele” olhar.

- O que é que aconteceu Gwen?

- Primeiro tu. Eu sei que não cheguei a perguntar e peço desculpa, mas agora quero saber a tua versão de tudo.

- Hã?

- Porque é que o Derek se foi embora?

Senti de novo o aperto no coração. Mas será que sempre que isto melhora, ainda que minimamente, alguém me lembra das coisas e volta a piorar?!

Ela deve ter visto que eu não queria falar, e ao contrário do que costuma fazer, mudou de assunto.

- Tu queres saber o que aconteceu, certo? – Perguntou, forçando um sorriso – Se subirmos para o teu quarto conto-me.

Respirei de alívio e puxei-a pela mão, escadas a cima.

Entrámos para o quarto e fechei a porta. Sentámo-nos na cama, eu de pernas cruzadas e ela só virada para mim.

- Antes de tudo, porque é que vieste? – Perguntei.

- Porque preciso da minha melhor amiga – disse, fazendo beicinho de novo.

- Pensei que agora fosse a Verónica.

Ela baixou o olhar, mas mereceu ouvi-las. Afinal, ela escolheu-os a eles em vez de mim, e isto não são ciúmes, é a realidade. Ela não pode só vir a mim quando precisa.

- Serás sempre tu – disse, olhando de novo para mim e encolhendo os ombros – Só que às vezes preciso que qualquer coisa me lembre disso.

- E o que é que te lembrou desta vez?

- O Gary.

Estremeci ao ouvir o nome. Ultimamente tudo me lembra Derek, e definitivamente falar dos irmãos dele não ajuda a melhorar isso.

- O que é que ele fez? – Perguntei.

- Não me tentou morder – quase que quis rir com a voz com que ela disse aquilo. Parecia decepcionada.

- E…?

- Nós estávamos… estávamos a chegar à segunda base e ele só… não me tentou morder.

- E isso é mau? – Ok, talvez seja bom ter uma conversa que não seja centrada em mim. Assim ao menos preocupo-me com os problemas dos outros.

- É! Significa que já não anseia pelo meu sangue, que… que já não me quer.

- Ou então aprendeu a controlar-se.

- E se ele já não gostar de mim Chloe? Eu não sou nada sem ele.

A dor no peito voltou e as lágrimas caíram à força toda. “Não sou nada sem ele”, eu sei bem o que isso é. Num impulso abracei-me a Gwen enquanto as lágrimas escorriam, e ela abraçou-me também.

- Desculpa, desculpa, desculpa – dizia ela – Eu não devia ter falado nestes assuntos. Bolas, sou tão parva!

- Não… é… culpa… tua – disse, entre soluços – Eu é que… ando a… chorar… por tudo.

- Se estás tão mal, porque é que não fazes nada? Porque é que não lhe pedes para voltar?

- Porque… não posso! – E as lágrimas ainda vieram piores que antes – Não posso!

- O que é que aconteceu Chloe? Ele magoou-te?

- Não posso falar disso.

- A última vez que me disseste isso descobri que vampiros eram reais. Por favor, não me digas que agora encontraste lobisomens.

Soltei um pequeno sorriso, entre as lágrimas.

- Não. É bom ter-te aqui Gwen…

- Desculpa não ter estado antes.

- Considera feito.

- Essa sensação melhora querida, afinal ainda só passou uma semana e pouco…

- Parece mais uma vida inteira – sussurrei. Não sei se ela ouviu.

 

Então, que tal? Eu não gosto de ver melhores amigas chateadas... e a Chloe precisava de apoio. Que acharam?

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