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Our Scars

por Andrusca ღ, em 14.08.11

Prefácio

 

Um novo começo. É tudo o que quero.

Ir para um sítio novo. Conhecer pessoas novas. Não repetir os erros do antigamente. Cometer novos erros, se tiverem que ser cometidos.

Mas e se esses novos erros forem piores que os anteriores?

É incrível que quanto mais me dizem para me afastar dele, mais o quero conhecer e percebo que não é quem afirmam que é.

É incrível que quanto mais tento não me importar, menos consigo.

De algum modo, ele faz-me querer acreditar que posso ser feliz sem todas aquelas coisas que considerava importantes. Mas até que ponto é que isso pode ser verdade? Como é que sei que não vou estar a virar costas a coisas fixas apenas para estar com ele e que depois isso não acaba de um momento para o outro?

Não o quero perder, mas acho que nunca foi realmente meu.

Sabia que ele me ia meter em problemas, mas não me importei. Agora tenho que me aguentar.

Todos temos as nossas cicatrizes. Aquelas feridas que nunca sararam completamente. Aqueles segredos obscuros que rezamos para que ninguém descubra. De alguma maneira, ele faz com que tudo isso desapareça, e eu gosto do que sinto quando isso acontece.

Nova vida. Novos erros.

 

Capítulo 1

A Mudança

 

Encostei a cabeça ao banco do carro e olhei pela janela enquanto via o sítio em que cresci ser deixado para trás. Suspirei. Isto custava, mas era pelo melhor, isso eu sabia. Noutros tempos teria odiado a minha mãe por me fazer mudar. Por me fazer abandonar os meus amigos, a escola, a minha vida. Mas esses tempos passaram, e novos chegaram. Coisas aconteceram. Coisas que prefiro nem me lembrar, mas que no entanto, me assombram dia após dia. Talvez assim, numa nova cidade, com novas companhias, possa finalmente pôr tudo realmente para trás das costas.

- Não fiques triste – disse a minha mãe, enquanto fazia uma curva –, sabes que eu te adoro, não sabes?

Ela estava apreensiva comigo, e não a posso culpar. Após os mais recentes acontecimentos, até eu estava mais apreensiva comigo. É incrível o quanto um único momento muda a nossa vida para sempre. Incrível como uma má escolha, uma decisão errada feita de cabeça quente, nos traz para uma vida completamente nova e diferente.

- Eu sei, também te adoro – declarei, apertando o cinto com a minha mão esquerda.

Eu sei que grande parte da culpa de nos mudarmos é minha. Bem, minha e do meu pai, mas ele é um assunto proibido desde que aconteceu o que aconteceu. Vamos apenas dizer que é um filho da mãe e que pode ir morrer longe.

Mas isto vai ser uma coisa boa… espero. Vou arranjar novos amigos e esquecer os interesseiros que deixei para trás. Vou entrar numa escola nova em que as pessoas não me vão olhar de lado por saberem de coisas que fiz, e muitas por temerem coisas que pensam que farei.

Não me interpretem mal, eu não era a aberração da escola, muito pelo contrário. A sorte sempre esteve do meu lado. O rapaz mais sexy de toda a escola, e também o mais atencioso, era meu namorado. Todas as raparigas queriam ser minhas amigas, e as que tinham a sorte de conseguir, agiam como se Deus lhes tivesse dado vida eterna. Porque era assim que eu era vista. Como uma Deusa. E depois, de um dia para o outro, passei de Deusa a Aberração. Tudo culpa do homem de quem é proibido falar. Fiz uma asneira, e depois paguei as consequências. Tradução: todos me deixaram.

Tirei o olhar do caminho e voltei o meu pulso direito para cima, passando com os dedos da mão esquerda por ele. As cicatrizes não estavam à vista. Nunca deixaria que fossem vistas. Mostravam o quão vulnerável me sinto, a fraca que sou. Por isso ponho-lhes maquilhagem em cima. Escondo. Finjo que não estão cá.

E a minha mãe concorda. Ela é até a primeira pessoa a fazer para isso.

- Ouvi dizer que o hospital onde vou trabalhar é bom – tentou fazer conversa, mas eu apenas lhe dirigi um sorriso. Não estava com disposição para falar. Não é que não goste de me comunicar com ela, nós sempre nos demos às mil maravilhas, só que… não sei, talvez eu seja o problema.

- Óptimo – forcei a palavra.

- Querida…

- Mãe, não – já sabia o que vinha daí – É só hoje, prometo. Amanhã de manhã vou-me levantar, vou-me arranjar e vou ser a rapariga mais radiante que alguma vez viste. Mas não hoje mãe – hoje o meu humor está como o clima da cidade que deixámos, negro e enevoado.

- Eu detesto ver-te assim tão em baixo. E deixa os pulsos em paz.

Voltei a concentrar a minha atenção no exterior. Estávamos a entrar numa rua que desconhecida, nem tinha dado pelo tempo passar.

Parámos num sinal vermelho, e conforme olhei para o lado vi um repuxo ligado, com água a ser mandada para todos os lados, e mais à frente uma pequena mesa com fotografias e mais fotografias. Eram todas de uma rapariga, mas não conseguia ler nada do que estava escrito. Fotografias, velas… óptimo, ainda agora chegámos e eu já percebi que este sítio ainda me vai deixar mais deprimida.

A minha mãe estacionou o carro à berma do passeio, em frente a uma casa de rés-do-chão e primeiro andar, com colunas de pedra na entrada, e poucas escadas para o patamar. Tinha uma cerca que apenas aparentava ser aberta à frente, que a dividia das outras casas, também elas idênticas umas às outras. Era bonita, não podia negar isso.

- Que achas? – Perguntou a minha mãe, a preparar-se para sair do carro.

- É bonita – respondi.

Assim que pus um pé de fora do carro pude ver pessoas a parar no outro lado da estrada para observarem. E assim que saí inteiramente, pude ver algumas a espreitar discretamente – embora discreto fosse o adjectivo menos correcto para caracterizar o acto – pela janela.

- E as pessoas são… curiosas – Pensei, em voz alta. “Curiosas, para não dizer cuscas”, corrigi, mentalmente.

- Anda lá, é normal estarem curiosas, nunca nos tinham visto cá – desculpou-se a minha mãe, enquanto abria o porta-bagagens – Agora anda, vem-me ajudar a levar as coisas.

Suspirei uma vez mais e assim fiz. Agarrei numa mala em cada mão e caminhei atrás dela. Quando abriu a porta, pousou lá as coisas para ir buscar as outras, mas eu fiquei especada a olhar para o interior da casa. Ainda não estava mobilada, a carrinha com as nossas antigas coisas vinha atrás de nós, já tinha estacionado e os homens estavam prontos para começar a montar as coisas. Hoje ia ser um longo dia.

- Olá – ouvi, por trás de mim. Dei um pulo com o susto e deixei as malas cair, voltando-me em seguida para a pessoa que me tinha feito fazer tal coisa. Era uma rapariga um pouco mais alta do que eu, com umas calças justas e uma túnica colorida, um cabelo com um corte escadeado rebelde, meio arruivado.

- Olá… - murmurei.

Ela sorriu-me e observou-me de alto a baixo.

- Desculpa ter vindo assim, mas… és nova cá, certo? – Perguntou.

- Uau, o que é que me denunciou? A camioneta das mudanças ou toda a gente a encarar? – Perguntei, sorrindo em seguida para disfarçar o sarcasmo. Ela riu-se.

- Não há muitas pessoas novas por cá, é normal que fiquemos um pouco curiosos – desculpou-se – Eu sou a Marissa.

- Dawn.

- Então Dawn, vejo-te no Huntingon High School? – Perguntou.

- Sim… amanhã.

Ela assentiu com a cabeça e foi-se embora. Respirei fundo. Não me pareceu má pessoa, mas de novo, nem os meus antigos amigos pareciam. Certo?

- Fizeste uma amiga? – Perguntou-me a minha mãe, quando chegou ao pé de mim.

- Conversei com ela por dois segundos mãe – disse-lhe, enquanto revirava os olhos.

- Anda na mesma escola para onde vais? – Perguntou, dirigindo a sua atenção a um dos homens que passava agora com a mobília – Isso é lá para cima – informou ela, ao que o homem assentiu e continuou o seu caminho.

- Aparentemente – respondi.

- Bem, vamos mas é arrumar isto, que amanhã temos muito que fazer – afirmou, pondo o seu braço à minha volta para me obrigar a despachar-me.

Pois, amanhã… amanhã ia ser o primeiro dia dos fingimentos. Fingir que aquilo nunca aconteceu, fingir sorrisos todo o dia, fingir que me interesso pelas conversas…

 

Então que tal?

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