Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Our Scars

por Andrusca ღ, em 15.08.11

Capítulo 2

Nova Escola

 

Abri os meus olhos e suspirei. O despertador ainda não tinha tocado, mas eu já não aguentava mais tempo na cama. Estava a desesperar. Voltei-me de barriga para cima e mais uma vez observei aquelas cicatrizes que tinha como recordação da minha cobardia. O tom ia mudando, já estiveram mais notáveis, mas mesmo assim, estão cá. As pequenas cicatrizes cor-de-rosa claro, que tanto faço questão de tentar esquecer. Voltei-me mais uma vez e observei o meu novo quarto. Estava idêntico ao outro, os mesmos móveis, o meu familiar cortinado meio roxo claro já pendurado, a colcha na cama que me lembro de ter desde sempre… o meu computador portátil, branco, já pousado na minha antiga secretária… sim, tudo como antigamente. Mas não era assim que eu queria que fosse. Eu queria esquecer o antigamente e concentrar-me no agora. E esse processo começa hoje.

Levantei-me e pus a água a correr na banheira, para aquecer, na casa de banho do meu quarto. Depois de um duche relaxante, escolhi a roupa. Estava calor, por isso optei por uns calções de ganga curtinhos e um top lilás, que condiz com os meus ténis All-Star. Quando me vesti, regressei à casa de banho para pentear os meus longos cabelos encaracolados, negros como a noite, e para aplicar um pouquinho de maquilhagem. Uma sombra que me fizesse realçar os olhos azuis, um pouco de rímel para alongar ainda mais as minhas longas pestanas, e um pouco de gloss para dar alguma graça à minha expressão. É o primeiro dia na nova escola, e não me posso descuidar. Em seguida peguei na base, no tom da minha pele, e apliquei-a na zona das cicatrizes. Maquilhagem e pulseiras, sempre as minhas maneiras de fazer isto desaparecer por um par de horas. Afinal, o mundo é feito de aparências, e por isso tenho que ter uma boa. Quando ia a sair da casa de banho os meus olhos voaram até aquele pequeno frasco de comprimidos, em cima da bacia, e voltei a aproximar-me de lá. Peguei nele e abri-o, vendo as pequenas cápsulas, e voltei a fechá-lo e a pousá-lo com força. Eu não preciso de medicamentos. Não estou deprimida. Está tudo acabado. Tudo acabado.

Peguei na minha mala prateada, de pôr ao ombro, e enfiei lá os livros da escola, juntamente com a carteira, chaves, e tudo o que iria precisar, para em seguida ir tomar o pequeno-almoço.

- Bom dia! – Exclamei, radiante, quando cheguei à cozinha. A minha mãe, que estava voltada para o balcão a fazer uma sandes, voltou-se para mim e franziu as sobrancelhas.

- Quem te viu ontem e quem te vê hoje – murmurou, observando-me de alto a baixo – Que te aconteceu?

- Nada – afirmei, indo buscar sumo de laranja ao frigorífico para pôr num copo.

- Pois sim. Querida, se quiseres que te vá buscar a qualquer altura, é só dizeres. Tenho a certeza que há mais enfermeiras no hospital e nem dão pela minha falta, se…

- Mãe, pára – pedi, voltando-me para ela e respirando pesadamente – O que é que disseste quando nos mudámos para cá?

- Que íamos começar de novo – assenti com a cabeça.

- E que não íamos deixar o passado influenciar as nossas escolhas – completei – Mãe, eu estou bem, prometo. O que eu fiz, eu…

- Está bem – engoli em seco.

Sempre que entrávamos neste assunto, ela cortava-me a palavra. Não queria entrar nele, e como eu também não, não insisto. Em vez disso, bebi o meu sumo e agarrei numa maçã, para comer pelo caminho.

- Tomaste os medicamentos? – Perguntou.

- Sim – menti – Vou andando, não me quero atrasar no primeiro dia – despedi-me dela com um beijo e agarrei nas minhas coisas, saindo em seguida.

Quando fechei a porta da entrada, por trás de mim, é que reparei que não fazia a mínima ideia de como ir para a escola. Olhei em volta, curiosos para perguntar não faltavam. Se ganhasse um dólar por cada par de olhos que tenho colados a mim, podia ir comprar roupa nova nos próximos fins-de-semana.

- Dawn, olá! – Ouvi. Olhei para o lado e vi Marissa, com uma mini-saia preta e uma blusa amarela, e umas sandálias. Ela estava absolutamente magnífica.

Não me apetecia sorrir, não me apetecia conversar, e muito menos fazer amizades. Mas o passado é o passado e eu prometi-me que ao menos ia tentar. Além disso, se não conseguir, e a minha mãe perceber, ela enfia-me aqueles compridos pela garganta abaixo todos ao mesmo tempo.

- Marissa, bom dia – saudei, sorrindo-lhe. Não saiu um sorriso torto, eu sempre tive uma facilidade enorme em sorrir quando não queria – Vais para a escola?

- Sim, anda.

Até foi bom ela ter aparecido, não me estava a apetecer nada ir ter que ir perguntar o caminho ao rapaz todo vestido de preto à minha esquerda, ou ao da direita, com um cabelo à Bob Marley.

No pouco tempo que nos levou a chegar à escola, ela nunca se calou. Mas nem um segundo. Lembrava-me de mim, na verdade. Eu era assim. Sempre bem arranjada, todos os olhares sobre mim, sem vergonhas, sem arrependimentos. Sempre na conversa e na brincadeira. Às pergunto-me onde abandonei essa rapariga.

Quando dobrámos uma esquina finalmente pude observar a escola. Parecia enorme, e tinha um pátio bastante agradável, onde grande parte dos alunos estava na conversa.

- As minhas amigas estão ali – informou Marissa, apontando para três raparigas que, pela minha experiência em ser do género, observavam todas as outras pessoas e comentavam sobre essas. As populares. Bem, é onde me quero encaixar, certo? Tentar uma vida nova, dentro dos padrões da outra. – Tenho que te avisar que elas podem ser um bocadinho…

- Sim, eu conheço o tipo – interrompi, fazendo-a olhar para mim surpreendida.

- Elas vão gostar de ti – garantiu. Claro que iam. Sou bonita, sorridente, e estou arranjada. Além disso, tenho o carácter suficiente para não deixar ninguém enxovalhar-me. E essas são as razões que fazem com que elas gostem de mim. Claro que tenho que ter cuidado, não posso tentar “pisar nos dedos de ninguém”, ou então mais vale cortar… “pára!”, interveio o meu cérebro. Marissa notou que fiquei estranha, e deitou-me um olhar, mas eu disfarcei com um sorriso.

Quando chegámos ao pé das três raparigas, todas me olharam de alto a baixo, como se me estivessem a avaliar. E claro, estavam mesmo.

A que se encontrava no meio, uma rapariga com umas calças justas, corpo de modelo e cabelo loiro comprido e liso, mostrou-me um sorriso que distingui como sarcástico. Eu própria já o tinha usado várias vezes.

- Tu deves ser a rapariga nova – disse ela.

- Sim, ela…

- Sou a Dawn – interrompi a Marissa, que uma vez mais ficou a olhar para mim –, e se quiseres observar melhor, posso dar uma voltinha.

A rapariga sorriu-me e abanou a cabeça.

- Já percebi que não te ficas atrás – murmurou – Chamo-me Claire McLoren.

- Olá Claire McLoren – disse, com tom de brincadeira, ao que ela riu uma vez mais.

- Estas são a Tess – e apontou para a rapariga de cabelos castanhos ao seu lado direito – e a Jill – disse, apontando agora para a rapariga do lado esquerdo.

- Olá – cumprimentaram-me as duas.

- Oi – voltei a dizer.

- Então, de onde vens? – Perguntou Claire. Ia começar o interrogatório, mas tudo bem. Se me safasse, provavelmente entraria para o seu círculo privado e ficava descansada até ao fim do secundário. A história é sempre igual, as personagens é que mudam. E eu, como personagem, mudei. Desta vez não me vou deixar ligar tanto, não me vou aproximar ao ponto de ficar devastada caso algo aconteça.

E assim, comecei a contar-lhes a minha história de vida. Claro que omiti certas partes. Aquelas partes que nunca contarei a ninguém, de certeza. As partes que enterrei e não pretendo desenterrar.

 

Eu sei que a história ainda mal começou, mas que estão a achar?

10 comentários

Comentar post