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Our Scars

por Andrusca ღ, em 16.08.11

Capítulo 3

O Rapaz Misterioso

 

- Ei, quem é aquele? – Perguntei, apontando para um rapaz que acabara de entrar. Jill seguiu o meu dedo com o olhar, e vi-a fazer um trejeito com a boca que me indicou que se calhar devia era ter ficado calada.

- Chama-se Caleb Jackson – informou, enquanto Marissa, Tess e Claire se sentavam.

Olhei de novo para o rapaz. Andava depressa e com o olhar colado ao chão, com o seu cabelo castanho-escuro para a frente, e uma roupa escura. Não era só eu que o observava, todos o faziam, e enquanto uns davam o seu melhor para fugir do refeitório, outros mandavam-lhe papéis e chamavam-lhe nomes. Ele apenas andava. Como se estivesse apático a tudo isto. Mas havia algo mais nele. Algo que não conseguia explicar.

- E? – Perguntei.

- E é tudo – intrometeu-se Claire, com uma voz que dava por terminada a conversa – Apenas certifica-te que ficas bem longe dele. Ele não serve para ser amigo de ninguém Dawn.

- Está bem – respondi.

Ainda estava no meu primeiro dia, mas já tinha dado para reparar quem mandava na escola toda. Claire, sem tirar nem pôr. Tirando a parte em que descobri que ela consegue ser uma estúpida do pior, o dia até está a correr bem. Os professores são simpáticos, os alunos também, e tive a sorte de ter Marissa e Tess em quase todas as minhas aulas.

O rapaz passou ao lado da nossa mesa e deitou um olhar a Claire, que agiu com indiferença. Caleb. Ele não se parece com um típico rapaz do liceu… tem mais qualquer coisa. Mas o quê?

- Que aula vais ter? – Perguntou-me Tess.

Tirei o meu horário da mala e deitei-lhe uma olhadela.

- Biologia – respondi.

- Bem, estás por tua conta – disse ela – Nenhuma de nós tem isso, lamento.

- Não faz mal – sorri –, eu arranjo-me.

Já tinha sobrevivido a uma manhã inteira de apresentações e a uma hora de almoço de fofocas. Acho que não me vou querer matar apenas por ter Biologia sem elas, certo? “E lá estás tu com o querer matar”, repreendeu-me a consciência, o que me fez respirar fundo. Agora sempre que usasse uma expressão desse género ia reviver tudo de novo. Mas também não consigo segurar o pensamento, não tenho culpa. Acho que apenas tenho que aprender a lidar com tudo isto.

- Que tens? – Perguntou Jill.

- Nada – menti, dando o último golo na minha Coca-Cola.

Quando tocou fomos para as nossas salas, mas por azar eu perdi-me a meio do caminho e tive que ir à secretaria perguntar onde ficava a minha sala de Biologia. E como se já não estivesse atrasada o suficiente, ainda estive a ouvir um discurso de como devia respeitar os horários das aulas. Só sei que tretas destas nunca me tinham acontecido.

Quando finalmente consegui chegar à sala, já passavam quinze minutos da hora de entrada, ia levar outro sermão, estava-se mesmo a ver. Respirei fundo e bati, abrindo em seguida.

- Desculpe, Biologia do 11º ano, certo? – Perguntei, tendo a atenção do professor e de toda a turma voltada para mim.

- Menina Dawn Fitzburg, suponho – disse o professor, um homem com um cabelo branco todo despenteado e um bigode cómico. De uma maneira estranha, fazia-me lembrar o Einstein. “Oh rapariga, controla-te”, exigi-me.

- Desculpe o atraso – pedi, mordendo o lábio.

- Entra lá, mas não repitas muitas vezes – assenti com a cabeça e entrei, fechando a porta. Olhei para os lugares, estavam todos preenchidos, menos um. Ao lado de Caleb – Senta-te ao lado do Caleb, e nem quero ouvir discussões, na minha aula são todos iguais.

Mas porque é que eu haveria de discutir? Afinal, era o último lugar que havia, onde é que o professor pensava que lhe ia pedir para me sentar? No chão?

Assenti-lhe com a cabeça e caminhei até ao balcão onde Caleb estava, sentando-me no banco alto ao seu lado, e pondo a minha mala em cima da mesa em seguida. Olhei para ele e sorri-lhe, recebendo um olhar que me fez engolir em seco. Parecia que apenas aquele olhar era capaz de me matar. Senti um arrepio e o meu sorriso desapareceu, à medida que ouvia os burburinhos vindos dos outros balcões. Eram coisas do género “dou-lhe duas aulas”, ou “ela vai morrer”. Caleb largou a caneta para cima da mesa e suspirou, olhando fixamente para um ponto qualquer na parede branca que tínhamos à nossa frente. Parecia estar sobre qualquer tipo de tortura.

E assim o professor lá continuou com a aula.

- E agora já sabem, o trabalho é para entregar daqui a duas semanas, entendido? Eu posso ser bastante porreiro, como a malta jovem diz, mas não me dou bem com trabalhos em atraso. Os vossos parceiros são os vossos companheiros de mesa, e não há trocas. Até à próxima aula – disse o professor, a poucos segundos de se ouvir soar o toque de saída.

- Então acho que estamos juntos – disse, enquanto arrumava as coisas na minha mala, para depois dirigir a minha atenção a Caleb, que arrumava também as suas coisas – Chamo-me Dawn, já agora.

- Não sou surdo, quando chegaste disseram o teu nome – uau, parece que alguém não sabe o significado da palavra simpatia – E não te preocupes, eu percebo-te. Não tens nada que te preocupar, eu faço o trabalho.

- O quê?! – Agora já praticamente restávamos apenas os dois na sala, e a minha pergunta saiu um pouco mais alta que aquilo que pretendia.

- Eu percebo que não queiras passar tempo comigo, por isso considera-te livre.

Se o tom não tivesse sido tão sarcástico e estúpido, até podia ter pena do tipo. Sinceramente não sei o que é que bate mal ali dentro, mas há qualquer coisa, de certeza.

- Ouve, Caleb, tu não me conheces – afirmei, com todas as certezas, fazendo-o olhar para mim pela primeira vez –, por isso não julgues. Agora, não sei o que raio se passa entre ti e o resto do mundo, e sinceramente, não é da minha conta. Mas nós temos um trabalho para fazer, e quer gostes quer não, vamos fazê-lo juntos.

E apenas assim, virei-lhe as costas e vim-me embora. É preciso ter lata. Tudo bem que sou nova na escola e que já vim quase a meio do ano, mas no meu primeiro dia já deu para perceber que ele não tem lá muitos amigos – para não dizer nenhum –, por isso bem que podia ter sido um bocadinho mais simpático para quem ao menos lhe mostrou um sorriso. Talvez seja o mau feitio que o mantém afastado de todos, não sei, ou talvez haja algo mais. Não vou mentir, deixou-me intrigada, mas o que lhe disse é verdade. Não é da minha conta.

 

Então pessoal, os comentários no último capítulo foram pouquinhos, que se passa?

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