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Espinhos de Rosas

por Andrusca ღ, em 10.09.10

Capítulo 2

Socorro

 

As aulas da parte da manhã, e até ao almoço, correram bem.

Estava com o Josh sentada a uma das mesas do refeitório quando tocou.

- Temos que ir – disse-lhe.

- Pois, não me apetecia nada…

- Acredita, nem a mim.

Entrámos na sala, fomos os últimos, e o professor entrou logo a seguir. Depois de me sentar tirei as coisas da mala e comecei a fazer rabiscos no caderno. Ouvi baterem à porta e desviei os olhos do caderno por dois segundos para ver quem era. Era o director da escola. Ele sussurrou qualquer coisa ao ouvido de Sr. Mills, o professor de trigonometria, deitou-me um olhar, e saiu em seguida. Para ter olhado para mim só pode significar uma coisa: Dylan.

- Depois da aula o director quer falar contigo Chloe – disse-me o Sr. Mills.

Perfeito, só não adivinho a lotaria.

- Ok – respondi-lhe.

A partir daí a aula passou a uma lentidão maior que a das lesmas.

Quando tocou, arrumei as coisas na mala e saí, mas senti um braço a agarrar-me por trás. Era Gwen.

- Queres que vá contigo? – Perguntou-me.

- Não, deixa estar. Obrigado – respondi-lhe.

- Boa sorte.

Fui até ao escritório do director e bati à porta, que se abriu no mesmo instante. O director estava de pé, tinha-me aberto a porta, e Dylan estava sentado numa das duas cadeiras em frente à secretária.

Mas o que é que este rapaz fez desta vez?!

- Entra Chloe. Nós precisamos de falar – disse-me o director.

Entrei e sentei-me na cadeira vazia, o director sentou-se na sua cadeira, de frente para nós.

- O que é que ele fez desta vez? – Perguntei, com a voz quase a falhar.

- Porque é que assumes sempre que foi uma coisa que eu fiz?! – Perguntou o meu irmão, quase ofendido.

- Agora não – pedi-lhe.

- O seu irmão e mais uns quantos rapazes amarraram um dos seus colegas a uma árvore do bosque que se encontra perto da entrada, e amordaçaram-no. E vieram-se embora, deixando-o ali – começou o director.

- Ele está bem? – Perguntei.

- Sim, mas apenas porque um dos funcionários o encontrou. Mas essa não é a questão menina Simms. A questão é: consegue ou não controlar o seu irmão? – Engoli em seco, na verdade não tenho resposta para essa pergunta – Porque se não conseguir, ele vai ser expulso.

- Sr. Guttenbierg, só… lamento – foi mesmo o melhor que arranjei – Por favor, por favor não o expulse… só, dê-lhe mais uma oportunidade.

- Eu dei menina Simms, a semana passada, o último mês! Agora eu quero falar com a vossa mãe.

- Oiça director… - Disse Dylan, era óbvio que ia sair porcaria.

- Cala-te Dylan! – Não era nenhum pedido.

- Eu decidi, porém, e porque a menina nunca deu chatices na escola, em dar-lhe outra oportunidade. Ele vai ajudar a limpar o refeitório todos os dias durante duas semanas. E vai estar uma hora por dia com o psicólogo da escola, durante o mesmo tempo.

- Duas semanas?! – Perguntou Dylan, como se fosse a pior notícia que podia receber.

- Duas semanas é perfeito – disse eu – Obrigado.

- Mas mesmo assim vou ter que falar com a vossa mãe. Digam-lhe que segunda-feira lhe telefono.

Quem me dera…

- Nós dizemos – Menti.

Depois de sairmos do escritório do director fomos directos para o carro, as aulas já tinham acabado. Metade da viagem foi calma, mas depois, não sei se ele pensou que eu já não estava chateada, Dylan começou a falar.

- Emprestas-me o carro para amanhã? – Perguntou, como se não tivesse acabado de receber um raspanete do pior. Ah, é verdade, não foi ele, fui eu. No meio destas histórias arranjadas pelo Dylan, eu é que acabo por ouvir do director.

- Não – respondi, com uma voz azeda.

- Porquê?

- Por várias razões, entre elas porque não tens carta de condução.

- Mas o meu amigo tem. Ele tem dezoito anos.

- Além disso preciso do carro.

- Mesmo que não precisasses não emprestavas – reclamou, num tom baixo.

Bem podes crer.

Deixei Dylan em casa e fui até ao Great Falls Tribune, para ver se conseguia que me dessem trabalho. O Great Falls Tribune é um jornal, e a dona até simpatiza comigo, por isso, às vezes dá-me pequenas entrevistas para eu fazer, e não me paga nada mal. Infelizmente desta vez não tive sorte.

Voltei para casa e quando cheguei, Abby já estava no sofá a ver televisão.

Passei por ela e dei-lhe um beijo.

- Não te queres sentar aqui? – Perguntou ela.

- Adorava, mas não posso, tenho que ir apanhar a roupa e fazer o jantar – respondi-lhe, enquanto me dirigia à cozinha.

- Espera – pediu-me, levantando-se –, amanhã posso ir para a casa da Amber?

- Claro, se a mãe dela deixar. Precisas que te leve?

- Não, não é preciso. A mãe dela disse que me vinha cá buscar às três.

- Ok. Onde está o teu irmão?

- Fora.

- Claro.

Fui para a cozinha, pousei a mala numa das cadeiras, e fui para o jardim.

Apanhei a roupa e levei-a para a mesa da cozinha. Comecei a dobrá-la à balda e depois meti-a dentro do roupeiro do hall, para depois a passar a ferro.

Quando acabei de fazer o jantar, esparguete à bolonhesa, já eram oito e meia. Dylan já tinha chegado. Pus a mesa e pus o tacho em cima e chamei-os.

Foi uma refeição muito calma, Dylan estava amuado por eu não lhe emprestar o carro, eu estava chateada por ele ser uma criança completa, e a Abby via que nós não estávamos bem, por isso não dizia nada.

Depois do jantar arrumei a cozinha e lavei a loiça do jantar e do pequeno-almoço.

Quando finalmente me sentei no sofá eram dez e meia. Ainda bem que amanhã é sábado.

A seguir ao jantar, Dylan fechou-se no quarto, e Abby foi também para o seu, ver um daqueles filmes com finais felizes que tanto adora. Sobre finais felizes só tenho uma pergunta: onde está o meu?

Quando era meia-noite subi para o quarto, vesti o pijama, que eram uns calções azuis e uma blusa branca, e deitei-me.

Acordei a meio da noite, com frio. Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e vi que a janela estava aberta. Levantei-me, desviei o cortinado cor-de-laranja, meio transparente, e sentei-me no parapeito da janela. A rua estava calma, e não havia ninguém perto da minha casa, mas eu posso jurar que não deixei a janela aberta. Fechei a janela e fui espreitar Abby, que estava aninhada na sua cama, a dormir profundamente, tal como Dylan. Voltei para a minha cama e adormeci em seguida.

Durante a manhã não fiz praticamente nada, já acordei tarde, por isso fiz o almoço e limpei apenas o meu quarto. Abby limpou o dela também, porque não o iria fazer à tarde.

Depois do almoço pus a loiça na máquina e limpei o resto da casa. A casa estava num silêncio absoluto. Abby estava na casa de Amber, e Dylan tinha ido sair, provavelmente com os amigos delinquentes.

Resolvi pôr música enquanto limpava a casa. Quando acabei, comecei a passar a roupa a ferro.

Ouvi baterem à porta, quando a abri era a Sra. Jonhson, a nossa vizinha.

- Boa-tarde Sra. Jonhson, entre – Disse eu.

Ela entrou e dirigimo-nos à cozinha. Ela pousou um prato tapado na mesa e depois olhou para a tábua de passar a ferro, e, desagradada, abanou a cabeça.

- O que é que já fizeste hoje? – Perguntou-me.

- Se está a perguntar se me diverti, a resposta é não – respondi. – O que é que trás aí?

- Oh, nada de especial, é apenas um miminho.

A Sra. Jonhson é uma mulher de meia-idade, já com o cabelo a ficar grisalho, e muito magrinha. Não sei o que é viu em mim e nos meus irmãos, mas a verdade é que é a mãe que nunca tivemos, apesar de viver na casa ao lado.

- Não era preciso – disse-lhe eu.

- Ora essa, eu é que sei se é preciso ou não. Precisas que faça alguma coisa querida?

- Não, obrigado. Estou quase a acabar.

Fiz uma pausa e fiquei à conversa com ela. Quando se foi embora e eu acabei com a roupa, eram quase horas de jantar e o frigorífico estava quase vazio. Pedi a Abby, que já estava em casa, para encomendar uma pizza, porque eu tinha que ir às compras.

Quando ia a sair, esbarrei com Dylan, que vinha a chegar.

- Dylan, não queres vir comigo às compras? – Pedi – Dava-me imenso jeito ajuda para os sacos…

- A mim dava-me imenso jeito o teu carro, mas tu não mo emprestaste – respondeu-me, entrando.

- Ok… - Quid pro Quo…

Vi dois rapazes vestidos à punk ao pé do meu carro e olhei para trás, para Dylan. Eles tinham toda a pinta de serem amigos dele. Dylan já não estava no meu campo de visão.

Abby chamou-me para me pedir o número da pizzaria e quando levei a mão ao bolso para tirar o cartão, vi que já lá não tinha as chaves do carro.

- Oh não – murmurei.

Corri até à porta e vi Dylan a entrar no carro com os amigos.

- Dylan! Nem te atrevas a sair daqui! – Tarde demais, o carro começou a andar e a afastar-se cada vez mais – Dylan! Desgraçado!

- Que aconteceu? – Perguntou Abby, que me tinha ouvido gritar, chegando ao pé de mim.

- O teu irmão está metido em tantos sarilhos…

- Ele roubou-te o carro?

- Para o bem dele, espero que o carro volte como foi. Tenho que ir, o caminho acabou de ficar mais longo. Não esperes por mim para jantar, ok?

- Tu não vais jantar?

- Eu janto depois, não podemos ficar sem comida no frigorífico.

Comecei a andar até ao supermercado, e parecia que nunca mais chegava. Quando finalmente cheguei, agarrei num carrinho, e comecei a percorrer os corredores à procura do que precisava.

- Papel higiénico… acetona… batatas… leite… - ia dizendo, conforme ia metendo as coisas no carrinho.

Cheguei à caixa com o carrinho completamente cheio. Depois de ter tudo nos sacos, que não faço ideia de como os vou levar, chegou a hora de pagar. Quando levei a mão ao bolso vi que também não tinha lá a carteira. Aquele atrasado mental!

Devo ter ficado quase dez minutos à procura de trocos nos bolsos, que, por sorte, pagavam quase tudo. Vi um rapaz a passar, era moreno, com o cabelo curto e espetado, e tinha uns olhos verdes deslumbrantes. Conseguia ver perfeitamente os seus abdominais perfeitamente definidos através da sua t-shirt branca, e os músculos dos braços também. Ele era muito pálido e aparentava ter a minha idade. Era ainda mais bonito que um deus grego, com as suas feições todas perfeitamente definidas…

Vi-o a aproximar-se. Será que reparou que estava a olhar para ele?

- Está tudo bem? – Perguntou-me, assim do nada. A sua voz era esplêndida, parecia que cada timbre que saía era cuidadosamente ensaiado.

- Sim – respondi-lhe.

- Estás a fazer uma fila enorme – olhei para as pessoas atrás de mim e senti-me a corar, ao ver as suas caras chateadas.

- Eu… - ele não me deixou acabar a frase, entregou um cartão de crédito à senhora e pagou as compras todas – O que…

- Vá lá. – Disse-me, enquanto agarrava em mais de metade dos sacos.

Agarrei nos outros e acompanhei-o até à porta, onde pousou os sacos no chão.

- Obrigado – disse-lhe, eu sei que o que ele fez foi ajudar, mas também sei que detesto ser tratada como se não soubesse cuidar de mim –, mas não devias…

- Tudo bem, tu depois pagas-me – e sorriu. Aquele sorriso… como é que eu podia dizer não àquele sorriso?

- Espera – pedi-lhe.

Voltei a remexer nos bolsos e ao fim de quase outros dez minutos, achei dinheiro suficiente para lhe pagar. Ainda bem que quando recebo trocos vai para o bolso e não para a carteira…

- Aí tens – disse-lhe, ao passar-lhe o dinheiro para a mão.

- Ok, estamos quites.

- Obrigado mais uma vez – agarrei nos sacos todos, com bastante esforço, e comecei a andar.

Vi por um espelho de um carro que ele se estava a ir embora.

Ainda não tinha saído do parque de estacionamento quando oiço passos a aproximarem-se. Vinham muito depressa, muito pesados… ou então eram muitos pés…

Pousei os sacos e olhei para trás, eram talvez quatro homens, com o mesmo visual que os amigos do meu irmão.

- Precisas de ajuda? – Perguntou um.

- Não, obrigado – respondi, pegando novamente nos sacos e retomando o meu passo.

- Tens a certeza? – Perguntou outro, que se pôs à minha frente. Eu andava muito lentamente, por causa do peso.

- Absoluta – respondi, pousando de novo os sacos. Eles estavam à minha volta, não ia conseguir passar de modo nenhum – Não me vão deixar passar?!

- Vá lá, nós ajudamos-te e tu dás-nos algo em troca, ok? – Disse um dos outros dois.

- Eu não preciso da vossa ajuda… deixem-me ir – a minha voz não tremia, mas o meu coração estava a cem à hora.

- Vá lá… - disse o primeiro, aproximando-se de mim com os braços esticados. Ia-me agarrar, mas eu levei a mão atrás e dei-lhe um murro – Sua… - mas conteve-se.

Os outros três homens começaram a aproximar-se mais e quando eu pensava que ia desta para melhor oiço uma voz maravilhosa, que surpreendentemente, se estava a aproximar.

- Deixem-na em paz – ordenou.

- Pois sim… - riu-se o único homem que ainda não tinha falado – O que é que vais fazer?

Num movimento rápido, o rapaz misterioso do supermercado deu um murro a esse homem, e mandou-o ao chão. Em seguida olhou para os outros ferozmente. Fiquei a olhar para ele… há qualquer coisa naqueles olhos…

Os homens fugiram e ele aproximou-se de mim.

- Posso-te levar até casa? – Perguntou – Só em caso de eles voltarem a aparecer.

Eu não conseguia falar, não sei bem porquê. Limitei-me a assentir com a cabeça.

Ele agarrou em todos os sacos e dirigiu-se a um mercedes preto, descapotável. Estranho, ele não vacilou nem um bocadinho ao agarrar naqueles sacos todos. Pôs os sacos no porta-bagagens e abriu-me a porta. Entrei para o lugar do pendura e ele foi para o lugar do condutor. Quando se sentou e ligou o carro, olhou para mim. Eu posso jurar que já o vi em qualquer lado…

- Como é que te chamas? – Perguntou-me.

- Chloe… Simms. Chloe Simms. E tu?

- Derek Thompson. Onde é que moras?

- 15th Avenue South.

- Ok.

Ele conduzia a toda a velocidade. Às vezes desviava os olhos da estrada e olhava para mim, mas o carro não se desviava um único milímetro da estrada.

- Estás bem? – Perguntou-me.

- Sim… - respondi, com a voz a tremer, enquanto observava a estrada. Como é que ele consegue conduzir assim?! Decidi esquecer a velocidade por uns momentos e perguntar uma coisa que me interessava – És novo na cidade?

- Sim, eu e os meus irmãos – e deixou escapar um pequeno sorriso – Acho que é mesmo verdade quando se diz que aqui se sabe tudo…

- Não exactamente, é só… tu pareces-me muito familiar…

- A sério?

- Sim.

- Chegámos – olhei para o lado. Estávamos em frente à minha porta. Nem tinha dado pelo carro parar, ou sequer abrandar. Vi o meu carro já estacionado e olhei para o relógio do carro: dez horas. É estranho Dylan já estar em casa. A minha barriga quis começar a roncar.

- Obrigado pela boleia – Disse-lhe, abafando o som da minha barriga – E por me teres salvado daqueles tipos…

Não percebi porquê, mas formou-se outro sorriso na sua cara perfeita.

Saí do carro e ele saiu logo a seguir. Não pensava que me ia ajudar a levar os sacos para casa, afinal, já fez mais do que alguém teria feito, mas ajudou. Pegou nos sacos quase todos, deixando-me apenas dois dos mais leves e acompanhou-me à porta. Abri a porta e entrei, mas por qualquer motivo, ele ficou parado.

- O que foi? – Perguntei, não esperando pela resposta – Podes entrar.

- Obrigado – agradeceu. Ou é extremamente bem-educado, ou então não sei…

Passámos em silêncio por Abby, que estava deitada no sofá, adormecida, e pousámos os sacos na mesa da cozinha.

- Muito obrigado, a sério – agradeci.

Íamos a sair quando ele parou e olhou para Abby.

- Precisas de ajuda para a levar para a cama? – Perguntou.

- Estava a pensar em acordá-la…

- Não, deixa-a dormir. Eu posso levá-la – e debruçou-se sobre o sofá, agarrou em Abby ao colo como se não fosse nada, e pediu-me para lhe indicar o caminho.

Fui com ele até ao quarto de Abby, abri a porta e ele pousou-a na cama. Ao tapá-la, percebi que estava gelada, coitada. Há quanto tempo estaria deitada no sofá?

Íamos descer as escadas quando ouvi um riso feminino e outro masculino, que não era do meu irmão, no quarto de Dylan.

- Dylan… - murmurei. Voltei-me para Derek – Podes só esperar por um bocadinho?

- Eu posso ir sozinho, se quiseres – disse-me ele.

- É só um segundo, juro. E além disso, ainda nem comeste nada, tal como eu. Posso fazer uma coisa rápida se quiseres…

- Não, deixa estar.

Respirei fundo, bati à porta, e entrei no quarto de Dylan. Estavam lá quatro pessoas, incluindo o meu irmão. Eram dois rapazes e uma rapariga. Os rapazes eram os que estavam ao pé do meu carro.

- Toda a gente para a rua! – Disse eu.

- O quê?! – Retorquiu Dylan, levantando-se da cadeira da secretária.

- É tarde e a tua irmã está a dormir. Toda a gente para rua agora.

- Não – estive mesmo para lhe mandar uma bofetada, e era bem merecida, mas ele depois, provavelmente, saía e eu não sabia para onde e ficava preocupada.

- Dylan, cozinha, agora – mandei. Ele saiu do quarto e eu fechei a porta, deixando lá os “amigos” dele.

Descemos para a cozinha, e enquanto Dylan se sentou numa das cadeiras, eu acompanhei Derek à porta.

- Ei, gostas do “Crepúsculo”? – Perguntou-me, apontando para o livro de Gwen, que estava em cima da mesinha pequena do hall. – Histórias com vampiros… vampiros bons.

- Não, não gosto. É da minha amiga. Acho que a história é uma farsa…

- Oh…

- Não há vampiros bons.

A cara dele pareceu mudar, deu-me a entender que ficou um pouco transtornado, mas depois voltou ao normal.

- Talvez haja… - e saiu. Vi-o a ir para o carro e a acelerar pela estrada fora.

Fechei a porta e regressei à cozinha.

- Nós temos que falar – disse, azedamente, a Dylan.

- Vá lá mana, não podes adiar até amanhã?

- Tu roubaste-me! Como é que te atreveste?!

- Vá lá, foi só por umas duas horas. Trouxe tudo como estava.

- Eu não estou a falar do carro!

- Então estás a falar do quê?

- Sabes muito bem.

- Da carteira? Sim, não tinhas muito…

- Sabes a vergonha que eu passei no supermercado?! Se não fosse o Derek ainda estava a meio do caminho para casa! Ou então não, porque uns tipos meteram-se comigo!

- Estás bem?

- Isso interessa? Dá-me a carteira, dá-me as chaves do carro e manda os teus amigos embora Dylan.

- Eles não fizeram nada!

- Nem eu! Estou a falar a sério. Agora, Dylan.

Ele tirou as minhas coisas do bolso e subiu as escadas, com cara de amuado. Fiquei dez minutos à espera que os amigos dele descessem, mas como não vinham, eu subi de novo. Entrei no quarto sem bater.

- Eu não tinha dito para se irem embora?! – Perguntei, furiosa.

- Desculpe madame – disse um, ao passar por mim.

- Vai chamar madame a outra – respondi-lhe.

Andaram muito lentamente até à porta de saída, e quando finalmente saíram, voltei a ir ao quarto de Dylan. Ele estava em cima da cama, a jogar PSP.

- Se mais alguma vez me roubares alguma coisa…

- O que é que fazes? – Perguntou, presunçoso.

- Vou-te dizer o que não faço. Não faço o jantar, nem o pequeno-almoço, não faço compras nem trato da tua roupa. Se isto voltar a acontecer, tu vais aprender como é viver sozinho.

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