Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Our Scars

por Andrusca ღ, em 17.08.11

Capítulo 4

Esclarecimentos

 

- Dawn, espera aí! – Voltei-me para trás e sorri para Jay, que corria para me alcançar – Bolas, andas depressa.

- Ou então tu andas devagar – ripostei, quando ele finalmente chegou ao pé de mim.

Sobrevivi à primeira semana desta nova vida. Juntei-me às pessoas certas, e agora, quase – para não dizer toda – a escola sabe quem sou. Claro que menti em certas partes. E continuo a mentir. Cada vez que me perguntam o porquê de me ter mudado, digo apenas que os meus pais se divorciaram e que a minha mãe achou boa ideia fazermos uma mudança. Claro que omito o resto da história, as coisas de que nunca ninguém quer falar.

- Estás com pressa? – perguntou ele.

Jay fora-me apresentado pela Claire e o resto das raparigas, juntamente com Ted e Jordan. Eles estão na equipa de basquete da escola, e Claire e o resto das raparigas fazem parte da claque. Até me perguntaram se me queria juntar, mas decidi recusar. Na minha antiga escola… na minha antiga vida, era a capitã da claque, mas não é algo que morra para repetir.

- Em finalmente chegar a casa? Claro que não – respondi, sarcástica.

Ele riu-se.

- Desculpa – pediu – Eu vou contigo, fiquei de me encontrar com os rapazes para irmos sair.

- Sair? Engatar miúdas, queres tu dizer – brinquei, ao que ele se riu de novo, para em seguida passar com os dedos pelo cabelo aloirado.

- Queres vir? – Perguntou, baixinho – Para nos manteres bem encaminhados? – Brincou.

- Hum… não sei se essa tarefa fica bem entregue… - brinquei também.

- Vá lá, é sexta-feira, nós costumamos reunir-nos todos num bar aqui perto. As miúdas também vêm, não vais ficar à seca entre rapazes.

- Talvez alinhe.

Na verdade nada me agradava mais do que chegar a casa, fechar-me no meu quarto a ouvir música e a comer gelado. Deprimir, como a minha mãe lhe chama. E não me apetecia mesmo nada sair nem encontrar-me com eles num bar. Um bar… sinto que há anos que não vou a um. Quer dizer, a última noitada que fiz deve ter sido noutro século. Mas lembro-me bem. Cheguei a casa às cinco da manhã, e tinha os meus pais a dormir no sofá, tentei passar por eles mas eles acordaram e ficaram a dar-me um sermão horrível. Claro que o facto de estar meio bêbeda não me ajudou em nada.

- Sabes onde fica o Freddy’s? – Perguntou Jay.

- Freddy’s? Esse é que é o nome do tão falado bar? – Gozei, ao que ele revirou os olhos – Não, não sei, mas eu amanho-me. A que horas?

- Às nove e meia?

- Vou lá estar.

- Óptimo – disse, cheio de convicção.

- Óptimo – Já eu, convicção era coisa que não tinha.

Caminhámos mais um pouco juntos, mas depois ele virou na rua da casa do Ted e eu continuei. Parei numa pastelaria e comprei um croissant, que continuei a comer pelo caminho. A tarde já ia a meio, e eu já estava pronta para me enfiar debaixo dos lençóis. “Mas não pode ser Dawn, tens que fazer um esforço”, avisei-me.

Ia a passar a estrada quando vi Caleb, a caminhar rapidamente pelo passeio, e uns miúdos muito mais novos atrás dele a chamarem-lhe nomes, e a cuspirem para perto dele.

Apressei o passo mas quando fiz a curva já não o vi, os miúdos já iam quase no fim da rua. Suspirei e continuei a andar. Gostava de saber a razão por que todos o tratam tão mal. Queria saber o que fez.

Quando ia a caminhar ao lado de um beco, ouvi uma garrafa de vidro a partir e olhei para lá, vendo-o a ele em seguida. Não sei porquê, chamem-lhe reflexos ou lá o que seja, mas recuei e fiquei encostada à curva, apenas a espreitar. Caleb agarrou em mais uma garrafa, das que estavam no caixote do lixo, verde, e mandou-a à parede à sua frente, estilhaçando-a em mais de mil pedacinhos, como tinha feito também com a outra anterior. Só de o estar a observar já me estava a começar a sentir em baixo, era como se sentisse o que ele sentia. Voltou-se para a parede e deu-lhe um murro, voltando-se de novo para se deixar cair no chão encostado a ela. Dobrou as pernas e enrolou-as com os braços, após limpar a cara com a mão, para depois deixar a cabeça apoiar-se nos joelhos. Estava a chorar. Uma parte de mim dizia-me para ir ter com ele e perguntar-lhe o que se passava, mas a outra dizia-me para sair daqui o mais depressa quanto as minhas pernas conseguissem correr.

- Caleb? – Perguntei, enquanto me aproximava dele e ignorava todos os avisos que me brotavam na mente. Ele olhou para mim e de repente levantou-se, chegando depressa ao pé de mim.

- Deixa-me em paz! – Gritou-me, antes de me dar um encontrão com o ombro para passar. Engoli em seco.

“Não te preocupes”, implorou-me o meu cérebro. E eu queria cumprir isso. Queria mesmo.

Fui então para o meu destino final: casa. Quando cheguei e entrei, vi a minha mãe na sala, a ver televisão, e fui dar-lhe um beijo na bochecha.

- Como foi a escola? – Perguntou-me ela, enquanto eu já me dirigia para as escadas.

- Normal – respondi – Logo vou sair com um pessoal, vamos a um bar.

- Hum… - eu sabia bem o que este som significava.

- Eu comporto-me – garanti –, e não chego muito tarde, prometo.

- Apenas não quero que cometas os mesmos erros de antigamente.

- Nem eu – garanti, antes de subir para o meu quarto.

Olhei para o relógio, já eram quase sete horas, nem tinha dado pelo tempo que tinha perdido a observar Caleb.

Livrei-me das roupas que tinha no corpo e pus-me debaixo do chuveiro, para tomar um duche rápido, mas relaxante. Quando o acabei, enrolei uma toalha amarela clara, que me dava acima do joelho, ao corpo, e prendi o cabelo com uma mola. Fui em seguida para a frente do meu roupeiro, para escolher a roupa para hoje. Bem, não podia ir de qualquer maneira, mas também não podia ir muito produzida. Agora que sou nova na cidade, não me posso dar ao luxo de fazer asneira. Acabei por optar por uma saia prateada, bastante curta, e um top de alças vermelho, de atar ao pescoço. Iria calçar umas sandálias também prateadas, de tiras e com um pouco de salto. Voltei a ir para a casa de banho e enxuguei o cabelo, permitindo-lhe formar instantaneamente aqueles caracóis lindos, que tanto adoro.

- Dawn, jantar! – Chamou a minha mãe, num grito.

- Dois minutos! – Gritei-lhe também.

Maquilhei-me levemente, deixando apenas o gloss para pôr depois de comer.

Depois do jantar lavei a loiça e arrumei a cozinha, enquanto a minha mãe se for preparar para ir fazer o turno da noite no Hospital, e só depois é que me fui calçar, pôr o gloss, e guardar o telemóvel, chaves e dinheiro numa mala pequena. Regressei à casa de banho apenas para tapar as cicatrizes, pondo também umas pulseiras para prevenir.

Saí de casa praticamente ao mesmo tempo da minha mãe, e ela deu-me boleia até ao tal bar, sempre enquanto me dizia para ter cuidado, não beber muito, não aceitar bebidas de estranhos, e todas as outras coisas que as mães dizem sempre, apesar de não ser a primeira saída das filhas.

O bar por fora tinha as paredes pintadas de roxo escuro, e depois uma grande placa a néon a dizer “Freddy’s”, e com uma seta a apontar para a porta de vidro, aberta. Quando entrei pude observar o bar à minha esquerda, e à minha direita estavam alguns cadeirões e vários puffs encostados à parede, juntamente com algumas mesas, claro. No centro era a pista de dança, até o chão era diferente, num tom de preto reluzente, e a cabine do DJ estava encostada ao canto direito, um pouco à frente das mesas e dos assentos. Tinha luzes a piscar, mas eram suaves, não eram do género que deixam a cabeça a andar à roda.

Vi as horas no telemóvel, já passavam das nove e meia e eles ainda não estavam cá. Aproximei-me do bar e sentei-me num dos bancos que lá havia.

- Posso trazer-te algo? – Perguntou um rapaz, do outro lado do bar.

- Sim… eu vou querer vodka com sumo de maçã, por favor – pedi, sorrindo. Ele riu-se e assentiu, tratando em seguida de aceder ao meu pedido.

Não tive que esperar muito até eles chegarem, e quando chegaram, e após pedirem as bebidas, dançámos e mexemo-nos a valer na pista de dança. Tenho que admitir que, apesar de uma noite sossegada e enroscada no meu cobertor me ter sabido melhor, isto não foi assim tão má ideia.

Quando já estava a ficar cansada, fui-me sentar ao pé da Jill e da Marissa, para uma das mesas.

- Já? – Perguntou Marissa, a rir-se – Pensava que raparigas da Califórnia aguentavam muito mais.

- E aguentamos – defendi-me –, eu estou apenas a aquecer.

- Claro – concordou Jill, fazendo uma cara engraçada.

- Então… vi o Caleb hoje – disse eu, em tom de conversa ocasional.

- Hum… - mas acho que Marissa previu que vinham perguntas a caminho.

- Ele estava a chorar atrás de um beco… Marissa, porque é que todos o tratam de uma maneira diferente? – Perguntei.

- Porque… - ela suspirou, e em seguida dirigiu o olhar para trás de mim.

- Porque ele matou a ex namorada – ouvi. Claire. Voltei-me para trás e vi-a sentar-se na cadeira, ao meu lado – Ele é um ciumento filho da mãe e não é pêra doce. Tens que te manter afastada dele, percebeste? Ninguém está salvo enquanto ele está à solta.

Ela parecia completamente segura das suas palavras.

- O quê?! – Ok, escândalo total – Explica lá, se faz favor.

- A ex namorada dele, Dana Turner, foi encontrada morta em casa. Foi ele, assassinou-a – e encolheu os ombros, como se tivesse acabado de dizer que dois mais dois são quatro.

- Mas há provas? – Perguntei.

- Estão a ser reunidas. Isto aconteceu à volta de seis meses mas… a polícia é lerda, não se pode fazer nada – disse Jill.

- Mas essa é uma acusação gravíssima. Não a podem fazer se não houverem provas – insisti.

- Ele matou-a! – Exclamou Claire – Matou-a, é um assassino. Apenas se safou bem em cobrir os rastos.

Engoli em seco. Não admira que ninguém o trate bem. Mas… ele não me parece com um assassino. Parece-se mais com alguém que estás prestes a matar-se a ele mesmo, que a outra pessoa. Mas de novo, isso pode ser a culpa a falar, certo?

Um assassino… de alguma forma, custa-me acreditar que isso seja verdade.

 

Amanhã só posto se tiver oito comentários...

23 comentários

Comentar post

Pág. 1/2