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Our Scars

por Andrusca ღ, em 17.08.11

Foi uma excepção, por causa da Tatty, uma fantasminha que se revelou hoje *-*

Hope u like it

 

Capítulo 5

Trabalho de Pares

 

Tentei tomar coragem pela milionésima vez, enquanto observava Caleb sozinho, ao fundo do corredor, encostado à parede. Tinha que falar com ele sobre o nosso trabalho de Biologia, mas desde o dia em que o vi a chorar no beco, o mesmo dia em que descobri que é suspeito no assassínio da ex namorada, Dana, que as coisas têm estado estranhas. Bem… mais estranhas.

E depois ter toda a gente a dizer-me para me afastar dele não ajuda em nada. Posso fugir a todos os outros assuntos e perguntas que lhe quero fazer, mas não posso evitar o trabalho. Já cheguei a meio do período, não me posso dar ao luxo de ficar para trás.

Ao fim de quase o intervalo todo a mentalizar-me, lá comecei a caminhar na sua direcção. Quando cheguei ao pé dele, levantou a cara na minha direcção e voltou a descê-la, para o chão.

- Que queres? – Perguntou. Não soava agressivo, soava mais triste que ameaçador. Mas também não soava nada simpático.

- Temos que fazer o trabalho de Biologia – pronunciei, tal como ele, num tom baixo.

- Eu disse que o fazia – afirmou.

- E eu não concordei – discuti – Quando é que te dá jeito para nos encontrarmos?

Vi um sorriso meio sarcástico aparecer-lhe no rosto, ao mesmo tempo que voltava a olhar para mim.

- Tu queres encontrar-te comigo? – Perguntou, com alguma dificuldade em acreditar – Vá lá, de certeza que já te falaram de mim.

- Falaram, mas isso não quer dizer nada. Ainda temos um trabalho para fazer.

Ele semicerrou os olhos, como se me tentasse ler o pensamento ou as intenções, e depois abanou a cabeça, encolhendo os ombros.

- Hoje, às três? – Perguntou-me.

- Na tua casa? – Pareceu surpreendido pela minha pergunta, mas assentiu.

- Se não quiseres num sítio mais público por teres medo de ficar sozinha comigo – disse, sendo a minha vez de assentir.

- Não me assusto facilmente – pronunciei, dando dois passos em direcção à minha sala – Lá estarei.

A última aula decorreu num instante, e quando saí, Jay e Jordan acompanharam-me até casa, visto que as raparigas iam ter aulas de tarde.

- Não queres ir sair depois do almoço? – Perguntou-me Jay.

- Não posso, tenho um trabalho para fazer – disse-lhe, vendo que ficou um bocado triste – Desculpa.

- Não há problema, o Jordan faz-me companhia, não fazes mano? – Tentou ele disfarçar, dando uma pequena palmada no ombro que Jordan, que apenas se limitou a sorrir.

Almocei sozinha, a minha mãe estava no hospital, como está quase sempre. Mas já me habituei. Depois de comer e de fazer os trabalhos de casa, vi um pouco de televisão até chegar quase às três horas, e só então saí de casa para ir para a de Caleb. Não era difícil encontrá-la, bastava-me procurar uma que tivesse ovos mandados à parede, ou papel higiénico nos ramos das árvores da entrada. “Ele matou aquela rapariga, como é que ainda podes ter pena dele?!”, pensou a minha consciência. Mas eu ainda não tinha a certeza que ele a tivesse de facto morto. Sei que não o conheço há tempo suficiente para fazer juízos de valor mas… sei lá, é apenas uma daquelas coisas que se sabe sem se perceber.

Quando cheguei, bati à porta e esperei, mas nada aconteceu. Espreitei pela janela e não vi ninguém, por isso comecei a rodear a casa e a espreitar pelas outras janelas, até que fui dar à porta das traseiras, que estava apenas encostada.

- Não estou a gostar disto… - murmurei, desconfiada.

Talvez ele seja exactamente tudo o que eles dizem. Talvez eu seja a próxima vítima. Talvez me pareça com Dana, sei lá. “Oh, pára de ser estúpida!”, exigi-me.

Tomei uma golfada de ar e entrei para dentro da casa, mais propriamente para a cozinha, fechando a porta por trás de mim. Caminhei até um largo arco na parede, que dava à sala, e olhei em volta.

- Caleb? – Chamei. Nada. Tudo bem, mesmo que ele não seja um assassino, não estou a gostar disto – Caleb?!

Engoli em seco e comecei a subir as escadas, em direcção ao primeiro andar. Bati à primeira porta e abri-a. Era um quarto demasiado arranjado para ser o dele, para além de ter uma fotografia de um casal no dia do casamento. Era dos pais dele, de certeza. Na segunda porta era a casa de banho, e quando a fechei ouvi passos atrás de mim, na direcção das escadas por onde tinha subido. Engoli em seco e gelei completamente.

- Caleb? – Perguntei, já demasiado baixo devido ao pânico, enquanto lentamente me voltava para, mais uma vez, não ver nada. Respirei fundo e comecei a andar na direcção das escadas, para assim que fiz a curva, ver uma enorme bola de pêlo mandar-se a mim.

- Ahh! – Gritei, a plenos pulmões, enquanto caía para trás. Só então vi bem o meu atacante. Um gato. Um gato cinzento e bem gordinho, que estava agora à minha frente com as patas bem pousadas no chão e a ficar todo eriçado.

- O que é que estás aqui a fazer? – Ouvi, por trás de mim, o que me fez dar outro grito. Caleb olhava para mim feito parvo, ainda meio surpreso, enquanto eu me levantava.

- O que é que estavas a fazer?! – Perguntei, nada contente – Quase morri de medo aqui!

- O quê? Pensavas que te ia matar? – Engoli em seco. Não gostei da pergunta pelo simples facto das acusações que andam pelo ar. Se fosse outra pessoa a dizê-lo, claro que me riria e entraria na brincadeira, mas não ele. E definitivamente não da maneira sinistra como o perguntou.

- Muito engraçado – resmunguei – A porta das traseiras estava aberta, eu chamei-te montes de vezes!

- Desculpa lá, tinha os fones nos ouvidos. Credo – disse ele, como se o que eu tivesse dito tivesse sido a coisa mais aborrecida de todos os tempos – Parece que o Bolinha te ouviu, hã?

- Bolinha? – Perguntei – Bem, pelo menos não é Garfield… De qualquer maneira, vamos fazer o trabalho?

- É para isso que cá estás – afirmou, encolhendo os ombros.

Fomos para a sala de estar, no andar de baixo, e começámos a fazer a nossa apresentação no computador portátil dele. Tirando os poucos olhares sinistros, e as vezes que me ficou a encarar, até me pareceu um tipo bastante normal. Mas eu também pareço ser do mais normal que há, e no entanto… bem, águas passadas.

O Bolinha esteve sempre ao pé de nós, mas nem por um segundo relaxou comigo ao pé. Sinceramente, o gato metia-me mais medo que o alegado assassino. Chamem-me louca, não posso fazer nada.

- Então, porque te mudaste para cá? – Perguntou, do nada.

- Os meus pais divorciaram-se – limitei-me a dizer, ao que ele assentiu, retirando o olhar do computador para o dirigir a mim.

- Acho que isso explica – disse.

- Explica o quê? – Perguntei.

- O porquê de estares tão abatida – O quê?! Eu não mostro que estou abatida… mostro?

- O quê?!

- Vá lá, só porque sorris o tempo todo não quer dizer que estejas feliz – disse, encolhendo os ombros em seguida – Infelizmente para ti, eu sei mais sobre ler pessoas do que aparenta.

Mau, já não estou a gostar nada disto.

- Vi-te a chorar num beco, há uns dias atrás – murmurei, olhando agora também directamente para ele. Notei pela sua expressão que agora era ele quem não gostava do rumo da conversa – Porque é que todos pensam que a mataste? – Perguntei, sem rodeios.

- Encontrei o corpo – respondeu, ficando com o olhar vazio por momentos, como se estivesse a reviver aquele momento –, e as minhas impressões digitais estavam por todo o lado.

- Mas continuavas amigo dela? Mesmo depois de terem acabado? – Ele semicerrou os olhos.

- Parece que estás bem informada – murmurou – Porque é que não perguntas logo aquilo que queres saber?

- Mataste-a? – Fiz exactamente o que me pediu.

- Não sei, matei? – Perguntou, aproximando o seu rosto de mim, olhando directamente para os meus olhos. Não sei porquê, mas esse gesto deixou-me um bocado desconfortável, enquanto olhava também sobre ele.

- Não sei – admiti –, infelizmente não sou tão boa a ler pessoas. – Ele formou um pequeno sorriso – Ei, os teus olhos têm um pouco de verde junto do castanho – assentiu com a cabeça – Eu gosto.

- Obrigado – pronunciou.

- Porquê? – Perguntei, desviando o meu olhar para o computador.

- Não me julgares sem provas.

- Pois… vamos acabar o trabalho, ok? – Ele assentiu e demos assim o nosso pequeno intervalo por acabado, regressando ao trabalho.

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