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Our Scars

por Andrusca ღ, em 18.08.11

Capítulo 6

Festa do Pijama

 

- Foi assustador? – Perguntou Marissa, sentando-se no pequeno assento que eu tinha junto à janela.

- Ao princípio sim… muito – admiti – Mas depois até que foi uma boa tarde…

- Uma tarde na companhia do Caleb Jackson não pode ter sido uma boa tarde – murmurou, com uma voz de dúvida. Mas era verdade, tirando o facto de que ao princípio me arrepiei da cabeça aos pés, até gostei de ter passado a tarde anterior com ele.

- Bem, eu estou feliz que finalmente tenha chegado o fim-de-semana – admiti, esticando-me na minha cama.

- Também eu. Tens planos?

- Preguiçar o tempo todo – mordi a língua e sorri, enquanto ela se ria.

Eu gosto da Marissa, ela não é como a Claire, ou a Jill e a Tess. É diferente. Mais genuína, mais generosa, mais… humilde. Pelo menos é que a impressão que tirei dela, das duas últimas semanas.

- Nunca conheci ninguém que passasse tanto tempo sozinho como tu – confessou, abanando a cabeça.

- Nem fazes ideia – e não fazia – Tenho que ir à casa de banho, volto já.

- Está bem.

Levantei-me da cama e entrei pela porta que ia dar à minha casa de banho, fechando-a em seguida. Depois de fazer o que tinha a fazer, os meus olhos pararam de novo no frasco de comprimidos, que ainda estava em cima da bacia da cara. Pensei em tomar um, o médico disse para eu os tomar até a caixa acabar, mas… eu não quero ser daquelas pessoas que a única coisa que as impedem de se matar são os químicos. Não quero depender de um comprimido. Quero viver por ter vontade própria e não porque me alteram o sistema com pequenas cápsulas coloridas. Quero sentir, por mim própria. Mas tenho que admitir, muitas das vezes é bem mais fácil tomar a porcaria do comprimido do que lutar. Muitas vezes já fiz isso. Desisti da luta, enfrasquei-me de comprimidos, adormeci. Mas o que não escrevem nos rótulos dos comprimidos é que enquanto estão no nosso sistema, é como se parássemos de ser nós mesmos, somos apenas um grande armazenamento de emoções falsas. E apesar de todas as minhas emoções agora se encontrarem num lugar obscuro, prefiro tentar aguentá-las e passar pelo dia, a engolir mais uma daquelas cápsulas pela garganta abaixo, para me causarem a sensação de uma falsa felicidade.

- Dawn, estás bem? – Marissa bateu na porta, e eu dei um pulo com o susto. Credo, devia estar a encarar aquele frasco há uma eternidade.

- Sim, vou já sair – respondi-lhe, agarrando no frasco e enfiando-o numa das gavetas, bem longe da minha vista.

Abri a porta e dei com Marissa a observar-me de uma maneira inquiridora, de pé, encostada à ombreira.

- Aconteceu alguma coisa? – Perguntou-me.

- Sim, eu… deixei cair o rolo do papel higiénico, e depois aquilo começou a rolar e olha, estava a ver que nunca mais conseguia voltar a enrolar aquilo tudo – menti, dando-lhe um sorriso em seguida.

- Não percebo como fazes isso – murmurou, sentando-se de pernas cruzadas à chinês na minha cama.

- O quê? – Inquiri.

- Às vezes é como se estivesses completamente desligada do mundo, num lugar só teu, e depois regressas e metes esse sorriso nos lábios. Está a acontecer alguma coisa contigo?

Não notei apenas curiosidade no seu tom de voz. Notava preocupação, também. Mas não, não lhe ia dizer. Não ia dizer nada, a ninguém, nunca.

- Eu estou bem – respondi –, sou só um pouco distraída. Ei, queres lanchar alguma coisa?

- Hum… claro, o que é que ofereces?

- Vou ver, espera só um bocadinho.

- Não me deixes à seca – pediu, fazendo um beicinho adorável, que só me fez rir.

Saí do quarto e desci as escadas, indo em direcção à cozinha para ir ver o que tinha para lancharmos. Tirei um pacote de sumo do frigorífico e pus em cima de um tabuleiro, juntamente com dois copos. Peguei numa das facas que estavam na gaveta e comecei a cortar o pão, para fazermos umas sandes.

- O que estás a fazer? – Ouvi, por trás de mim. Voltei-me apenas para ver a minha mãe horrorizada a olhar, não para mim, mas para a faca.

- A cortar o pão mãe… - justifiquei –, não outras coisas.

- Dá-me, eu corto-o.

Sem ter mais nada a fazer, tirou-me a faca da mão e começou ela a cortar o pão.

- Sabes, facas são instrumentos indispensáveis… - murmurei, alto o suficiente para a fazer ouvir.

- O dia no Hospital foi cansativo – e claro, mudou de tema.

- Lamento – murmurei, revirando os olhos e suspirando. Acho que nunca vamos falar sobre isto. Nunca.

- Sabes, ouvi dizer que tinhas ido à casa do Caleb Jackson – usou um tom bastante normal, mas de certeza que havia muito mais do que queria mostrar.

- Sim, é verdade – confirmei –, estivemos a fazer um trabalho de pares para Biologia.

- Dawn – disse, num murmúrio, largando a faca e voltando-se para mim –, eu não te quero perto desse rapaz. O que aconteceu… eu… Dawn, a história não se pode repetir.

- Não se vai repetir – assegurei – Mãe, eu… ouve, eu nunca conheci ninguém como o Caleb no passado, ok? Não digo que somos amigos, não somos, mas também não digo que o desprezo ou algo do género, porque é mentira.

- Não interessa. Não te quero com esse rapaz – agora sim, começou a usar o tom autoritário.

- Nunca me disseste com quem podia, ou não, estar – murmurei – Nós viemos para aqui para pormos tudo atrás das costas, para fazermos coisas diferentes, arranjarmos pessoas novas e…

- E parece-me que já está bastante explícito em que grupo te inseres – interrompeu-me, levantando-me a voz.

- Só porque me dou com a Marissa e as outras não quer dizer que não possa conhecer mais ninguém – afirmei, também com uma voz segura – Eu não sou amiga do Caleb, mas se por acaso vier a acontecer, não vou fugir. Sabes tão bem quanto eu que não há ninguém que queira esquecer tudo o que se passou, mais que eu. Mas isso nunca vai acontecer se continuarmos a bater na mesma tecla. O grupo da Claire, eu… elas são tal e qual como antigamente, percebes? Eu escolhi integrar-me com elas para que a mudança não fosse tão súbita, mas não me vou deixar levar, não vou deixar que me magoem como as outras magoaram. Essa é a diferença.

- Não são tuas amigas – murmurou ela, ao que eu encolhi os ombros.

- Pelo menos não são daquelas que me fazem querer agarrar numa faca e…

- Ei – ouvimos, vindo das escadas. Marissa estava a descê-las, e espreitou para a cozinha – Oh, olá Sra. Fitzburg.

- Olá Marissa – cumprimentou a minha mãe – Por favor, chama-me Tracy.

- Vinha ver porque estavas a demorar tanto – disse Marissa, após assentir ao pedido da minha mãe, para mim.

- Desculpa, eu…

- Dawn, porque é que não convidas a Marissa para dormir cá? – Perguntou a minha mãe, interrompendo-me. Olhei para ela perplexa. Ainda agora tínhamos acabado de falar sobre não cometer os mesmos erros – Fazias sempre coisas dessas com a Carol e a Leanor.

- Oh sim, porque isso acabou muito bem – afirmei, da forma mais sarcástica possível à face da terra.

- O que…

- Sabes que mais? Claro – desta vez fui eu, a interromper Marissa, para quem me virei em seguida – Queres dormir cá? Podemos ver filmes até tarde, comer pipocas…

- Claro – respondeu ela, sorrindo-me.

Marissa subiu para o quarto com o lanche e eu fiquei para trás, com a minha mãe, a quem mandei um olhar fulminante.

- Não te podes não te preocupar para sempre – disse ela, encolhendo os ombros – Gostes ou não, precisas de pessoas na tua vida.

 

Hoje é só este, mas comentem na mesma (a)

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