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Our Scars

por Andrusca ღ, em 18.08.11

A todas as pessoas a que disse que só postaria amanhã: culpem a Annie (a)

 

Capítulo 7

Convivências Indesejadas

 

O tempo foi passando. A minha mãe estava certa numa coisa. Tinha escolhido ser amiga de Claire e do seu grupo, e estava bem explícita a lista de pessoas com quem podia, ou não, confraternizar. E por isso, cada vez que alguém me vê a falar com Caleb, o que só costuma acontecer durante a aula de Biologia, ou antes, por causa dos trabalhos, age como se um meteoro tivesse entrado na nossa atmosfera. Um grande escândalo. E claro, apesar de nem saber como ela descobre tão depressa, Claire espera-me com um enorme interrogatório.

- No que estás a pensar? – Perguntou Jay, inclinando-se para mim.

- Nada de especial – respondi-lhe, sorrindo-lhe.

- Ouçam, nós vamos ao cinema – disse Jordan, referindo-se a ele e às raparigas –, querem vir?

Cinema. Eu sei que me prometi sorrir quando me apetecesse chorar, e concordar com as coisas que eles fizessem e ir sempre para os sítios para que me convidassem, mas hoje não está a resultar. Hoje, mais que nunca, só quero chegar a casa e enfiar-me debaixo dos lençóis e adormecer, com esperança de que o amanhã demore a chegar para poder ficar mais tempo sozinha e descansada.

- Não me apetece pessoal, desculpem – disse-lhes, voltando-me para Jay em seguida – Mas tu devias ir, eu vou para casa.

- Tens a certeza? Eu posso ficar aqui contigo – respondeu logo ele, prontamente. Na verdade não queria ficar na companhia dele. Não queria ficar na companhia de ninguém.

- Não, eu vou para casa – reforcei, pegando na minha mala e no meu gelado – Até amanhã pessoal.

- Até amanhã – recebi, em coro.

Comecei a caminhar para casa, mas arrependi-me. Olhei em volta e após pôr o papel do meu gelado no lixo, já depois de o ter comido todo, segui para o parque. Na minha antiga cidade, após tudo acontecer, cheguei a refugiar-me no parque várias vezes. Costumava deitar-me nos bancos de madeira e ouvir o barulho dos pássaros e dos ramos das árvores a embaterem uns nos outros devido ao vento. Era… reconfortante.

Esta era a primeira vez que vinha a este parque, não era tão grande como ao que eu estava acostumada, mas também tinha a sua beleza. Era todo verde, e isso jogava a seu favor. Não consegui observar uma única folha seca. E também era limpo, coisa que era rara ser vista. Nem um único papel no chão. Procurei por um banco onde me sentar, mas a maioria deles estavam pintados de frescos, e os dois que não estavam, estavam ocupados por velhotes que não deviam ter mais nada para fazer.

Decidi então deitar-me na relva, visto que não estava molhada. Procurei um sítio meio escondido e deitei-me de barriga para cima, observando o céu, as nuvens…

Sinto-me tão minúscula, tão banal e desinteressante quando penso em todas as coisas que o universo alberga além de mim. Tantos mistérios, tantas coisas novas… e depois há eu. Drama. Tristeza. Mais drama. Coisas que não interessam quando são vistas num plano maior. O universo não ia dar a mínima para os meus problemas.

Fechei os meus olhos e respirei um ar puro, coisa que sempre pareceu deixar-me mais calma, e quando senti que finalmente estava a começar a relaxar, senti um peso atingir-me de lado e levantei-me num ápice, tendo tempo para ver uma bola de pêlo passar-me por cima. Fiquei sentada, a olhar para o lado, enquanto via Bolinha, o gato de Caleb, a eriçar-se cada vez mais e de garras pregadas à relva.

- Acalma-te – murmurei, sem saber se era para o gato ou para mim. Regra geral, os animais gostam de mim. Mas por alguma razão, este gato tem qualquer coisa contra a minha pessoa, de certeza – Bolinha… onde está o teu dono? – Sinceramente nem sei se esperava que me respondesse, mas quando não o fez senti-me decepcionada. Se calhar devia mesmo voltar a tomar os comprimidos…

Ele miou-me, de uma maneira um bocado mais agressiva que o normal, e eu pus-me em pé num salto. Será que o raio do gato me vai atacar? Mas eu não lhe fiz nada. Ai…

- Bolinha! – Ouvi. Era Caleb.

- Aqui! – Gritei-lhe, fazendo o gato miar uma vez mais – Shh, acalma-te. Credo – murmurei.

Caleb apareceu na minha lateral, por trás de um arbusto, e olhou-me confuso.

- Não me olhes assim, o teu gato é que esbarrou em mim – disse-lhe eu. Ele apenas continuou a observar-me.

- Onde estão os rapazes? – Perguntou-me.

- Que rapazes? – Ai a minha vida.

- Os rapazes que…

- Bolas, encontraste-o! – Ouvi, do meu outro lado. Olhei para lá e vi três rapazes mais novos que nós, com talvez uns doze anos, ou treze. – O pobre gato não tem escapatória. Nós bem o tentámos salvar… parece que está destinado a morrer.

Riram-se e desataram a correr. Olhei para Caleb, tinha o maxilar duro e as mãos fechadas em punho. Não sei se ele a matou ou não, mas sinceramente não acredito que isso tivesse acontecido. E esta situação não pode ser fácil para ele, ser acusado por todos… ser tratado de uma maneira tão diferente.

- As pessoas são cruéis – limitei-me a dizer-lhe, fazendo-o olhar para mim – Ninguém sabe o que aconteceu, eles estão apenas a ver o que querem ver.

- E tu? – Perguntou-me – O que é que vês? Porque é que não és cruel?

- Porque eu… - e eu ia dizê-lo. Ia dizer que sabia como se sentia. Que sabia o que era, de um momento para o outro, começarmos a ser tratados de maneira diferente, como se fossemos aberrações, ou palhaços de circo. Ia-lhe dizer que compreendia a situação e que já estive no seu lugar. Que apesar de nunca ter sido acusada de ter morto alguém, que muitos já se dirigiram a mim como a “miúda que se tentou matar”. Que sabia que nada do que se estava a passar era fácil. Mas não disse. Nenhuma dessas coisas. – Eu não acredito que a tenhas morto, Caleb. Não sei porquê, não tenho provas, é mais um pressentimento. Não me pareces um assassino.

Ele sorriu. Era sombrio, miserável, sozinho… daqueles que eu costumava dar quando não me esforçava para que parecesse verdadeiro.

- Deves ser a primeira a pensar isso – murmurou-me, assentindo com a cabeça – Obrigada.

- Tu agradeces-me demasiado – brinquei, sorrindo-lhe também. O gato miou-me novamente, eriçando-se mais, e Caleb aproximou-se dele para o agarrar ao colo.

- Bolinha quieto! – Ordenou-lhe, enquanto o agarrava. Parecia magia. No exacto momento em que o aninhou junto ao peito, o gato acalmou-se completamente – Queres fazer-lhe uma festinha?

Olhei para ele com indecisão e torci o nariz. Enchi-me de coragem e aproximei-me, pousando a minha mão no pêlo do Bolinha. Ele primeiro revirou-se, mas depois acalmou e ficou como se fosse uma estátua.

Caleb e Bolinha ficaram comigo por mais um pouco de tempo, ficámos os três sentados na relva, eu e Caleb à conversa. Pela primeira vez não tive que fingir um sorriso. Também não sorri verdadeiramente, simplesmente não sorri. Conversámos, e eu gostei disso, mas não senti aquela necessidade de sorrir para provar alguma coisa.

Caleb e Bolinha acompanharam-me até ao pé de casa, e quando lá chegámos eles seguiram caminho. Aí sim, dei por mim a sorrir enquanto abria a porta para entrar. Um sorriso verdadeiro. E sem ter sido causado por químicos das farmácias ou ter sido forçado. Genuíno.

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