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Our Scars

por Andrusca ღ, em 21.08.11

Capítulo 11

Boas Notícias

 

- Vá lá mãe, vais continuar a dar-me o tratamento do silêncio? – Perguntei, quando levei uma das últimas colheradas de cereais à boca. Ela não respondeu, em vez disso deitou-me um olhar e voltou a cara, para ver as notícias que passavam no telejornal. Suspirei. Quando queria ela conseguia mesmo ser casmurra como tudo – Mãe!

- Eu avisei-te para te manteres afastada daquele miúdo, ou não avisei?! – Perguntou, voltando-se repentinamente para mim – E agora descubro que ele passou aqui a noite a ver um filme de terror? Era suposto acreditar que foi apenas isso que aconteceu Dawn? Tu sabes, tão bem quanto eu, que somos associados às pessoas com quem confraternizamos. Queres ser associada a um assassino?!

- Ele não é um assassino! – Levantei a voz, e arrependi-me logo no momento a seguir – Ele não é um assassino, eu não acredito que ele a tenha morto.

- És jovem, ingénua. E ele aproveita-se disso. Eu não quero que sejas a próxima pessoa a aparecer morta numa vala, ou em casa. Vais-te manter afastada desse rapaz, estamos entendidas?

- Não – pensei antes de responder. Pensei mesmo. Mas de que me serviria mentir-lhe? Ela ia descobrir eventualmente – Mãe, é diferente quando estou perto dele. Torna tudo… mais leve. Com tudo o que aconteceu no passado, eu…

- Oh, por favor, não me digas que te estás a apaixonar pelo assassino – não foi o que ela disse, mas como o disse. Nunca tinha ouvido a voz da minha mãe sair daquela maneira. Mal podia sequer identificar o tom. Era nojo?

- Não mãe, não me estou a apaixonar pelo Caleb – garanti, levantando-me –, mas até agora, ele tem sido a única pessoa que me faz sorrir sem ter que fingir.

- Tu habituas-te a fingir – afirmou, com uma voz dura – A partir de hoje, escola, casa, casa, escola. Estamos entendidas?

- É bom saber que te preocupas mais com a imagem do que com a felicidade da tua filha. Boa mãe.

Agarrei na minha mala e saí de casa, batendo a porta com força. Ela é tão casmurra. Casmurra e egoísta e superficial! E a pior parte, é que eu era exactamente como ela. Provavelmente era por isso que nos dávamos tão bem. Para ela é melhor uma vida de fingimentos e de falsa felicidade, do que lutar pelo que queremos, mesmo que se perca qualquer coisa pelo caminho. Quem é que estou a enganar? Nesse aspecto, ainda sou como ela. As aparências… nunca conseguiria viver sem elas. É um dos motivos por que me juntei a Claire e ao resto do grupinho maravilha, porque sinceramente, a única pessoa de lá que gosto é a Marissa.

Mas estas atitudes deixam-me tão chateada. Quem é a Sra. Fitzburg para dizer que Caleb é uma pessoa má? Ela nem sequer o conhece!

Quando cheguei à escola já ia atrasada, por isso corri pelos corredores já meio vazios e bati à porta antes de entrar.

- Tu tens um dom para chegares tarde à minha aula, não tens Dawn? – Perguntou o professor, sorrindo-me.

- Desculpe – pedi, enquanto me dirigia ao meu lugar, exactamente ao lado de Caleb. Biologia, a primeira aula do dia, a única que tinha em conjunto com Caleb. E mesmo agora, depois de já cá estar há tanto tempo, os outros alunos ainda me olham de lado quando me vêem sentada ao lado dele.

Deitei-lhe uma olhada e um sorriso, coisa que ele me retribuiu, e depois comecei a tirar o meu material em silêncio.

- Pareces preocupado – observei, enquanto resolvíamos o exercício que nos tinha sido pedido.

- E estou – confirmou – O Tribunal convocou-me hoje. Tenho medo do que possam dizer.

Parei de escrever e deixei o lápis cair sobre a mesa, para em seguida me voltar para ele completamente.

- Tu não fizeste nada, não te podem culpar de uma coisa que não fizeste – afirmei – Queres que vá contigo? – Eu sei, a “general” disse que me queria bem longe de Caleb, mas às seis horas ela vai trabalhar, e só volta de manhã, por isso não tem como saber se cumpro, ou não, as coisas que me impõe.

- Fazias isso? – Perguntou. Parecia surpreendido. Independentemente de quantas vezes lhe dissesse que era amiga dele, ele nunca parecia acreditar plenamente nisso. Incrível.

- Sim, claro! – Exclamei, sorrindo-lhe de novo – Vais ter à minha casa?

- Sim, vou – agora sim, vi o sorriso que poucas vezes aparecia. Aquele que era genuíno e não forçado apenas para agradar.

Estive o resto do dia numa pilha de nervos. Queria saber o que iam dizer a Caleb. Mas também tinha medo do que pudesse vir daí. “És jovem e ingénua”. As palavras da minha mãe não paravam de me ecoar pela cabeça. E se ela tivesse razão? E se todos os outros tivessem razão e Caleb fosse mesmo culpado? Suspirei, nem sequer queria pensar nessa possibilidade.

Tinha acabado de lanchar quando a campainha tocou e me dirigi com Caleb para o Tribunal. Ele também estava nervoso, era-lhe impossível esconder, e eu consigo perceber porquê. Até eu estava, e nem era eu que ia ser julgada.

Entrámos e sentámo-nos à espera que a sua vez chegasse, o que só aconteceu horas depois. Eu tinha ido buscar umas sandes para jantarmos, por isso perdi a sua audiência, e quando cheguei de volta ao Tribunal, já ele me esperava cá fora.

- Já foi? – Perguntei.

- Já – ele não parecia feliz. Isso não era um bom sinal.

- E? – Perguntei, sem conseguir esconder a curiosidade.

- E… - alargou um sorriso enorme – já não sou um suspeito. Apareceram novas provas, o que faz com que fique livre. Já não sou suspeito Dawn!

- O quê?! – Gritei. E sem pensar, abracei-o, agarrando-me ao seu pescoço. Aos poucos senti-o a pousar as mãos nas minhas costas, e senti o seu sorriso junto ao meu pescoço – Isso é fantástico Caleb!

- Obrigado – agradeceu, quando nos largámos.

- Temos que celebrar… anda lá, comemos as sandes, e vamos dar um passeio, e sabe Deus que mais – pedi.

- Não sei…

- Anda lá! – Implorei – Estás livre Caleb… livre, livre, livre. Vamos comemorar.

Ele abanou a cabeça e riu-se.

- És louca – acusou. E eu fingi-me de chocada.

- Desculpa?! Só para que saibas, esta é na verdade a primeira vez que me apetece celebrar alguma coisa desde há uns meses atrás. Não me partas o coração – fiz beicinho e ele riu-se outra vez.

- Está bem, tu é que mandas – cedeu.

Andámos a deriva de um lado para o outro durante imenso tempo, tempo esse que mal dei por passar por mim. Acabámos os dois na praia, sentados na areia, a olhar para o mar que ia e vinha. O sol estava a começar a nascer de novo, estava na altura da lua e das estrelas desaparecerem e de um novo dia começar. E não havia melhor espectáculo que esse.

- Que lindo amanhecer (Dawn) – comentei.

- Não… - olhei para ele. Eu amava ver o nascer do sol, como é que ele podia dizer que não era lindo? Ele sorriu-me – Eu tenho uma bem melhor aqui ao lado.

Soltei uma gargalhada e abanei a cabeça. Não esperava por essa, admito isso. Trocadilhos… que se há-de fazer?

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