Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Our Scars

por Andrusca ღ, em 23.08.11

Uau, isto definitivamente não me saiu como planeado xD

Mas mesmo assim, espero que gostem (a)

Ah, hoje mesmo que queira, não posso postar mais, porque já só tenho um capítulo feito :x

 

Capítulo 14

Descobertas

 

- Oi Dawn – Uma rapariga com quem nunca tinha falado na vida, cumprimentou-me. Estranho. Dirigi-lhe um pequeno sorriso e depois continuei o meu caminho pelo corredor.

Já fazia uma semana e três dias desde que dera aquele beijo a Caleb, no meio da escola. E acho que as pessoas já se tinham acostumado a mim a andar quase sempre com ele. É assim que os namorados agem, certo?

- Bom dia Dawn – olhei para o rapaz que me falara, e dirigi-lhe também um sorriso com um certo ar de incompreensão. O que é que se está a passar? Pude jurar que vi um sorriso de gozo na sua cara, enquanto abanava a cabeça e continuava a andar.

- Estranho – murmurei, enquanto continuava também a minha marcha.

Sentia-me observada, pressionada, como se todos os olhos estivessem postos em mim. E quando consegui sair do meu mundo de pensamentos, percebi que estavam mesmo. Parei e voltei-me para trás, e todos aqueles que me observavam pelas costas disfarçaram, olhando para outros lados. Quando me voltei a virar para a frente foi a mesma coisa. Respirei fundo e continuei a andar, e quando fiz uma curva e entrei noutro corredor, todos se calaram. Olhei em volta. Isto não acontecia desde…

- Oi Dawn – não pude acabar de raciocinar, Claire aparecera-me à frente vinda do nada – Estás bem?

- Estou… - murmurei. Está bem, algo está errado. Claire não me dirigia uma palavra desde que beijara Caleb – porquê?

- Oh, tu sabes, apenas não queria que fizesses alguma coisa estúpida.

Franzi as sobrancelhas. O que é que ela quereria dizer com aquilo?

- Adeus Claire – disse-lhe, continuando a andar.

Dei poucos passos até ser de novo abordada por mais alunos com quem nunca tinha falado na vida. “Não estou a gostar disto”, murmurei.

- Dawn! – Ouvi. Voltei-me para trás e vi Marissa apressar-se para chegar a mim, atrelando o seu braço ao meu em seguida. Ela e Jay são os únicos que continuaram a falar comigo, após ter começado a namorar com Caleb. Por falar no Jay, não o vejo desde sexta-feira, andou desaparecido o fim-de-semana inteirinho.

- O que é que se passa? – Perguntei. Ela mordeu o lábio.

- Vais para Literatura, certo? – Perguntou, engolindo em seco.

- Sim… Marissa, o que é que se está a passar? – Insisti.

- Devias baldar-te, sim – franzi as sobrancelhas. Ela, a aconselhar-me uma coisa dessas? Isso não é dela. Mas mesmo assim, estávamos quase a chegar ao meu corredor e não abrandei o passo.

- Marissa – insisti.

- Lamento – limitou-se a dizer, largando-me e seguindo caminho para a sua sala de aula.

Estava com um mau pressentimento. Estranhamente, a professora já estava na aula, assim como metade dos alunos. Entrei e sentei-me, e de novo senti os olhares todos sobre mim. Engoli em seco.

Hoje íamos apresentar um livro que tínhamos lido, e a minha vez estava quase a chegar e os nervos apertavam. Já fiz dezenas de apresentações em aulas, mas nunca fico menos nervosa. E claro que ter todos os olhares sobre mim não ajuda. Quando a professora chamou o meu nome, levantei-me do meu lugar e caminhei até ao quadro de giz, voltando-me em seguida para a turma.

- A minha apresentação vai ser sobre…

- O porquê de adolescentes de quererem matar? – Paralisei por completo, e logo a seguir senti-me a tremer. Olhei para o rapaz que me tinha interrompido, conhecido por não ter qualquer pingo de vergonha e muito menos respeito.

- O que é que disseste? – Perguntei, com a voz a falhar-me. Ele soltou uma gargalhada.

- Nunca pensei que se pudesse sobreviver assim – disse outra rapariga.

- Podes mostrar-nos as cicatrizes? Nunca vi. Mostra-nos! – Disse outra.

A única razão por que não caí foi porque me apoiei no quadro. O ar estava a custar a entrar, e em poucos segundos parei de os ouvir. Sei que falavam todos ao mesmo tempo e que a professora estava a tentar manter a ordem, mas não conseguia perceber nada. A minha visão estava turva por causa das lágrimas. Isto não podia estar a acontecer.

- Dawn! Dawn! – Fui chamada à realidade com a professora a abanar-me compulsivamente e fiz com que me largasse, para me dirigir depressa às minhas coisas e as agarrar. Apenas olhei para ela e abanei a cabeça, antes de desatar a correr para fora daquela sala. À medida que corria pelos corredores, em direcção à casa de banho, as lágrimas começaram a escorrer-me pela face. Estava a acontecer outra vez. Tudo.

Fechei a porta da casa de banho à chave e larguei a minha mala para o chão, enquanto também eu me deixava cair. Agora sei porque todos me olhavam, sei porque davam as pequenas risadas e compreendo a falsa preocupação de Claire. Percebo a razão de Marissa me ter aconselhado a não ir à aula, e o facto de fazerem silêncio quando me aproximava.

Bati com a cabeça na parede e deixei que as lágrimas corressem com mais força. Não era a primeira vez, mas doía tanto, ou mais. Já me tinha escondido, refugiado longe de todos, para chorar, para deprimir, para ficar mal. Já o tinha feito bastantes vezes. Mas nunca aqui. Nunca nesta cidade. E agora, quando começava a pensar que talvez nunca tivesse que o fazer, todos descobriram. E agora aqui estou eu, uma vez mais, alvo de juízos errados, julgada por pessoas que mal me conhecem. A ser lembrada do pior erro da minha vida.

Ouvi a campainha a tocar para o intervalo, mas nem me mexi. Estava presa no meu próprio mundo, demasiado enterrada para sair. Várias vezes senti as pessoas a tentarem abrir a porta, mas claro, não conseguiam.

Num momento de puro desespero despejei tudo o que tinha dentro da mala para o chão e abri o estojo, onde tinha as canetas, lápis, e… a tesoura.

Levantei-me rapidamente, com ela na mão, e andei a tremer até ao pé das bacias. Desviei o cabelo dos olhos com a minha mão livre e vi uma figura que me trazia pesadelos. A minha face estava pálida e os olhos vermelhos, de tanto chorar, e sem vida. O cabelo estava todo despenteado, e os caracóis caiam para todos os lados, de tanto já os ter desviado.

Não conseguia parar de chorar, e a minha respiração estava irregular. Abri a tesoura e olhei para os pulsos. Engoli em seco e encostei a ponta da tesoura ao pulso esquerdo, dando por mim a tremer completamente. Tinha que o fazer. Não há propósito em viver. Não assim.

 

- Olhem! – Ouvi, da minha lateral. Lá estava uma rapariga alta, e algo bonita – Ela tentou matar-se. Não consigo perceber o porquê de não ter ido avante, não faz cá falta.

Tentei desviar a minha atenção dos comentários maldosos, mas assim que voltei a cabeço vi-os. Ex melhor amiga e ex namorado. Aos beijos. Devia ter previsto isso. Leanor, a ex melhor amiga, olhou para mim e sorriu falsamente, enquanto puxava mais aquilo que foi meu, para ela.

 

As memórias assolaram-me de uma maneira mais que veloz, mas eu apressei-me a pará-las. De novo, olhei para o que fazia. Pressionei um pouco o bico da tesoura contra o pulso, mas depois parei subitamente. Quem é que estava a enganar? Não terminei o que tinha começado antes, porque haveria de terminar agora? Não me iria matar. Não tinha a coragem para isso. Mas o que acontece quando também não tenho a coragem para viver?

Soltei um grito de puro desespero que há muito se tinha formado na minha garganta e mandei a tesoura para o chão, fazendo-a ricochetar várias vezes antes de assentar completamente. Dei um soluço, um efeito do choro compulsivo em que tinha entrado, e depois desviei-me das bacias. Tinha que sair daqui. Tinha que sair… Enfiei as coisas à balda dentro da mala, incluindo a tesoura, e destranquei a porta desajeitadamente, para depois sair. De novo, todos os olhares estavam sobre mim, e agora, o meu mau aspecto. “Corre!”, gritei, internamente. Corri. Corri, e quando estava prestes a chegar à saída, embati nele.

- Dawn – murmurou, agarrando-me pelos ombros – Lamento tanto, eu…

- Cala-te! – Gritei-lhe – Eu confiei em ti Caleb!

- Eu não disse nada – garantiu, agarrando-me o braço com força. Ele não disse nada? Ele era a única pessoa que sabia. A única que podia ter alguma informação para revelar. Não havia mais ninguém, apenas ele.

- Estás-me a magoar – queixei-me, mas ele não aliviou a força – Larga-me!

- Dawn… - não esperei mais, dei-lhe uma chapada. E resultou, ele largou-me. Não lhe dei tempo para nada mais, recomecei a correr. E só ia parar quando estivesse a salvo novamente. Em casa. Sozinha. Em paz.

16 comentários

Comentar post

Pág. 1/2