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Our Scars

por Andrusca ღ, em 24.08.11

Capítulo 15

Incompreendida

 

Acordei com o som da porta da rua a bater, e levantei ligeiramente a cabeça. Algures entre o choro, a decepção e a vontade de acabar com tudo, tinha adormecido abraçada a uma das almofadas que enfeitam a minha cama, a meio da manhã. Olhei para o relógio que estava em cima da mesa-de-cabeceira, era quase uma hora, a minha mãe já chegou, de certeza que foi ela quem fez o barulho a entrar. Engoli em seco e levantei-me lentamente. O que é que lhe ia dizer? Como é que lhe ia dizer?

- Dawn? – Ouvi, do andar de baixo.

- Vou já! – Gritei, com a voz rouca do choro.

Fui até à casa de banho e passei a cara por água, se bem que não melhorou o meu aspecto. Não parei de me sentir a ferver, não disfarçou os meus olhos vermelhos, e certamente não me impediu de ter vontade de continuar a chorar.

- Sim mãe? – Perguntei, quando desci e a encontrei na cozinha. Vi que estava rígida, e parecia bastante chateada – O que é que se passou?

- Diz-me tu – disse, com um tom severo – Que raios é que se passou Dawn? Como é que todas as pessoas já sabem do que aconteceu contigo? Fazes alguma ideia das perguntas que as minhas colegas me fizeram por te teres tentado suicidar?!

Não sei o que doeu mais. Se o facto de todos terem descoberto a verdade, ou se o facto de ser apenas com isso que a minha mãe se preocupa. As aparências. Que hipocrisia. Ela não faz ideia do inferno que enfrentei hoje. Não faz a mais pequena ideia de como me senti.

- Agora vamos falar sobre esse assunto? – Perguntei, também numa voz dura – Pensava que nunca íamos falar disso, afinal, sempre que tocava nesse assunto tu mudavas de conversa.

- Fazes ideia da vergonha que passei?!

- Bem, desculpa se eu tentar suicidar-me é uma vergonha para ti! – Gritei – Desculpa lá se as tuas colegas e “amigas” fazem perguntas de treta e se tu tens vergonha em ter uma filha como eu! Mas sabes que mais?! Isto também não é fácil para mim! Não foste tu que tiveste a escola inteira a comentar a tua vida nem a dar risadas! Mas já que sou uma vergonha tão grande, nem quero pensar como a avó se sentiu contigo.

- Desculpa?!

- Ou pensas que nunca vi as tuas pernas? Podes tentar esconder o quanto quiseres mãe, mas as cicatrizes continuam aí. Podes não te ter tentado matar, mas que gostavas de facas gostavas. Lamento se saí a ti.

Desde a parte em que acabei de falar, até ter a minha bochecha esquerda a arder da chapada que acabara de levar, não se devem ter passado mais de dois segundos. Levei a mão à bochecha e olhei para a Sra. Fitzburg, que me olhava com um misto de culpa, mas também de raiva.

- Dawn…

- Não – interrompi – Não me podes arranjar mãe, não sou um brinquedo.

- O que é que supões que façamos? O que…

Interrompi-a com a resposta à pergunta que me fizera. E tinha a certeza que era a decisão acertada. Ela havia de perceber, tinha que perceber. E para minha surpresa, concordou sem sequer ripostar.

Depois de termos um almoço sob um ambiente pesado e nada convidativo, tomei um banho de água fria e, enquanto a minha mãe voltou para o Hospital, eu vesti outra roupa e saí de casa. Precisava de espairecer, de pensar, de ficar sozinha num sítio que me acalmasse. E bem longe da escola.

E não tardei a chegar lá.

Respirei fundo e expirei aquele ar fresco a maresia e a natureza que pairava por aqui. Gostei deste sítio, é calmo, pacifico, e não tenho ninguém a olhar-me de lado nem a comentar a minha vida. Sentei-me no chão, encostada a uma pedra solta que por aqui parava, e limpei mais uma das traiçoeiras lágrimas que tinha teimado em escorrer neste momento. Agora que as coisas até estavam a correr bem, tinha que acontecer isto. Só desejava voltar atrás no tempo. Agora, mais que nunca, desejava nunca ter acordado naquela cama no Hospital, e de me ter esvaziado em sangue. Gostava de ter apenas morrido em paz.

Senti o telemóvel a tremer no bolso das calças e tirei-o. Uma mensagem. Não conheci o número, não estava identificado, mas abri-a na mesma.

 

Agora que todos sabem o teu segredinho, não achas que devias ter escolhido melhor com quem ficar? Este é o preço que pagas. Virá mais. Até lá… cabra.

 

Engoli em seco. Que raios?

- Tive o pressentimento de que te ia encontrar aqui – ouvi, vindo de trás de mim. Mas nem olhei, não era preciso.

- Porquê? Porque é um bom sítio para me matar de vez? – Perguntei, com a voz cheia de sarcasmo misturado com raiva e melancolia. Se me mandasse desta falésia era certo que não voltava à vida.

- Tu não te vais matar – afirmou Caleb, pondo-se no meu campo de vista, à minha frente.

- O que te faz ter tanta certeza? – De novo, não reconheci bem a minha voz. Bem, reconheci, mas de outros tempos.

- Eu não disse nada a ninguém Dawn – afirmou, sem perder mais tempo, deixando-se cair de joelhos à minha frente – Nunca te faria isso, juro. Nunca iria magoar a única pessoa que foi boa para mim. Tens que acreditar em mim – com a sua mão elevou-me a cabeça de modo a que o olhasse nos olhos, e sorriu debilmente – Dawn, tantas vezes me olhaste nos olhos e viste o que sentia… não podes mesmo acreditar que te trairia desta maneira, podes? Tu sabes como eu me sinto. Eu… eu amo-te Dawn.

Engoli em seco enquanto o deixava limpar-me mais uma daquelas lágrimas, e em poucos segundos estava encostada ao seu peito, com os seus braços a apertarem-me cada vez, como se temessem que fugisse.

- Eu quero acreditar em ti – afirmei, quando ele me soltou, fazendo-o franzir as sobrancelhas –, mas já não importa. Vou-me mudar. Amanhã.

 

Não se esqueçam de votam na poll na história que querem a seguir ^^

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