Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Our Scars

por Andrusca ღ, em 25.08.11

Capítulo 18

Uma Noite dos Diabos

 

Depois de pagar pelas duas garrafas de sumo, agarrei no saco de plástico em que estavam e saí da mercearia. De novo, a minha mãe estava no turno da noite, deixando-me sozinha. Olhei para o céu, estava limpinho de nuvens, dava para se avistar perfeitamente aqueles pequenos pontos brilhantes denominados de estrelas. Estava uma brisa fresquinha, por isso ajeitei o meu casaco de malha nos ombros. Comecei a caminhar pela rua, com calma. Pela primeira vez em tempo demais, não me apetecia fechar-me em casa sozinha. Queria aproveitar a noite agradável que estava.

Estava a entrar na minha rua quando tive um calafrio. “Pronto, talvez a noite não esteja assim tão agradável”, pensei.

Entrei em casa e fui pousar o saco em cima do balcão da cozinha, mas algo despertou a minha atenção. Engoli em seco e aproximei-me do sítio em que todas as facas costumavam estar guardadas, e constatei que faltava uma. “Tem calma, se calhar deixaste-a noutro sítio”, pensei. Tentei acalmar-me, mas quando fui acender a luz, milímetros antes e tocar no interruptor, uma mão familiar agarrou na minha e encostou-me à parede com força. Ia-lhe perguntar o que estava aqui a fazer, ainda por mais com tudo às escuras, mas quando os meus olhos voaram até ao objecto pontiagudo que empunhava, paralisei por completo.

- Caleb… - murmurei, com a voz a sair-me baixa devido ao pânico – estás-me a assustar.

- Shh – mandou. Engoli em seco. Que raios é que se está a passar? – Não estamos sozinhos.

Ele espreitou para a sala e voltou a encostar-se à parede, tal como eu estava. Lentamente comecei a subir a minha mão, até ao telefone que estava pendurado na parede, e tirei o auscultador.

- Podes tentar, mas é escusado. Ele cortou a linha – sussurrou. “Ele? Ele quem?!”. Encostei o auscultador ao ouvido e vi que de facto não havia sinal.

- Ele quem? – Perguntei, também baixo – Caleb, o que é que se passa?

- Vi-o entrar pela porta das traseiras, e por isso vim ver o que estava cá a fazer. Dawn…

- Eu vou sair daqui – disse, sem o deixar acabar. Não conseguia perceber o que se passava, mas neste momento não queria saber. Só queria sair daqui, fosse para onde fosse.

Corri, mesmo às escuras, até à porta e quando ia alcançar as chaves para a destrancar vi que já não estavam em cima do móvel onde as tinha deixado.

- Dawn! – Chamou-me Caleb. Porém, quando me voltei para ele, apenas ouvi um barulho de algo a bater, e o vi a cair. Caiu de frente para o chão, e a faca que tinha na mão deslizou pela minha sala. Com a luz que vinha da rua pude observar uma silhueta por trás dele, e o meu coração apertou-se mais que nunca.

- O que é que estás aqui a fazer? – Perguntei, com a voz a tremer. Na sua mão vi outra faca, mas aquela não era das minhas, não a reconhecia – Jay…

- Cala-te! – Gritou-me, fazendo-me tremer. Comecei a andar lentamente, a contornar a parede, com esperança de encontrar uma brecha de espaço que me permitisse passar para as escadas.

- Foste tu – acusei, com a voz a tremer, sempre com os olhos nele – Tu mataste a Dana. Tu é que me mandaste aquela mensagem.

- Ela mereceu – afirmou, com um ar de louco, confirmando o meu mais recente pensamento. Engoli em seco.

- Mas porquê? – Perguntei – Porque é que a mataste?! O que é que queres comigo?!

- Tudo! – Gritou-me, fazendo-me tremer ainda mais – Ela preferiu-o a ele. Tal como tu. Até te dei várias oportunidades para me escolheres a mim. Para me amares a mim. Tu escolheste morrer, Dawn. Só estou a acabar o que começaste há meses atrás.

- O Caleb não disse nada a ninguém. Tu descobriste. Como é que descobriste?

- Quando o beijaste, à frente de todos, na escola, onde estávamos todos juntos… - ele estava a começar a descontrolar-se, por isso parou e tomou uma golfada de ar, para continuar com a voz mais baixa – Senti nojo de ti. E nesse momento, soube que ias ter o mesmo fim que aquela vadia. Lembras-te do fim-de-semana em que ninguém soube de mim? Pesquisa. Tudo o que foi preciso foi descobrir a tua morada antiga, ir lá, lançar olhinhos a umas miúdas e contaram-me a história toda. Devias-me ter escolhido Dawn, já viste a confusão que criaste?

- És um psicopata – murmurei, baixo, devido ao pânico que me percorria o corpo.

- Talvez… mas ninguém precisa de saber isso, pois não? – Num movimento rápido mandou-se a mim de faca empunhada, mas eu desviei-me e a faca ficou presa na parede, o que me deu uma oportunidade de fugir pelas escadas acima. Ele não iria magoar Caleb, primeiro queria-me a mim, disso tinha a certeza.

Corri como nunca tinha corrido na minha vida, mas quando estava quase a alcançar o topo das escadas, senti-me ser agarrada no tornozelo, que logo em seguida foi puxado, e caí, batendo com a testa num degrau.

- Pensava que querias morrer Dawn! – Gritou-me, com uma voz que definitivamente não lhe reconheci.

- Pensávamos mal! – Gritei-lhe. Olhei para trás e comecei a tentar soltar-me das mãos de Jay, dando pontapés, o que ao fim de um bocado até consegui. Corri para dentro do meu quarto e fechei a porta à chave. Levei a mão ao bolso e digitei o número da polícia no meu telemóvel, enquanto estava toda a tremer, mas mal pus a chamar ele desligou-se. A bateria acabara-se.

- Raios! – Murmurei – Pensa, pensa, pensa!

Mas não conseguia. Não conseguia pensar. Estava demasiado em pânico. Abri a janela do quarto e espreitei, mas assim que o fiz vi-o na janela do quarto da minha mãe, ao lado, a olhar para mim e a sorrir-me diabolicamente. Voltei a pôr-me para dentro e fechei a janela, mas vi-o começar a dirigir-se a ela, por cima das telhas. Corri até à porta e destranquei-a, voltando a correr até ao rés-do-chão em seguida. Caleb ainda estava desmaiado. E se estivesse realmente magoado? Tinha que arranjar uma maneira de atrair a polícia e uma ambulância.

Corri desajeitada até à cozinha e agarrei numa das facas, mas assim que ouvi passos baixei-me e encostei-me o mais que pude por trás balcão. Tapei a boca com a mão, para não fazer barulho a respirar, ou a soluçar – coisa que já estava.

- Dawn? – Ouvi, num tom de voz psicopata – Eu sei que estás aqui. Dawn?

Pela milésima vez, engoli em seco e depois pus-me de joelhos, aproximei-me da ponta do balcão e espreitei, vendo os seus pés demasiado próximos.

Voltei-me de frente para o balcão e fiquei a olhar para o topo, a tremer por todos os lados. Apesar de expectante, quando Jay apareceu repentinamente no topo do balcão, gritei. Gritei como nunca antes tinha gritado. Pus-me de pé rapidamente e espetei a faca na sua mão, que estava apoiada no balcão, fazendo-o gritar também.

- Sua vadia! – Gritou.

Corri pela lateral e quando estava a chegar à sala outra vez, ele agarrou-me no ombro, voltou-me para ele e bateu-me com brutidão, fazendo-me cair estatelada no chão. Olhei para ele enquanto sentia o meu coração disparar e as lágrimas a quererem sair com força.

Era isto. O fim. Finalmente ia conseguir concretizar aquele estúpido desejo. Finalmente ia morrer. E a parte estúpida é que apenas agora, quando estou tão perto disso, é que percebo que nunca quis isso realmente. Quero acabar o liceu, entrar na faculdade, casar, criar família, morrer velhinha ao lado de alguém que ame.

Uma lágrima escorreu-me e vi-o formar um sorriso.

- Jay… - murmurei.

- Ela implorou – disse, fazendo-me um olhar que me fazia arrepiar até os pêlos dos braços – Implora!

Ouvi o barulho de vidro a partir e Jay revirou os olhos, mas quando ia a cair para cima de mim foi agarrado por trás e mandado para o lado, fazendo um ruído bastante forte ao cair junto ao chão, ao lado de cacos da jarra favorita da minha mãe.

Nem depois de ver Caleb, bem e em pé à minha frente, consegui arranjar forças para me mover. Simplesmente não as tinha. Estava em choque. Apenas tremia e chorava, tremia e chorava.

Caleb deixou-se cair à minha frente e envolveu-me nos seus braços, apertando-me.

- Está tudo bem – murmurou-me, ao ouvido, enquanto me apertava mais – Estás bem Dawn.

 

Houve várias pessoas que quase acertaram o fim disto, mas erraram no mais importante: a pessoa.

Aparentemente a Claire não pode ser a má da fita em tudo...

Posto o último amanhã se/quando tiver 10 comentários (a)

14 comentários

Comentar post

Pág. 1/2