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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 29.08.11

"- Vá Rick, não sejas rude – ralhou-lhe a mãe – A Nicole é uma convidada.

- Porquê? – Insistiu ele – De onde é que se conhecem?

- Bem… - dei um passo na sua direcção e pressionei os lábios um no outro, olhando Rick – eu costumava vir cá para casa brincar com a tua irmã.

- C’um caraças – exclamou – Tu eras a rapariga da casa que tem estado vazia. Eu sabia que reconhecia o nome, mas não me conseguia lembrar de onde.

- Exacto – confirmei.

- Mas tu apenas desapareceste. O que é que se passou contigo?

- Eu… posso falar contigo a sós? Só um segundo? – Pedi."

 

Capítulo 2 (parte 2)

A Antiga Casa

 

Ele assentiu com a cabeça e encaminhou-nos para a cozinha, deixando para trás algumas pessoas bastante confusas. Entrámos na cozinha e ele fechou a porta, observando-me em seguida.

- Não podes contar nada a ninguém acerca dos fantasmas – afirmei, baixinho.

- Ainda andas a acreditar nisso? – Parecia incrédulo, aparentemente já se esqueceu de que eu adivinhei o que ele estava a fazer com as mãos sem sequer as ver.

- Ouve, eu não ando aí a dizer às pessoas que vejo espíritos, ok? Só te disse porque primeiro, não queria ir presa, e segundo, pensava que nunca mais te ia ver à frente, por isso não importava. Mas é um segredo, não o podes dizer a ninguém Rick.

- Rick? De manhã era agente Fallon e agora é Rick? Uau, miúda, tu evoluis depressa.

- Se me lembrasse que tu é que eras o filho nem tinha posto cá os pés – reclamei.

- Tudo bem, não digo nada. Ainda te acho maluca, mas vou deixar essa opinião para mim. Mas vais ter que me dizer o que te aconteceu. A tua família desapareceu de um momento para o outro.

Abanei a cabeça e dirigi o olhar para o chão, enquanto sentia o seu olhar cada vez mais preso a mim.

- Talvez um dia te conte.

- Tu és uma pessoa esquisita – reclamou.

Nesse momento Albert apareceu por trás dele. Olhava o filho com admiração, era óbvio que estava orgulhoso do posto que tomara e de quem se tornara.

- Ei, ouve… - mordi o lábio e respirei fundo – lamento a morte do teu pai.

- Como é que sabes? – Notei que não esperava esta afirmação e que ficou um bocado sem jeito para responder, mas também reparei que não queria mostrar isso.

- Ele…

- Consegues ver-me, não consegues? – Fui interrompida por Albert, que claro, apenas eu ouvi. Assenti com a cabeça e sorri-lhe, fazendo com que Rick olhasse para o mesmo sítio que eu.

- Ouve Rick, não interessa – disse eu – Ele está orgulhoso por ti, isso eu consigo notar.

Saí da cozinha, deixando-o ali especado, e juntei-me ao resto da família para almoçarmos. Rick apareceu segundos depois, ainda meio aparvalhado, mas não se descaiu em relação a nada. Depois do almoço, eu e Sheilla ajudámos Eleanor a arrumar as coisas enquanto James ficou a entreter os filhos e Rick voltou para o trabalho. Quando acabei de limpar a loiça que Sheilla lavava, fui à casa de banho, e assim que entrei e fechei a porta Frank apareceu-me à frente, pregando-me um susto.

- Já te pedi para não fazeres isso – resmunguei-lhe.

- Sou um fantasma, não posso propriamente bater à porta, certo? – Reclamou ele, suspirando.

- O que é que queres? – Perguntei, revirando os olhos.

- O teu amigo está em problemas – Frank pareceu preocupado, o que é raro de se ver.

- Que amigo? – E eu estava sem paciência para receber as informações aos bocadinhos.

- O do FBI, sua idiota – disse ele, abanando a cabeça. Ok… se calhar não sou a única sem paciência – Ele está a caminho do armazém onde foi a morte há bocado Nikki.

- E então? – Perguntei.

- E então, que os assassinos estão lá – explicou, com a voz que usa já quando está a ficar enervado – Ele vai morrer! E está sozinho, ainda por cima!

- Está bem, acalma-te – murmurei, mais para mim do que para ele, que me olhou incrédulo – Eis o que vai acontecer. Vai ter com o Rick. Mexe umas caixas, faz uns sons, não quero saber. Evita que os homens o aleijem, percebido? Fica lá.

- Então e tu? – Perguntou.

- Eu vou demorar um bocadinho mais a chegar lá, não posso simplesmente desejar estar lá e puff, já estou. Mas vou lá ter. E Frank… - Frank olhou para mim à espera que continuasse, e eu mostrei-lhe um pequeno sorriso – Obrigado.

Ele assentiu com a cabeça antes de desaparecer, e eu suspirei. Lavei as mãos e assim que me voltei para a porta, vi o pai de Rick, Albert, lá especado, o que me fez saltar também. Qualquer dia tenho um ataque cardíaco por causa dos fantasmas. E assim junto-me logo a eles.

- O que posso fazer? – Perguntou-me.

- Número do FBI. Preciso dele – pedi, enquanto saía da casa de banho.

- Perto do telefone, primeira prateleira – informou. Fui buscá-lo onde ele tinha dito e copiei-o para o meu telefone. Depois apressei-me a ir até à cozinha ter com Sheilla e Eleanor, que estavam de conversa.

- Obrigadíssimo pelo almoço, foi tudo óptimo, mas tenho que ir – afirmei, à pressa, enquanto agarrava no meu casaco que estava em cima de uma das cadeiras.

- Mas…

- Desculpe Eleanor – interrompi – Eu vou dando notícias, juro. Até logo.

Saí sem lhes dar qualquer oportunidade de dizer mais nada, e corri até ao princípio da rua, onde era a praça de táxis. Disse a morada ao taxista e afirmei que estava com pressa, para que se despachasse a deixar-me lá. Disquei o número do FBI e pus a chamar, pedindo para falar com o agente Kohl assim que me atenderam. Identifiquei-me e disse-lhe que o seu parceiro estava em perigo, no armazém, mas desliguei logo em seguida, sem lhe dar oportunidade para perguntas. Assim ele iria verificar, e eu não tinha que responder a um questionário.

Quando chegámos, paguei e saí a correr em direcção ao armazém. Entrei pelos fundos e ouvi tiros. Engoli em seco. Mortos não me metiam – muito – medo, mas… estas coisas podem ferir-me realmente. Isso sim, deixa-me petrificada. Entrei baixada e escondi-me atrás de umas caixas de papelão, mas ainda não conseguia ver ninguém. Frank apareceu ao meu lado, também agachado ao pé de mim.

- Eu pedi-te para impedires isto – sussurrei, chateada.

- Desculpa, acobardei-me – desculpou-se ele – A situação assusta, está bem?

- Frank, tu és um fantasma há trinta anos por amor de Deus. As balas passam por ti, nem sentes nada! – Reclamei – Estás morto, não tens nada a temer. Por isso faz qualquer coisa!

- O quê?!

- Ok… onde está o Rick? Está ferido?

- Está resguardado atrás de um armário de metal, mas aquilo já não vai aguentar muito mais balas.

- Quantos são?

- Três.

- Está bem… preciso que vás desviando aquela mesa de metal – apontei para a mesa, que estava à nossa esquerda – à minha frente enquanto eu passo até ele. Frank, não me faças levar um tiro.

- Está bem… eu consigo fazer isso, eu consigo.

Deitou a mesa a baixo, com o pensamento claro, e pô-la à minha frente. Corri até à outra ponta do armazém, pondo-me ao lado de Rick, e a mesa acompanhou-me sempre, levando com umas quatro balas no mínimo. Rick olhou para mim em choque.

- Como é que fizeste isso?! – Perguntou-me – E o que raios é que estás aqui a fazer?!

- O Frank disse-me que estavas em sarilhos, mas não te preocupes, telefonei ao FBI, o teu pai deu-me o número – respondi-lhe, vendo-o ficar cada vez mais céptico.

- Quando sairmos daqui, vou-te internar. É pelo melhor – murmurou, disparando uma vez mais sobre os homens – Raios, estou a ficar sem balas.

- Frank, consegues explodir as luzes? – Perguntei, para Frank, que ainda não tinha saído do meu lado.

- O meu nome é Rick – disse-me Rick. “Matem-me apenas”, pensei. Decidi ignorar, foi pelo melhor.

- Vamos assustá-los como nunca antes, está bem? – Perguntei, também para Frank.

- Posso tentar – murmurou ele. Fez uma careta e as luzes explodiram, fazendo com que Rick desse um pequeno pulo e os tiros parassem. Ele não era o único que estava assustado.

- Frank, a mesa – pedi –, manda-a a eles.

- É para já.

Frank olhou para a mesa e só a vi voar para fora do meu campo de vista, mas pelos barulhos, tinha acertado em cheio.

- E abana o resto das coisas – tudo bem, agora estava a exibir o meu “fantasma de estimação”.

- O que é que se está a passar? – Perguntou-me Rick.

- Podes apenas aproveitar? – Retorqui-lhe.

Ele assentiu, ainda que contrariado, e recomeçou a disparar sobre os homens, que caíram imediatamente, segundo o que Frank me reportava. Rick saiu do “esconderijo” e eu espreitei, para ter a certeza que estava tudo acabado. Dei por Rick e olhar para todos os lados no armazém, boquiaberto e cada vez mais pálido.

- Rick – pousei-lhe a mão no ombro, mas ele não olhou para mim. Em vez disso abanou a cabeça.

- Eu acredito em ti – proferiu, ao mesmo tempo que íamos ouvindo carros a chegarem. – Apenas não sei como raios é que vou escrever o meu relatório.

 

Hoje foram dois, mas amanhã é só um que é para poupar, estamos em crise :p

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