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O Véu entre Mundos

por Andrusca ღ, em 31.08.11

" - “É o Rick”.

- Oh… olá – mas o que é que ele quer? Só espero que agora, ao fim de quatro dias, não venha à procura de explicações, porque sinceramente já não sei que mais lhe dizer.

- “Ouve, não queria ser chato, mas… preciso da tua ajuda” – o quê?!

- Para quê?

- “Podemos falar pessoalmente? Há alguma sítio a que possa ir ter contigo?”

- Na minha casa? Mas… - comecei a pensar a que horas é que iria chegar – não apareças antes das seis, não vou lá estar.

- “Combinado. Até logo”.

- Está bem.

Está bem, isto foi estranho no mínimo. O que será que ele quer de mim afinal?"

 

Capítulo 3 (parte 2)

A Ajudante

 

 

Tratei do resto da papelada e fiquei de ir buscar o carro amanhã. Quando cheguei a casa eram cinco horas, e os barulhos continuavam.

- Vá lá pessoal, sejam bonzinhos – implorei.

- Vai-te lixar – respondeu-me uma voz feminina.

- Tu também – Murmurei, revirando os olhos e suspirando.

Vesti uns calções de fato de treino, azul clarinhos, e um top de alças preto, e atei o cabelo. Ia continuar com as limpezas. O andar de cima e o sótão já estavam, só faltava o rés-do-chão e a cave.

Primeiro pus a mobília da sala toda a um canto, aquela que não consegui carregar para a rua. Iria pedir aos homens da entrega da nova mobília para a tirarem. Depois comecei a lavar as paredes, coisa que me pareceu demorar uma eternidade. Aspirei o chão e tirei todas as teias de aranha que consegui encontrar, o que não eram tão poucas assim. Quando a campainha tocou, estava quase a acabar de lavar o chão, que agora já parecia ser de madeira reluzente e não de asfalto, por causa de toda a sujidade.

- Já vou! – Gritei.

Espreitei e vi Rick. Raios, tinha-me esquecido dele. Olhei para a minha figura, o meu fato de treino de azul clarinho já pouco tinha, mais parecia cinzento. “Bem, que se lixe”, pensei. Abri a porta e ele sorriu-me. Sorriso esse que me fez logo desconfiar. Não deve querer coisa boa.

- Estava nas limpezas. Por favor, entra – cumprimentei, sorrindo-lhe também.

Ele entrou e ficou especado junto às escadas, enquanto eu acabava de passar com as esfregona no chão. Indiquei-lhe que esperasse na cozinha, e quando lá cheguei dei com ele sentado numa das cadeiras. Nem tive a coragem de lhe dizer que aquilo ainda não tinha sido limpo.

- Desculpa, fiquei preso numa coisa no trabalho – desculpou-se ele.

- Desculpa porquê? – Perguntei, encostando-me à bancada à sua frente.

- Estou duas horas atrasado… - murmurou.

- Oh! Não faz mal. Nem tinha reparado. Então, o que é que queres?

- Directa aos negócios.

- Rick, eu estou a ter o pior regresso a casa de sempre, e não durmo há dias. Por favor, tem piedade – pedi.

- Preciso da tua ajuda com o caso em que estou a trabalhar agora. Chegámos a um beco sem saída Nicole, e pensei que talvez nos pudesses indicar um caminho, sei lá.

- Eu? Rick, eu não sou uma agente, ou polícia, nem sequer assisto séries ou filmes desses. Não sei uma única coisa de leis ou crimes.

- Eu sei mas… tu… vês… mortos – disse, mordendo o lábio de cima enquanto fazia uma cara estranha. – Pensei que talvez pudesses falar com a vítima, por favor? Vá lá, tenta apenas.

- Não funciona assim. Eles vêm a mim, não ao contrário. Rick, e mesmo que o encontrasse, as informações podiam não ser válidas. A vítima acabou de morrer, as memórias devem estar todas torcidas, e… às vezes fantasmas confundem coisas.

- Vá lá Nicole, por favor. Um assassino vai ficar livre, se não nos ajudares. Por favor…

- Acho que posso tentar…

A luz voltou a piscar, e Rick olhou para o candeeiro ao mesmo tempo que eu, franzindo as sobrancelhas em seguida.

- Acho que tens problemas eléctricos… queres que dê uma vista de olhos? – Perguntou.

- Oh… eles são problemas, não são é eléctricos – ele olhou para mim confuso – Fantasmas Rick, são fantasmas. Eles interferem nas partes eléctricas e em tudo o que quiserem e tiverem poder. Mas claro que as luzes a piscar é um cliché.

- Queres dizer… há fantasmas aqui, agora?

- Tenho a certeza que sim.

- Mas não os vês?

- Apenas quando querem que os veja. São eles que se mostram.

- Isso é arrepiante – nisto começámos a ouvir pequenos barulhinhos que se podiam distinguir como passos de ratos, e Rick voltou a olhar para mim com um ar inquiridor – Vou adivinhar: não são ratos.

- Estás a melhorar.

- Quando é que te posso levar ao fantasma?

- Quando é que te dá jeito? – Vi-o fazer um trejeito ao lábio e suspirei, já devia estar à espera – Agora, certo?

- Sei que está a ficar tarde mas… assim amanhã já tínhamos algo por onde começar.

- Está bem… deixa-me só tomar um duche e comer qualquer coisa.

- Queres que te prepare alguma coisa?

- Não pai, obrigado – ele revirou os olhos e eu sorri-lhe – Dá-me vinte minutos e fico pronta.

- Tudo bem, vou telefonar ao Marty para nos encontrar lá.

- Quem é o Marty? – Perguntei, já das escadas.

- O agente Marty Kohl, o meu parceiro – gritou-me ele.

Se a minha primeira impressão estiver certa, não vou gostar desse homem nem um bocadinho. Mas com sorte ele só foi agressivo por causa da situação em que estávamos… com sorte.

Tomei um duche rápido e vesti umas calças pretas, justas, com uma blusa lilás, e calcei umas sandálias com pouco salto. Não enxuguei o cabelo, deixei-o apenas preso com uma mola.

Quando voltei ao andar de baixo, Rick estava a pôr queijo no meio de duas fatias de pão, juntamente com outras coisas que não consegui ver.

- O que estás a fazer? – Perguntei.

- O teu jantar – chegou ao pé de mim, passou-me a sandes para a mão, e começou a arrastar-me para a porta – Vamos.

Rick levou-me até uma casa bastante bonita, na verdade. Era pequena, tinha apenas rés-do-chão, mas parecia daquelas acabadas de tirar dos contos de fadas, toda bem pintada e enfeitada de flores. Parado em frente à porta, vi o agente Kohl, que pela expressão que fez, não estava à espera de me ver aqui. E não parecia feliz.

- O que é que ela está aqui a fazer? – Perguntou a Rick, assim que nos aproximámos.

- A ajudar – respondeu-lhe.

- É uma polícia? – Rick abanou a cabeça – Uma advogada? – De novo, abanou a cabeça – Então em que raios é que nos pode ajudar? Não temos mais pistas Rick, temos que fechar o caso, ordens de cima.

- Dá-lhe uma oportunidade – pediu Rick. Incrível, eles falavam como se eu não estivesse aqui.

- Desculpem… eu estou mesmo aqui, está bem? – Intervim, recebendo um olhar menos amistoso de Kohl – Posso só… posso entrar na casa para despacharmos isto?

- Porquê? – Insistiu Kohl.

- Confias em mim? – Perguntou-lhe Rick, ao que ele respondeu afirmativamente – Então deixa-a ir.

- É uma cena de crime selada Rick – resmungou ele.

Ao fim de algum tempo, Kohl assentiu, mas sempre com aquela expressão de que não concordava nada com a ideia. Afinal, ele não sabia das minhas capacidades, logo é normal que não me queira perto da cena do crime.

Rick entrou comigo, deixando o parceiro para trás, e assim que entrei na casa senti um arrepio. Algumas pessoas dizem que arrepios são sinais da morte a passar por nós… algumas vezes, estão certas.

Mas não conseguia ver ninguém. Rick informara-me que a vítima era Dianne, uma mulher com os seus trinta anos, de cabelos escuros, mas mais não me disse. E desde que entrámos que me está a olhar compulsivamente. Com ele assim nesse estado, nem eu aparecia se estivesse morta.

- Rick, vai-te embora – pedi, já farta de o ter a encarar-me.

- O quê? Não…

- Queres o caso resolvido, ou não? – Perguntei, já num tom longe de estar calmo. Ele revirou-me os olhos e suspirou, mas depois saiu pela porta, batendo com ela. Respirei fundo e olhei para todos os lados, mas continuava sem haver sinais dela – Dianne? – Chamei – Dianne por favor, se estás aqui… nós apenas queremos ajudar. Sei o que te fizeram, e lamento. Apenas queremos que quem te magoou pague. Não queres isso? Mas tens que nos dar uma ajuda. Por favor. Dá-nos alguma coisa para seguir. Ajuda-nos a fazer justiça por ti.

Senti uma brisa leve que fez com que as poucas mechas de cabelo que tinha soltas se impulsionassem para trás, e quando também eu me virei, o cenário mudou.

 

A casa estava com um brilho diferente. Havia velas acesas, e paus de incenso a arder, trabalhando para construir um ambiente mais descontraído. Dianne estava sentada no sofá, impacientemente, a bater com o pé no chão repetidas vezes. Olhei em volta, ela estava sozinha. Aproximei-me dela e tentei chamá-la, mas não me podia ouvir. A campainha tocou. Ela levantou-se e foi abrir, e eu segui logo atrás. Atrás da porta estava uma mulher com um cabelo curtinho, que pela cara que Dianne fez, não era de quem estava à espera.

- Quem é você? – Perguntou ela. Mas a mulher não lhe respondeu. Em vez disso abanou a cabeça e Dianne adoptou uma postura assustada – Não faça nada, eu tentei parar, tentei. Mas amo-o.

- Mas ele devia amar-me a mim – proferiu a mulher, antes de levar a sua mão à sua enorme mala preta e de lá tirar uma pequena pistola, que apontou a Dianne – Esse é o preço que pagas por ser uma amante – Dianne começou a correr pelo corredor, e eu desviei-me para a deixar passar, mas quando aquele barulho ensurdecedor surgiu, começou a tropeçar nos próprios pés e a cambalear, caindo para a frente. A visitante deu meia dúzia de passos para dentro da casa, perante o meu olhar de pânico, e Dianne voltou-se no chão, para a encarar. Deu um último semblante a uma fotografia que tinha em cima da cómoda, e então mais dois tiros soaram. A mulher voltou a esconder a arma, toda ela tremia, mas o mal estava feito. Correu para fora da casa, e eu corri para Dianne. Ajoelhei-me perante ela e vi a vida fugir-lhe dos olhos. Pude sentir a sua dor, a tristeza de partir para sempre. Pude sentir ainda o sabor ferrugento do sangue a ir-lhe para a boca, e a escorrer em seguida para o chão.

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